Ópera Cinemática

Pioneira em multimídia no Brasil, Jocy de Oliveira estreia ópera para cinema

O filme “Liquid Voices - A História de Mathilda Segalescu” chega aos serviços de streaming ao mesmo tempo em que o livro "Além do Roteiro", assinado pela diretora, é lançado online

Aos 84 anos, Jocy de Oliveira é pioneira em música eletrônica e multimídiaAos 84 anos, Jocy de Oliveira é pioneira em música eletrônica e multimídia - Foto: Guga Melgar/Divulgação

Pioneira da música eletrônica e da arte multimídia no Brasil, Jocy de Oliveira inova mais uma vez, aos 84 anos, com “Liquid Voices - A História de Mathilda Segalescu”. O filme, premiado em festivais ao redor do mundo, é uma ópera pensada especificamente para o cinema. Devido à pandemia de Covid-19, a obra estreia diretamente nas plataformas de streaming (NOW, Looke e VivoPlay), nesta quinta-feira (2).

Junto ao longa-metragem, a diretora lança online o livro de arte “Além do Roteiro”, no qual apresenta o roteiro da produção, fotos e reflexões sobre questões da intertextualidade de mídias. Em entrevista à Folha de Pernambuco, a compositora, escritora e pianista curitibana falou sobre o novo trabalho e relembrou momentos importantes da carreira.



Entrevista

Qual foi o ponto de partida para a criação do filme? 

A gênese de "Liquid Voices" data de 2005 (quando ganhei uma Bolsa da Fundação Guggenheim, em Nova York) com a criação de um vídeo de curta-metragem, "Noturno de um piano", como primeiro experimento de um projeto contínuo intitulado "Projeto Soif". O vídeo denuncia a situação agonizante da música erudita no Brasil, lançando ao mar um piano como ícone de uma alta cultura submergindo: um piano de cauda que flutua à deriva até naufragar. O vídeo é um questionamento do papel do artista na sociedade de hoje e o piano como forma emblemática subvertida pela cultura de massa. Um longo processo que, pouco a pouco, me levou aos náufragos e a imaginar a ficção de uma diva, Mathilda Segalescu, que embarca com seu piano em uma viagem sem retorno a bordo de um navio. Após muita pesquisa, encontrei o navio Struma (última embarcação a deixar a Europa em direção à Palestina em 1941) que naufragou no mar Negro. Situei minha ficção neste evento factual. Contei com dois intérpretes excepcionais: a soprano e atriz Gabriela Geluda e o tenor e ator Luciano Botelho.

Acompanhar um espetáculo no teatro e uma obra cinematográfica são experiências distintas. Quais preocupações entram em jogo na hora de formatar uma ópera cinemática?  

São inúmeras as diferenças entre montar um espetáculo teatral e uma produção cinematográfica. O roteiro nasceu prioritariamente para uma ópera cinemática, isto é, escrita para o cinema, prevendo técnicas de cinema e para ser filmada em diferentes locações. Em seguida passei a versão teatral que estreamos no Teatro da 24 de Maio, do Sesc São Paulo, em 2017. O cinema usa uma linguagem mais naturalista e o teatro usa uma linguagem simbólica. Entretanto, tentamos também usar uma simbologia na linguagem cinemática filmando em espaços em ruínas, em lugar de um navio avariado, pois ambos significam a destruição. Em cinema, a música é considerada uma trilha sonora - é colocada no final da filmagem e até mesmo na montagem das cenas. É considerada um background, e deve ser subserviente à imagem. No caso de "Liquid Voices", e ao contrário do habitual em cinema, a música é um elemento que define a duração das cenas. Foi composta simultaneamente ao roteiro. As pontes entre as cenas são compostas por segmentos eletroacústicos como paisagens sonoras que sustentam o texto e delineiam o espaço. 

Você imagina como será o impacto do filme no público em tempos de pandemia e streaming? 

Esta pandemia avassaladora nos alcançou a todos já na era digital e felizmente hoje, a música como expressão efêmera encontra um veículo virtual poderoso para sua sobrevivência. O ritual dos teatros, dos concertos perdurará pelas vias online. A música não precisa se acomodar em museus. Ela esta em toda parte, no etéreo, nas nuvens.

Em "Liquid Voices", piano é o único sobrevivente de um naufrágio 

O filme é um resgate ficcional de uma história vivida na Segunda Guerra Mundial. No entanto, ao falar sobre a questão dos refugiados, a trama ganha uma atualidade muito forte. Essa conexão entre passado e presente foi intencional? 

De certo modo foi premonitória. A volta à Segunda Guerra Mundial tem hoje uma relevância  muito presente na onda que percorre o mundo da extrema direita, de governos autoritários, de neonazismo, que nos assustam fazendo de certa maneira com que a história se repita. A questão da quarentena também, estamos vivendo confinados, sem podermos circular com o medo do vírus invisível que nos faz desconfiarmos do próximo e isso nos leva a pensar como tantos judeus viveram encurralados por meses ou anos escondidos de uma ideologia maléfica do nazismo, para como nós nos protegermos da morte. No filme também, a protagonista – uma diva judia  ficcional - Mathilda Segalescu (Gabriela Geluda) embarca em um navio em uma viagem sem retorno da Romênia para Palestina. O navio fica preso no porto de Istambul em quarentena por dois meses encurralando 769 refugiados judeus em situação desesperadora e precária. 

Com “Fata Morgana”, em 1994, você foi a primeira mulher a ter uma ópera encenada no Teatro Municipal de São Paulo. De lá pra cá, o que mudou no espaço ocupado pelas compositoras no meio musical? 

Devo dizer também que minha peça "Apague meu spotlight" em colaboração com Luciano Berio foi apresentada em setembro de 1961 no Teatro Municipal de São Paulo e no Rio de Janeiro. Esta peça representou a primeira apresentação de música eletrônica no Brasil. Contou com a atuação de Fernanda Montenegro, Sergio Britto e o Teatro dos sete. Antes da apresentação no Municipal "Fata Morgana" estreou no Museu de Arte Moderna do Rio, em 1987. Não fui a primeira mulher, mas a primeira entre compositores homens e mulheres após Carlos Gomes. Desde então, mudou muito pouco. Hoje,  na programação mundial de música erudita só figuram 2% de mulheres compositoras.

Diante da pandemia do novo coronavírus, a cultura vive um momento sem precedentes. Você acredita que isso mudará algo na forma como os artistas (especialmente os ligados ao palco) produzem? 

Temos que nos adaptar a um mundo virtual. Tudo será diferente após o Covid-19. Temos que nos preparar para um novo viver, talvez mais consciente, perceptivo, humanitário. 

Suas óperas nunca são convencionais. É preciso inovar e “sair da caixa” para pensar em ópera no século 21?  

Compor é inventar. Nós compositores, como  os cientistas, artistas em geral, procuramos um novo caminho. Nem todos descobrem, mas encontram algumas passagens que pouco a pouco contribuem para a verdadeira inovação.

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