Pernambuco nas telas de cinema

"Pernambuco tem sido um celeiro de bons diretores, e há várias gerações diferentes de profissionais produzindo aqui", destaca o cineasta Jura Capela

Índice passou de 40%, em 2015, para 90%, atualmenteÍndice passou de 40%, em 2015, para 90%, atualmente - Foto: Divulgação/Funase

Em meio às oscilações do ano de 2016, Pernambuco marcou presença no meio audiovisual. Foi possível para o espectador local ouvir o próprio sotaque, se identificar, sem se deparar com os estereótipos tão comuns em “produções de fora”. No cinema, “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, e “Aquarius”, de Kleber Mendonça Filho foram as produções que tiveram mais reconhecimento dentro e fora do País. Diante do perigo de selecionar marcos, os dois surgiram como a ponta de um iceberg, como destaca o cineasta Jura Capela. “O cinema pernambucano vem dando um grande salto positivo na sua história. Dois dos seus produtos, os filmes ‘Boi Neon’, de Gabriel Mascaro, e ‘Aquarius’, de Kleber Mendonça Filho, foram eleitos entre os dez melhores do ano no mundo, pelo jornal norte-americano The New York Times. Isso coloca o cinema brasileiro e, principalmente, o feito pelos pernambucanos, em um lugar especial, de muito respeito em todo o planeta e onde se fale de cinema. Pernambuco tem sido um celeiro de bons diretores, e há várias gerações diferentes de profissionais produzindo aqui.”

“Aquarius”
A obra, por sua vez, foi alçada ao posto de porta-voz diante de um cenário político conturbado. Sua trajetória iniciou em maio deste ano, no Festival de Cannes, em Paris. Logo no dia de sua sessão de gala, no tapete vermelho, a equipe mostrou cartazes com dizeres como “Um golpe aconteceu no Brasil” e “O Brasil não é mais uma democracia”. As reações foram as mais variadas. De favorito para ser o representante do Brasil para o Oscar, foi preterido pela comissão especial do Ministério da Cultura. O selecionado “Pequeno Segredo” não seguiu na indicação do prêmio da academia norte-americana de cinema.
Fellipe Fernandes - assistente de direção de “Aquarius” e realizador de “O Delírio e a Redenção dos Aflitos”, curta selecionado para a Semana de Crítica de Cannes -, chegou a fazer um discurso a respeito da situação política do Brasil no festival, e lamentou a decisão do comitê. “É triste porque, na história da lista de filmes indicados ao Oscar, era nossa chance, depois de muito tempo, de entrar nas short lists. Mas o filme acabou se tornando maior que isso com todos os prêmios que ganhou e as citações nas listas de melhores do ano pelo mundo. O fato de não ter sido o representante do Brasil para o Oscar não diminuiu sua potência. Só ficou feio para o País.”
“Boi Neon”
O filme, que traz o universo do vaqueiro Iremar - interpretado por Juliano Cazarré -, já vinha alcançando vitórias desde 2015, na verdade. Mas, neste ano, os méritos atingiram maior reverberação, como o Prêmio Fenix Íbero-Americano de Cinema. A obra foi licenciada para a Netflix, ainda sem previsão de estreia na plataforma. O longa deverá ser comentado no próximo ano, uma vez que “Boi Neon” é o representante brasileiro na categoria Melhor Filme Ibero-Americano no Prêmio Goya, que ocorre em fevereiro na Espanha.
Mulheres
Outro ganho que o ano trouxe para o cinema pernambucano foi a criação do movimento Mulheres no Audiovisual PE (Mape) que, para a diretora e roteirista Dea Ferraz, representou um grande marco. “Assim como outros setores, o cinema é também machista, e o movimento mexeu com o segmento, principalmente em Pernambuco”, avaliou. Segundo Dea, é difícil, no entanto, falar em 2016 sem pensar o momento em que o País vive, que é de insegurança. Apesar disso, a cineasta reconhece que o ano foi produtivo para o seu trabalho: ela pôde estrear “Câmara de Espelhos”, filme que trata a violência contra mulher por um recorte do discurso masculino, e que tem tido boa circulação nacional. “Colhi coisas boas com um longa que segue abrindo caminho para o debate e a reflexão“, afirmou. Além disso, seu novo filme, “Modo de Produção”, que está sendo finalização, já foi escolhido para a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Cenário
Já na televisão, Pernambuco foi cenário da minissérie “Justiça”, da Globo. Ambientada no Estado e com atores locais no elenco, a obra chamou a atenção por sua linguagem, ao interligar quatro histórias a partir do mote da vingança. As gravações foram realizadas em maio, e a produção foi ao ar em agosto. O longa-metragem “A Costureira e o Cangaceiro” também teve cenas filmadas por aqui. O projeto, que se estende como minissérie para a tevê, é dirigido por Breno Silveira.
Já na televisão fechada, a produção “Fim do Mundo”, com direção de Hilton Lacerda e produzida pela REC Produtores Associados, foi exibida no Canal Brasil. As filmagens foram realizadas no município de Triunfo, no Sertão. A minissérie, dividida em cinco episódios, teve no elenco nomes como Jesuíta Barbosa e Hermila Guedes.
Mercado
Para Nara Aragão, sócia e produtora executiva da REC, 2016 foi de instabilidade. “Este foi um ano cheio de trabalho, mas também de incertezas, tanto pela troca de governo quanto pelo que aconteceu com o MinC (o Ministério da Cultura chegou a ser extinto no início da gestão de Michel Temer), apesar de a gente ainda contar com a Ancine (Agência Nacional de Cinema). (O ex-ministro) Gilberto Gil havia criado um projeto para a cultura do qual ainda estamos colhendo frutos, existia um debate. Mas hoje há uma dificuldade imensa de interlocução e não temos mais uma agenda clara para o audiovisual. Aqui no Estado, não vejo com bons olhos a volta do mecenato. Temos um sistema cuja transferência de recursos para incentivo à Cultura é feita através do Funcultura. Agora teremos negociações menos transparentes com os departamentos de marketing das empresas. Não acho saudável.”

 

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