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Pernambuco e Paraíba: união para além da geografia

Músicos autorais dos dois estados têm trocado experiências e dividido palcos, reforçando a efervescência das sonoridades entre os artistas vizinhos

Juliano Holanda e Marcello RangelJuliano Holanda e Marcello Rangel - Foto: Arthur Souza/Folha de Pernambuco

Há muito de Pernambuco na Paraíba, com um vice-versa também indiscutível. Musicalmente, o aconchego entre os dois estados tem demonstrado afinação nos palcos que têm sido recentemente divididos aqui e acolá, fazendo circular novas (e boas) possibilidades de vozes, cantos e histórias. Ora pelas inquietudes que cercam produções artísticas, ora por diálogos naturalmente coincidentes que levam ao encontro dessas sonoridades, o fato é que o "mercado alternativo" de cantores e compositores tem se tornado, por vezes, a melhor opção para os ouvidos atentos.

"As trocas são necessárias e já ocorrem num âmbito mais sutil. É necessário que isso seja mais efetivo", salienta Juliano Holanda, um dos nomes pernambucanos ligados a este intercâmbio. Ao lado do conterrâneo Marcello Rangel, ele participou desse "lá e lô" de ritmos e harmonias com os músicos paraibanos Titá e Chico Limeira, em trocas culturais que têm sido realizadas pelo Café Liberal, no Bairro do Recife.



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"Assim como Pernambuco, também há construção de uma nova cena na Paraíba, berço de grandes nomes da música brasileira. Pensamos nesse intercâmbio a partir de um projeto que já existe, a 'Quinta da Música Popular Pernambucana', que passará a ter uma agenda fixa entre artistas de ambos os estados", explicou Twilla Barbosa, gerente operacional do Café, um dos poucos espaços no Recife que abrem as portas para movimentos autorais de música e poesia, por exemplo. "Temos uma safra de música popular de altíssimo nível e nada mais justo do que começar a ultrapassar fronteiras geográficas, criando um elo com nosso estado vizinho, a Paraíba", complementa.

Para Juliano Holanda - nascido em Goiana, município da Região Metropolitana do Recife (RMR) e que faz o papel de fronteira entre os dois estados - essa troca surgiu naturalmente pelo acesso fácil que ele sempre teve aos dois estados. "Estar no Recife ou em João Pessoa sempre foi opção para mim. Passava parte das minhas férias na Paraíba e absorvi muito da música de lá", enfatiza o músico, que enaltece a cultura vizinha, citando alguns dos nomes que integram o rol artístico do estado.

"A poética paraibana tem uma lâmina afiada, as letras têm uma força muito aguda. Desde de Cátia de França, Pedro Osmar, Paulo Ró, passando por Chico César, Jarbas Mariz, Bráulio Tavares, Cabruêra, Totonho, até desembocar em Seu Pereira e Chico Limeira, alguns dos cronistas contundentes do nosso tempo", conclui.

E a partir de Chico Science...
É impraticável pensar na efervescência da cena musical de Pernambuco sem fazer menção à estética emblemática do Manguebeat criado por Chico Science e sua Nação Zumbi e por Fred Zero Quatro na década de 1990. Os reflexos persistem aos dias atuais, unindo artistas que se propõem a dividir palcos e promover diálogos no que hoje chamamos de cena alternativa/independente - equivalente ao nosso "estilo mangue" (underground) de outrora.

Uma influência, aliás, levada país afora e com potência para atrair a atenção dos paraibanos, a exemplo do compositor Chico Limeira, que voltou os olhos para a musicalidade da "terra dos altos coqueiros", a partir das reflexões e metáforas musicadas pelo movimento. "A explosão de nordestinidade, o olhar de mundo construído, falando do social e das coisas da terra do Chico, sempre levantando questões sociais importantes e tão atuais até hoje, influenciou a Paraíba para acompanhar a música pernambucana", contou Limeira, um dos artistas que têm trocado experiências com as "bandas de cá'.

Assim como ele, o seu também conterrâneo Titá carrega boas impressões entre as sonoridades vizinhas, reforçando que "João Pessoa e Recife são dois polos de produção de música criativa importantíssimos para renovação da música brasileira".

Artistas paraibanos Titá Moura e Chico Limeira

Artistas paraibanos Titá Moura e Chico Limeira 
Foto: Arthur Souza/Folha de Pernambuco

Integrante do time que vem se abrindo para esta troca de experiências circulantes, ele cita nomes como Lenine, Alex Madureira, Lula Queiroga, Zé Ramalho e Isaar como protagonistas de "um namoro estético antigo" entre as cidades, desaguando hoje em artistas como Martins, Seu Pereira, Gabi da Pele Preta, Natália Bellar e Juliano Holanda. "Tem a ver com percepção empática e admiração mútua entre as duas cenas e uma poderosa tradição de cancioneiros que nos deixa sempre atentos uns aos outros", justifica.

Já para Marcello Rangel há uma ponte "paraibucana" que faz circular esse fluxo cultural, mutuamente admirado e retroalimentado por interseções entre os artistas. "A música pernambucana não para, é um caldeirão constantemente sendo mexido e a comida vai pegando gosto. Posso afirmar que estou vivenciando uma movimentação de aprendizado e retomada do caminhar coletivo e da generosidade artística, algo que na minha opinião ou andava adormecida ou menos organizada. Um fenômeno, creio eu, que também está acontecendo na Paraíba", ressalta.

Flaira Ferro + Chico César

"O santo bateu". Foi dessa forma que a artista pernambucana Flaira Ferro resumiu sua relação com Chico César, com quem recentemente participou da gravação de uma das faixas do novo trabalho do cantor e compositor paraibano, previsto para ser lançado em agosto. "Abri um show dele no Recife, em 2018. Pouco tempo depois, fui me apresentar em São Paulo e ele foi me ver. Depois disso, recebi dele um pedaço da letra de uma canção, perguntando se eu topava terminá-la. Foi nossa primeira parceria e, a partir daí, passamos a trocar ideias", contou ela, que também teve a maestria do artista nascido em Catolé da Rocha em seu próximo trabalho, previsto para setembro.

 

Artista pernambucana Flaira Ferro

Artista pernambucana Flaira Ferro
Foto: Fer Verícimo/Secult-PE


Com a lucidez peculiar de uma geração da música que resiste em dialogar por meio da arte, Flaira aposta no senso coletivo como força para manutenção da cena independente local. "Só tem força porque leva em consideração o que todos têm a dizer", retruca ela, que se refere à arte como uma espécide de "afago do espírito" em tempos sombrios, ao mesmo tempo em que, como expoente da música pernambucana autoral, reclama da falta de espaços que abram as portas para iniciativas artísticas/independentes.

"Acho que Recife ainda é muito carente de locais que abracem ideias coletivas. Por vezes, somos acolhidos por amigos próximos que abrem suas casas e quintais, a exemplo do Pequeno Latifúndio e da Jambo Azul, além do (Café) Liberal. São poucos os espaços onde a gente consegue sair da bolha", complementa a artista, que em breve cairá na estrada com o espetáculo "Dita Curva", concebido e idealizado com outras dez cantoras, compositoras e instrumentistas.

 

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