Potência política do cinema é ressaltada em "A Terra Vermelha"

Filme argentino que entra em cartaz no Cinema do Museu traz trama de ficção que se faz atual ao ressaltar injustiças do cotidiano

Imagem dos bastidores da gravação de "A Terra Vermelha"Imagem dos bastidores da gravação de "A Terra Vermelha" - Foto: Divulgação

Há grande potência política em "A Terra Vermelha", filme argentino que entra em cartaz no Cinema do Museu (Casa Forte). O longa-metragem narra conflitos em uma comunidade em Misiones, na Argentina, onde pessoas sentem os efeitos destruidores de produtos químicos usados por uma empresa no processo de desmatamento. Em seu terceiro longa-metragem, o argentino radicado na Bélgica, Diego Martínez Vignatti, se posiciona sobre questões urgentes e complexas no mundo contemporâneo, usando o cinema como ferramenta de denúncia contra injustiças do cotidiano.

O protagonista é Pierre (Geert Van Rampelberg), um belga que trabalha para uma empresa responsável pelo desmatamento da floresta de Misiones, na Argentina. É um personagem que se torna interessante por suas contradições. Ele representa pessoas irresponsáveis e egoístas, gente guiada por dinheiro e ganância, chefiando um grupo que faz o trabalho braçal nas florestas, desmatando e fumegando. Ao mesmo tempo, Pierre tem uma rotina de homem bom, ajudando empregados, arregaçando as mangas para fazer ele mesmo o serviço, encorajando vizinhos.

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Pierre é mal visto na comunidade de Misiones, pois o material usado para fumigação pela empresa na floresta é tóxico. Começam a surgir relatos de doenças, mas ele defende que sempre trabalhou com esse equipamento. Ele se relaciona com Ana (Eugenia Ramírez) e é o treinador de rúgbi do filho de um dos habitantes do local, duas conexões que trazem uma interessante carga emotiva para as ações dos personagens. Ao mesmo tempo, Pierre defende os princípios da sua empresa, expulsando gente sem moradia e brigando contra pessoas humildes e sem voz política.


Essas pequenas situações se tornam gradualmente árduas e dramáticas, crescendo em intensidade e violência. A grande potência do filme é sua perspectiva política, pela maneira como sugere conexões com o mundo fora do cinema. As injustiças contra os habitantes dessa comunidade são facilmente reconhecíveis pelo que apresentam de universais. O silêncio dos políticos, a omissão da população das cidades grandes e a brutalidade da polícia surgem de forma intensa e emocional, indicando o posicionamento político do diretor.

A força do filme parece estar na maneira atual com que se relaciona com uma época em que as pessoas cada vez mais se engajam contra grandes injustiças, criando imagens de conflitos que costumam ser vinculadas em jornais e redes sociais. É um filme que parece ressaltar a importância de dar voz a pessoas menos favorecidas, vítimas de injustiças cotidianas que costumam ter suas histórias abafadas por assuntos menos relevantes.

Cotação: ótimo

 

 

 

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