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Poesia que cabe na sua imensidão

'É uma poesia sem excessos, sem sobras e faltas', ressalta Marcos Vilaça, imortal da ABL, sobre o poeta

Se vivo estivesse, Cabral completaria 100 anos Se vivo estivesse, Cabral completaria 100 anos  - Foto: Folhapress/Arquivo

 

100 anos João Cabral de Melo Neto

100 anos João Cabral de Melo Neto - Crédito: Arte Folha PE/Greg 

O rio do “Cão Sem Plumas” de João Cabral de Melo Neto "sabia dos caranguejos de lodo e ferrugem, sabia da lama”. E em seu “Morte e Vida Severina”, éramos “muitos Severinos, iguais em tudo na vida”, porque em sua poética não cabiam delongas romantizadas, tampouco devaneios emocionais. Cerebral que era, em meio a versos associados a realidades postas, o pernambucano centenário não declamava por beleza, mas por intuição de que a posteridade seria um dos prumos de sua obra. "É uma poesia sem excessos, sem sobras e faltas", ressalta Marcos Vilaça, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Já a Pernambucana (APL) ele integrou em 1990, fato que “envaidece e orgulha” a instituição, de acordo com a presidente Margarida Cantarelli. “Com ele, mostramos o sentimento da nossa terra para que outros pudessem também admirar e se apaixonar”.

Assim como nos acadêmicos, que não hesitam em reconhecer no poeta pernambucano a maestria de contextualizar a existência à arte, João Cabral de Melo Neto reflete em outras tantas linguagens artísticas atuais, haja vista a atemporalidade de seus escritos, que permanecem ativos para inspirar nomes como Toinho Mendes, limoeirense do repente, do cordel e do aboio e o tanto quanto militante da poesia que aglutina elementos cotidianos ao imaginário dos versos. "Quando ele traz o Capibaribe, ele não romantiza. Existe realidade, verdade, que continua até os dias de hoje. Ele tinha o rio como quem vive o rio, em detalhes; o rio em que se tira o sustento; o rio que traz entre suas referências as imagens do que ele quer fazer dentro de uma poesia contextualizada.



Esse é o João Cabral, que enaltece o Recife dentro de contextos e metapoesias construídas para que as pessoas pudessem pensar suas vivências" explica, e segue declamando, no improviso de um repente: "Depois que descobri há muito tempo que assim penso, e que assim como ele, busco inspiração e beleza em tudo que é cantinho jogado, principalmente na natureza, o poeta se tornou para mim exemplo, como se diz, de um grande poeta que fazia cada poesia olhando para tudo que é lado". E como tão bem disse o representante da ABL, "João é o poeta da essência".

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Fato que, provavelmente, lhe traz como diferencial entre outros tantos nomes da arte, pelo fazer artístico que retratava, por exemplo, a vida de um migrante sertanejo (leia-se retirante), trazido sem embaraços em seu "Morte e Vida Severina", embora ele próprio considerasse a mais simples de suas poesias - e, por isso mesmo, a que mais se desdobrou em outras linguagens e chegou a tanta gente. "A arte não está dissociada da vida, da crítica social e da denúncia. Esses são recursos utilizados por muitos artistas em diferentes estilos", reforça a artista plástica Anita Freitas, que cita o muralismo, a fotografia, o cinema e a música entre as vertentes dadas à arte de João Cabral de Melo Neto.

Anita, inclusive, recentemente ministrou, no Recife, oficina inspirada em uma das obras mais significativas do pernambucano, o poema "A Educação Pela Pedra". "A proposta foi escolher uma pedra como objeto de observação, para, assim, perguntar o que podíamos aprender com essa pedra. Os versos foram lidos e refletimos sobre a nossa escolha, feita com base no lado de dentro ou de fora? A resposta será dada ao longo da vida", ressalta. "A educação é mais que aprender, é o apreender. Quando João propõe a educação pela pedra fica clara a questão social, o dentro e o fora, as aparências, o exterior e o interior. A superficialidade das relações sociais ou as escolhas conscientes?", questiona.

"Facas afiadas e cães sem plumas"
Nas declamações e cantorias do multiartista recifense Antonio Nóbrega, o 'palavrear realidades' utilizando a poesia como uma espécie de grito do mundo é uma constante. Até porque, não raras são as vezes em que o momento histórico de uma cultura obriga (sugere) que o poeta tenha a sua linguagem com sinergia ao momento em que se vive. E é exatamente essa a essência de "Rima" (2019), produzido por ele junto a Bráulio Tavares e Wilson Freire, outros dos poetas de "nosso tempo".

O disco reúne cancioneiro autoral que dialoga através de sextilhas, emboladas e galopes, com os dizeres de João Cabral, um dos nomes citados na faixa "Minha Voz não Silencia Porque Poeta não Cala" ao lado de Cecília Meireles, Lourival, Camões, Bob Dylan, Leminsky, Homero e Lorca. Em comum a todos eles e ao próprio Nóbrega, o fazer artístico que dá sentido à arte e ao seu papel de amplidão. "É um trabalho carregado de necessidades políticas, porque, como dizia Ezra Pound (poeta inglês), 'poesias são ideias, são palavras mais carregadas de sentido´'. A arte tem esse papel e em sua vastidão vale tudo: o político, o lírico, o metafísico", ressalta ele, em conversa com a Folha de Pernambuco.

Antonio Nóbrega segue bebendo na fonte de João Cabral

Antonio Nóbrega segue bebendo na fonte de João Cabral - Crédito: Divulgação

 

Trazer João Cabral de Melo Neto ao pungente contido em seus versos, portanto, seria essencial à proposta do disco, assim como a toda obra de Nóbrega, permeada desde sempre pela predominância da cultura popular como meio de exaltar o seu papel de artista na sociedade. "Em 'Minha Voz não Silencia Porque Poeta não Cala' e 'Quem Mandou Matar Marielle?', eu quis carregar e dar sentido a favor do momento, que, no meu entender, precisa que a poesia fale, que é uma arte que não tem limites. João Cabral tem, na própria natureza de sua poesia, o sentido da emoção, do uso da palavra, da sensação, como se ele buscasse o miolo, o oco das coisas e das formas, com a ideia da visceralidade. Quando quero escrever coisas ou poemas, histórias que sejam mais secas, diretas, passo uma semana lendo-o para afiar e aguçar o meu pensamento".

A habilidade de João Cabral em lidar com diferentes realidades o qualificou como autor dos universos populares, das agruras, tão habilmente reverberados por ele. "Apesar de ser um menino de classe abastada, ele também frequentou outros mundos, feito que o coloca em lugar especial, ao lado de um Guimarães Rosa ou de um Ariano Suassuna, que também circularam nestas vertentes da cultura brasileira. João integra a ala de escritores que têm secura, que carregam facas afiadas e cães sem plumas, o que me faz ser um leitor atento e um admirador de sua obra, por isso o meu encontro intelectual e afetivo com a poesia que ele nos transmite e como um dos grandes autores brasileiros cuja obra, podemos dizer, é a que mais se encaixa dentro do que podemos chamar de uma obra brasileira", explica Nóbrega.

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