Produtora Aqualtune fortalece artistas negras

A produtora se diferencia por seu engajamento político e por dar voz às mulheres periféricas

Lenne Ferreira, produtora da Aqualtune, em participação especial no videoclipe de Karla Gnom, 'Fábrica de Hino'Lenne Ferreira, produtora da Aqualtune, em participação especial no videoclipe de Karla Gnom, 'Fábrica de Hino' - Foto: Eduarda Santana/Divulgação

Roendo o sistema por dentro e acreditando na utopia que é dar visibilidade a mulheres artistas que estavam completamente fora do mercado e da mídia, a produtora Aqualtune se firma na cena recifense. O engajamento político e o empoderamento étnico se revelam desde o nome escolhido para a produtora: uma homenagem à princesa angolana que é, segundo a tradição, mãe de Ganga Zumba e avó materna de Zumbi. No século 15, ela liderou um exército de dez mil homens em uma batalha contra Portugal, e foi trazida como escrava para Pernambuco, de onde fugiu para o quilombo de Palmares. 

A atual Aqualtune nasceu em 2017, com duas mulheres negras no comando e a vontade de dar voz aos artistas da periferia - no começo, sem distinção de gênero; e depois, naturalmente, às mulheres. A Folha de Pernambuco conversou com Lenne Ferreira, que é jornalista e uma das criadoras da Aqualtune, sobre as conquistas obtidas ao longo de 2019 e os planos para o futuro.

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Quem é a Aqualtune
Nós somos a primeira produtora de mulheres negras de Pernambuco e nos diferenciamos por ter esse engajamento político. Isso não existia antes da gente. Uma coisa muito importante foi ter conseguido nos aproximar dessa cena de mulheres que está aí, fervendo no Recife. Mas nosso trabalho tem um olhar voltado para fortalecer, emponderar. 


Transparência e esforço
Atualmente, produzimos diretamente cinco artistas: Bione, Rayssa Dias, Negrita MC, Karla Gnom e Nany Nine. A gente capacita as meninas, fizemos, neste ano, uma parceria com uma consultora do Sebrae que falou sobre autogestão, durante três dias. Essas artistas vêm de uma estrutura social em que não tiveram oportunidade de acesso a muita informação. Às vezes, não sabem administrar seu dinheiro. Por isso é importante oferecer momentos de troca de ideias. A gente trabalha de forma muito transparente. Daqui a um tempo, por escolha nossa ou delas, se a gente não for mais trabalhar juntas, elas precisam ter condições de tocar as próprias carreiras.

Público da produtora
É gente que tem muito talento, mas com minha experiência como jornalista com atuação na grande imprensa, eu percebia que elas não chegavam à mídia, aos festivais, aos editais de fomento, aos mais diversos espaços, por conta de uma série de questões estruturais. O principal motivo, o maior empecilho, é o racismo. Racismo é aquilo que te coloca num lado da cidade onde o ônibus não circula direito, onde não existe cinema, onde não se oferecem cursos, onde uma grande quantidade de jovens são assassinados a cada dia.


Comunicação
Ninguém na favela sabe o que é um assessor de imprensa. Inclusive, há artistas de destaque que não têm uma equipe de comunicação, cujos textos no Instagram são gramaticalmente errados, porque eles não sabem o que é isso. Pagar um jornalista é caro, então a pessoa prefere contratar um pirralha da favela dele, que saca de internet e tem não sei quantos mil seguidores, para fazer a divulgação. A maioria não tem equipes profissionais, não entende a função de um jornalista, de um social media. A favela reinventa a lógica. Eles criam maneiras de fazer acontecer, mas, ao mesmo tempo, se prejudicam com isso. O processo deles é muito orgânico e local. Antigamente, a música escoava através das carrocinhas de som. Hoje, a internet mudou isso, há digitais influencers dentro da favela e eles são os maiores divulgadores.

Conquistas de 2019
Conseguimos um espaço próprio, que funciona em esquema colaborativo. Por meio do Sebrae, entramos num programa de incentivo ao empreendedorismo que está sendo realizado em parceria com o The British Council. O ano para as meninas foi de muito trabalho e realização. Conseguimos produzir material de divulgação e lançar Rayssa Dias nas plataformas digitais, e a levamos para o palco principal do festival Rec'n'Play. Tivemos participação de Karla Gnom no Festival de Inverno de Garanhuns, e ela e Negrita também participaram do São João de Arcoverde. Lançamos a mixtape de Bione. Fechamos o ano com o lançamento do videoclipe do projeto "Fábrica de Hino", no qual Karla Gnom convida MCs para cantar suas próprias composições. O videoclipe foi realizado em parceria com a Subverso Lab e envolveu pelo menos 40 mulheres artistas atuantes na cena, entre MCs, grafiteiras, maquiadoras e muitas outras.

 

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