Precioso e inesquecível líquido

Harmônia das notas dos perfumes guardam uma delicadeza semelhante à da música. Cheiro de cada pessoa varia, funcionando como uma impressão digital

Borrifando perfumeBorrifando perfume - Foto: Felipe Ribeiro

Sentido poderoso e apurado, é do olfato que depende a sobrevivência dos animais. Quando o homem consegue alcançar apuração tamanha, surgem perfumes da mesma maneira que obras de arte. Um perfumista, porém, não é um artista qualquer. É como um músico, pois cria a partir de notas, só que olfativas. Estas precisam chegar ao nariz de um jeito tão harmônico quanto as musicais aos ouvidos. Quando isso acontece, aquele líquido precioso nos leva a um universo mágico de sensações, lembranças e sentimentos eternos, não importando sexo ou idade. O que vale é o estilo de cada um. Afinal, o perfume até pode ser o mesmo, mas o pH da pele é diferente, portanto, o cheiro que exala varia, tornando-o único, como uma impressão digital.

De acordo com o livro "Brasil Essência: A Cultura do Perfume", de Renata Ashcar, a humanidade se perfuma desde a Antiguidade, quando os egípcios acreditavam que a passagem para a outra vida e o encontro com os deuses deveria ser feita com o cadáver bem cheirosinho, besuntado com óleos aromáticos extraídos das plantas. A rainha Cleópatra, antes de se envenenar, passou perfume no corpo inteiro. Já Marilyn Monroe ajudou a eternizar o Chanel Nº5 ao declarar que dorme com "apenas duas gotinhas" do ícone da grife francesa, lançado em 1921 e inesquecível até hoje.

Mas não dá para usá-lo todas as horas. Como se trata de um eau de parfum, que pode durar até oito horas na pele, talvez seja forte demais para o dia. "Após o banho, as colônias são mais leves, só que duram pouco na pele", ensina Carmem Nunes, gerente da multimarcas internacionais de perfumes Flag. O ideal para as primeiras horas seria o eau de toilete, que possui notas mais acentuadas do que a colônia, e é para ser usado durante o dia. O parfum, por sua vez, pode chegar a 12 horas de duração. "Mas não é indicado para o nosso clima, pois é muito forte", avisa.

Tal como o Chanel, existem perfumes antigos que ultrapassam gerações incólumes, sem perder a majestade. A colônia 4711, da alemã Kölnisch Wasser, é do século 18, e ganhou esse nome pois era a numeração da casa, dada pelas tropas de Napoleão Bonaparte ao invadirem a cidade de Colônia. Se por um lado há perfumes que resistem por quase três séculos, outros desaparecem do mercado rapidamente, sem aviso prévio, deixando clientes sem identidade. Veterana nesse mercado, onde trabalha há 50 anos, Carmem já viu muita gente se desesperar. "É por isso que eu sugiro que as pessoas tenham mais de um perfume da mesma família olfativa, para não ficarem na mão, caso isso aconteça".

Perfume também não escapa à moda e é regido por ela. Toda grife de luxo que se preze tem um cheiro para chamar de seu: Gucci, Dior Hermès, Jean Paul Gaultier, Dolce&Gabbana, Carolina Herrera, Armani, Marc Jacobs... No livro de Renata Ashcar, ela conta que o estilista Paul Poiret foi quem inaugurou, em 1911, o conceito de fragrância de estilista e disse certa vez: "O vestido lhe cai perfeitamente, mas, se você acrescentar uma gota do meu perfume, vai ficar deslumbrante". Ah, não dava para esquecer dos frascos. Aquele ditado "é nos menores frascos que estão os melhores perfumes" deveria mudar para "é nos melhores designs de frascos que estão os melhores perfumes". São vidros e tampas em forma de coroa, diamante, corpete, flores exuberantes, barras de ouro, estrelas... Verdadeiras joias, tão preciosas e inesquecíveis quanto o líquido que carregam.

ARTE

Pirâmide olfativa

Notas de saída (primeiras que sentimos) - frutas cítricas e ervas aromáticas como lavanda e alecrim
Notas de corpo (sentidas assim que o perfume desaparece sobre a pele) - notas de flores, folhas e especiarias
Notas de fundo (último acorde a ser percebido) - notas de madeiras, resinas ou ingredientes como musk e âmbar

Fonte: "Brasil Essência: A Cultura do Perfume"


Curiosidades sobre os perfumes

Um dos maiores perfumistas da história foi Jean Carles, que conseguiu orquestrar fragrâncias icônicas como Ma Griffe, de Carven e Miss Dior, sem poder senti-las por ter perdido o olfato. Foi ele quem criou o sistema de pirâmide olfativa.

Há mais de três mil opções de fragrâncias sintéticas, o que garante tanto o futuro da perfumaria quanto da natureza. Odores de origem animal - musk, civet, ambergris, castoreum - tornaram-se populares durante a Renascença. Mas para extraí-los era preciso matar certos animais. Com os sintéticos, foi possível salvar as espécies. Sem a descoberta dos aldeídos - sintéticos que fixam as fragrâncias das flores - seria impossível atingir o efeito do Chanel Nº5.

Um dos mais antigos complexos perfumados, kyphi, trazia em sua composição uma sofisticada combinação de óleos aromáticos de zimbro, canela, menta, açafrão, mirra e incenso, misturados com mel e vinho. Depois de seco, ele era queimado para aliviar a ansiedade e curar a alma.

Na cultura asiática, o incenso foi utilizado como relógio, pois era possível calcular exatamente quanto tempo levava para queimar, tal a sua qualidade. A conta do cliente de uma gueixa japonesa era definida pela quantidade de incensos queimados.

Napoleão era quase neurótico com higiene. Banhava-se com um sabonete britânico de bergamota, cravo e óleo de lavanda. Foi ele que fez o banho virar moda.

O francês François Coty, primeiro a transformar vidros de perfume (feitos de cristal Lalique) em joias, para chamar atenção para o lançamento do La Rose Jacqueminot, jogou o frasco no chão e deixou a fragrância dominar o ambiente. Sucesso total.

Para sentir mais de 3.200 fragrâncias, a dica é ir até a Osmoteca, onde está guardado o patrimônio olfativo da humanidade. Fica em Versalhes, na França (www.osmoteque.fr)

Fonte: Brasil Essência: A Cultura do Perfume, de Renata Ashcar

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