Quando a oralidade conquista a cátedra: o caso UFMG e mestre Gil Amâncio
Um dos primeiros mestres da cultura tradicional a se tornar professor efetivo de uma universidade, Gil Amâncio simboliza uma política inaugurada pela UFMG
A universidade brasileira começa a rever uma de suas fronteiras mais rígidas: quem tem legitimidade para ensinar.
Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa mudança ganhou um marco quando o artista, pesquisador e mestre da cultura negra Gil Amâncio tornou-se o primeiro detentor do título de Doutor por Notório Saber a conquistar uma vaga como professor efetivo em uma universidade.
O feito resulta de uma política construída ao longo de décadas e consolidada pela Resolução Complementar nº 01/2020 da UFMG, que institucionalizou a titulação de mestres e mestras de saberes tradicionais.
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Segundo o pró-reitor de Cultura da UFMG, Fernando Mencarelli, a resolução é fruto de um processo de aproximação entre universidade e conhecimentos ancestrais.
"A inclusão epistêmica desses conhecimentos vem de muito tempo e é bastante ampla dentro da universidade", afirma.
Para ele, a UFMG tornou-se referência nacional ao conceder o título de doutorado, e não apenas certificações, aos detentores desses saberes.
Da tradição ao concurso público
Com quase cinco décadas dedicadas à arte negra, à educação e à pesquisa, Gil Amâncio recebeu o título de Doutor por Notório Saber em 2023. A certificação permitiu que disputasse, em igualdade de condições, um concurso para professor de música da Escola de Teatro da UFMG. Foi aprovado.
Para o mestre, a mudança vai além da conquista individual. "Uma coisa é quando você vai lá, dá uma oficina e vai embora. Outra é participar do cotidiano da universidade", resume.
Ele defende que a presença permanente de mestres tradicionais amplia as referências dos estudantes e rompe uma história em que "a população negra foi escrita com mãos brancas", permitindo que esses saberes sejam narrados por seus próprios protagonistas.
Uma mudança que ultrapassa Minas
A experiência mineira inspira universidades que buscam transformar homenagens simbólicas em presença efetiva dos mestres na vida acadêmica. Na Universidade de Pernambuco (UPE), o reconhecimento por Notório Saber existe desde 2020 e já contemplou 89 mestres com o título honorífico.
Para o coordenador de Cultura na Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEC/UPE), Renan Cabral, e a coordenadora do Núcleo de Diversidade e Identidades Sociais (NDIS/UPE), Mariana Valença, o desafio agora é transformar esse reconhecimento em participação permanente no ensino, na pesquisa e na extensão.
"Eu vejo como uma ruptura epistêmica fundamental, para que a gente tenha uma sociedade mais justa, menos desigual", afirma Mariana. Renan completa: "É um processo de autodescobrimento muito importante para a educação".
Para ambos, iniciativas como o Consórcio do Notório Saber podem consolidar uma política pública capaz de redefinir a produção de conhecimento nas universidades brasileiras.

