Protestos de grupos de teatro afetam programação do Janeiro de Grande Espetáculos

Até o momento, três peças se retiraram do evento, por conta da censura sofrida pelo monólogo 'O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu'

'Espera o Outono, Alice' foi a terceira peça a cancelar a participação no festival'Espera o Outono, Alice' foi a terceira peça a cancelar a participação no festival - Foto: Arnaldo Sete/Divulgação

O grupo de teatro Amaré anunciou nesta segunda (31) a sua retirada do festival Janeiro de Grandes Espetáculos. Trata-se da terceira companhia teatral que resolveu sair da grade da programação, em resposta ao cancelamento das apresentações do polêmico monólogo "O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", no qual a atriz transexual Renata Carvalho interpreta Jesus Cristo. A Amaré iria encenar "Espera o Outono, Alice" no dia 24 de janeiro.

"Fazer teatro no Brasil não é fácil, todos sabemos. É preciso lutar contra a falta de verba, falta de público e até contra a falta de incentivo e compreensão de parte da sociedade com relação à natureza de nossa arte. Também reconhecemos que o festival foi colocado em uma situação muito difícil e precisava tomar uma decisão a fim de continuar suas atividades. No entanto, não nos sentimos à vontade para continuar na programação ao constatar que uma colega de profissão não terá a oportunidade de apresentar um espetáculo que, aliás, tem como tema justamente a tolerância, a união e a compreensão entre as pessoas", disse a nota divulgada pela Amaré.

"Do mesmo jeito que eles decidiram retirar o espetáculo da grade para preservar o festival, a gente também se sentiu no direito de tomar nossa decisão, sem julgar quem fica. Cada grupo sabe onde o sapato aperta", complementou a atriz Isabelle Barros, que integra a companhia.

'Solo de Guerra' também aborda preconceito e vivência homossexual

'Solo de Guerra' também aborda preconceito e vivência homossexual - Crédito: Divulgação

Antes da Amaré, no domingo (30), o ator e produtor Cleyton Cabral havia anunciado sua retirada do festival, suspendendo a apresentação de "Solo de Guerra", prevista para o dia 26. "Nós nunca compactuaremos com a violência que pessoas e espetáculos vêm sofrendo nessa época sombria em que estamos vivendo. 'Solo de Guerra' discute a homofobia e suas consequências na população LGBT+ do Brasil, sendo totalmente incoerente apresentar a temática no palco após os últimos acontecimentos", escreveu Cleyton, para quem "não seria possível tomar uma outra atitude, como artista e como homossexual".

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Na semana anterior, o grupo Magiluth também tinha se manifestado sobre o assunto. Mas o primeiro grupo a se retirar do evento foi o Trema - Plataforma de Teatro, na quinta-feira (27). "Acreditamos que a censura imposta sobre essa obra, que acolhemos com tanto prazer na edição 2018 do TREMA! Festival, fere nossa liberdade coletiva de ofício, nesse momento crucial onde diversos festivais têm se posicionado como reais espaços de resistência ao fascismo e a onda conservadora que assola o país. Não podemos coadunar com mais esse passo da bancada evangélica em nosso Estado", disse a nota do Trema, que iria apresentar o espetáculo "Altíssimo" no dia 11.

O espetáculo de Renata Carvalho estava previsto para entrar em cartaz nos próximos dias 12 e 13, mas foi retirado da grade após intensa pressão dos segmentos político e religioso. Segundo Cleyton Cabral, outras companhias teatrais estão discutindo conjuntamente para decidir se também vão se retirar do festival, que completa 25 anos de existência em 2019.

Renata Carvalho, que faz papel de Jesus como transexual

Renata Carvalho, que faz papel de Jesus como transexual - Crédito: Mariana Mesquita/Folha de Pernambuco 

   Produção não vai substituir atrações

A reportagem da Folha de Pernambuco procurou a Associação dos Produtores de Artes Cênicas de Pernambuco (Apacepe), que organiza o festival, mas eles se limitaram a informar que as atrações canceladas não serão substituídas e que seu posicionamento está resumido na carta aberta divulgada no dia 27, logo após a saída do Trema.

"Com o objetivo de resguardar a realização do próprio projeto e preservar suas fontes de financiamento, a direção do 25º Janeiro de Grandes Espetáculos se viu obrigada a retirar da programação do festival a peça 'O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu'. O cancelamento se dá uma vez que o espetáculo seria realizado em um teatro público e ainda devido à pressão da bancada evangélica de Pernambuco. Por motivos similares, a montagem já enfrentou ações judiciais e passou por outros cancelamentos em território brasileiro", afirmou o texto, que salienta o fato de que o festival ainda está em busca de solucionar o pagamento da edição 2018 para diversos artistas e que em 2019 tem todos os seus subsídios oriundos do poder público.

A carta informou, ainda, que estaria dando suporte à produção de "O Evangelho segundo Jesus Cristo, Rainha do Céu" para que ele fosse encenado em um espaço privado e de maneira independente.

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