Música

Amaro Freitas: jazz personalizado por um"tambor de 88 notas"

Pianista pernambucano ganhou palcos do Brasil e mundo afora e, mais recentemente, "abraçou" com arranjos EP de Milton Nascimento e Criolo

Amaro Freitas, pianistaAmaro Freitas, pianista - Foto: Helder Tavares

Se viável fosse traçar um diálogo entre o jazz e Amaro Freitas, o fluir da imaginação começaria pela gratidão do gênero à excelência a que foi levado pelo dedilhar do pianista que, em meio a trompetes, baterias e contrabaixos, amplia o estilo musical e o personaliza com sotaque pernambucano-brasileiro. 

A percepção de que o estilo seria a sua saída para viver da/com a música, veio tão logo lhe foi apresentado o som de Chick Corea, fato que dali em diante o levaria por caminhos orgânicos e autorais, de “arder o coração”, como ele próprio colocou ao descrever a sua entrega ao instrumento que lhe rendeu reconhecimento fora e dentro das fronteiras do País.
 

O mais recente deles, inclusive, se deu no projeto “Existe Amor”, EP solidário composto por quatro faixas que tem à frente Milton Nascimento e Criolo, idealizadores de uma campanha que pretende usar a arte como ferramenta de transformação, também (e principalmente) em tempos de pandemia. 

 

“São dois seres iluminados que brilham na vida de muita gente e quando soube que eles me queriam no disco, comecei a fazer os arranjos. O processo criativo nem sempre é tão rápido, e eu quis o maior nível de sensibilidade que eu poderia ter para encaixar minhas notas às músicas,”, ressalta.

Ao bel prazer minimalista de um piano “meio erudito, meio europeu”, segundo o próprio Amaro, para a releitura de "Cais", a destreza dos arranjos chegou na mesma frequência da voz de Milton Nascimento, “atrelada à técnica e percepção do som, e como ele (Milton) canta muito suave, a impressão é de que meu piano está abraçando a sua voz e soando com harmonia”, explica.  


 

Já para Criolo, em “Existe Amor em SP”, o instrumento chega entrelaçado pelo “modern piano” e pelo “urban jazz”, com acordes de um “jazz moderno, atrelado ao hip hop, música de rua, porque quando eu entendo o Criolo estou atento para fazer os arranjos nessa mesma dinâmica”, complementa Freitas.

Da estreia em “Sangue Negro” (2017) até “Rasif” ( 2018), este último pelo selo inglês Far Out, Amaro foca em dar acesso ao melhor lugar que o seu piano pode chegar em arranjos e produções jazzísticas, aliadas à nordestinidade do frevo, do maracatu e do baião, entre outros – culminando em unanimidades entusiásticas da crítica especializada. 

Exceção à regra de ter um instrumento elitizado em sua predileção como músico, ele lamenta o quão desigual é o Brasil que privilegia a uns e se exime em dar acesso a tantos outros.

“O piano... na ‘perifa’ muitos nem ouviram falar, sequer já viram ou estiveram perto dele sendo tocado por alguém. Como se pode consumir música instrumental, pensando nessa categoria jazzística, se não é oferecido esse estilo ou essa vivência?”, questiona.
 

Um piano como um tambor de 88 notas
Ao pai – padeiro, pedreiro e “outras funções que ele desenrolava, típicas de um homem de periferia que sabe mexer em eletricidade e até se mete a encanador” - Amaro Freitas é gratidão, até quando não lhe foi possível seguir no Conservatório Pernambucano de Música aos 15 anos, porque a parcela de R$ 30 à época, era pesada demais para ser paga. 


“E essa é uma realidade muito cruel. É como se a oportunidade de expansão da periferia se limitasse a tantas outras questões”, lamenta.

Embora não se saiba quantos “Amaros” podem/poderiam surgir das periferias para viver da música, tal qual desejou e realizou Amaro Freitas - que como telemarketing, tocando em pizzaria ou dando aula em projetos sociais, chegou aos palcos principais do Brasil e do mundo  - a ideia de “focar em viver música como artista autoral”, como ele apregoa, é alento para outros corações que provavelmente ardem em trilhar o mesmo caminho.
 

Questionado sobre adjetivações que lhe remetem a ser único no que faz com o piano, ele pondera e direciona à sua sensibilidade e à conexão de liberdade de um “eu anterior” que reflete no olhar de “transformar uma coisa simples, em arte”.

“Se eu não fizer ‘isso’ tido como correto, como será que soa? Se eu for por ‘esse’ caminho? É uma construção gigante fazer coisas no piano que não são tradicionais, levar em conta um lado mais percussivo do instrumento, percebendo ele como um tambor de 88 notas onde posso fazer várias combinações”.

 

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