Personagem ícone do horror, Frankenstein completa 200 anos

Livro escrito por Mary Shelley lançou a figura meio monstro, meio humano, que é referência pop até a atualidade

Frankenstein completa 200 anosFrankenstein completa 200 anos - Foto: divulgação

Na lista de monstros que assombram por seus corpos e feições, seres que sugerem mistério e horror grotesco, está Frankenstein. Da interpretação do ator Boris Karloff, nos anos 1930, às versões cômicas da criatura na animação "Hotel Transilvânia", Frankenstein segue como uma referência fascinante 200 anos depois da publicação do livro que apresentou o personagem, lançado originalmente em janeiro de 1818.

Escrito por Mary Shelley (1797-1851), "Frankenstein" surgiu na agitação pós-Revolução Francesa. "A Revolução excitou os ânimos dos escritores românticos", diz André de Sena, professor do departamento de Letras da UFPE. "O círculo a que Mary Shelley pertencia tinha contatos com a nobreza. Seus pais eram intelectuais, mas ela recebeu uma educação liberal. Não à toa se ligou ao universo contracultural de um aristocrata outsider, Lord Byron, e se casou com outro poeta - não menos iconoclasta - P. B. Shelley", detalha.

O livro trata das experiências do cientista Victor Frankenstein, que tenta criar um ser humano, mas sua criação se torna uma espécie de monstro. "Em termos de teoria romântica, deve ser observado o conúbio entre o grotesco e o sublime. Não se trata mais de um choque de contrários, como ocorria no barroco", diz André. "O romantismo descobre a beleza do grotesco, unindo as duas categorias antes estanques. Frankenstein é contrário à imposição dos padrões normativos do universo neoclássico anterior ao romantismo", ressalta.

O valor do texto, que permanece uma referência dois séculos após sua publicação, está na escrita de Shelley. "Para além da mensagem humanista, observo a união de subgêneros e modalidades na escrita de 'Frankenstein'", explica. "A liberdade criativa proposta pelo gênero/modo fantástico, imbricado ao gótico, ao sentimental, ao romance de formação, à ficção científica, pode ser considerada uma verdadeira revolução na arte da narrativa", destaca.

Grotesco e belo

A imagem de Frankenstein é normalmente associada a um monstro grande e disforme, uma massa bruta recortada e modelada de forma assombrosa, por causa da sua representação no cinema, especialmente nos anos 1930, quando o estúdio Universal começou a produzir filmes com monstros: Drácula, Múmia e também Frankenstein. "Os dois primeiros filmes realizados no ciclo da Universal foram provavelmente os mais importantes com a presença do monstro no século 20", diz Rodrigo Carreiro, professor do curso de cinema da UFPE.

Entre as adaptações, destaque para os dois primeiros: "Frankenstein" (1931) e "A noiva de Frankenstein" (1934). "Não apenas porque foram os lançadores da imagem do monstro como a gente ficou conhecendo na cultura pop, mas também porque são bem realizados e estão entre os melhores do ciclo da Universal", destaca Rodrigo. "Foram dirigidos por James Whale, provavelmente o mais talentoso e sensível dos cineastas que trabalharam no ciclo dos filmes de monstros da Universal", detalha.

As adaptações para cinema ajudaram a fundamentar na memória do espectador não apenas o horror físico do monstro, seu fascinante aspecto grotesco e belo, mas também alegorias sobre o que ele pode representar. "Frankenstein levou algumas décadas para poder se fixar no imaginário popular, e acho que isso só aconteceu a partir da aparição no cinema. A gente conhece o monstro muito mais pela visualidade, que é bem cativante e não corresponde à imagem descrita no livro de Mary Shelley", diz.

"O visual do monstro e sua própria personalidade no livro são bastante diferentes do que é mostrado no filme da Universal, mas aquela criação visual de Boris Karloff, com aquele rosto meio quadrado, os parafusos no pescoço, as cicatrizes... Aquilo tem uma visualidade icônica muito poderosa e acabou de fato entrando no imaginário popular", explica. "A discussão filosófica a respeito da dualidade homem x natureza, esse tema arquetípico do homem brincando de Deus, é trabalhado de uma maneira muito inteligente nesses dois filmes", ressalta.

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