Qui, 12 de Fevereiro

Logo Folha de Pernambuco
Cultura+

Questões de gênero e sexualidade ganham espaço no teatro

Espetáculos 'O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu' e 'Solo de guerra' levam debate sobre gênero e sexualidade a Garanhuns

Renata faz o papel de Jesus Cristo como uma transexual Renata faz o papel de Jesus Cristo como uma transexual  - Foto: Divulgação

Desde a sua estreia, em 2016, a peça "O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu" vem enfrentando o repúdio de grupos ideologicamente conservadores. Não foi diferente quando sua presença no 28º Festival de Inverno de Garanhuns foi anunciada.

Após ter sido excluído da programação oficial do evento e reintegrado por decisão judicial, o espetáculo protagonizado pela atriz transexual Renata Carvalho foi liberado pela Justiça e chega ao município pernambucano, com duas sessões marcadas para esta sexta-feira (27), em local ainda não divulgado. Caso a ordem judicial autorizando a encenação seja proibida, o Estado e a Prefeitura do município terão que pagar multa de R$ 50 mil.

Leia também:
No Teatro Valdemar de Oliveira: Recital marca a terceira edição da campanha 'Dê a mão ao TAP'
Coletivo de palhaças leva espetáculo circense ao Teatro Capiba
Serra Talhada recebe peça para marcar 80 anos da morte de Lampião 
 

Para o pesquisador e diretor teatral pernambucano Rodrigo Dourado - um dos artistas que encabeçaram uma campanha para levar o monólogo ao Agreste de Pernambuco de forma independente -, as repetidas tentativas de censura à peça podem ser um bom sinal.

"Como houve uma ampliação da presença de pessoas trans nos palcos, veio a resposta conservadora. A mesma coisa ocorreu com os gays, nas décadas de 1960 e 1970. É uma mostra de que a cena está se expandido e começando a deixar de ser uma coisa de gueto. O que está acontecendo em Garanhuns fez com que a cidade toda discutisse essa questão. Nas esquinas, nos bares, em todos os cantos só se fala nisso. Vamos seguir em frente, sem recuar em nada", afirma.

Rodrigo fala com propriedade sobre o assunto. Desde 2010, ele vem pesquisando a relação do teatro contemporâneo e identidades LGBT. Sua tese de doutorado, "Bonecas falando para o mundo: Identidades 'desviantes' de gênero e sexualidade no teatro", foi transformada em livro e publicada pelo Sesc Piedade. "A obra apresenta uma análise de quatro espetáculos teatrais: "Carnes Tolendas: retrato escénico de un travesti" (ARG), "Luis Antonio-Gabriela" (SP), "Ópera" (PE) e "Paloma para matar" (PE).

"Primeiramente, eu pensava em pesquisar apenas a cena teatral do Recife. No meio do percurso, assisti a dois espetáculos de fora que impactaram muito minha visão sobre a maneira como o teatro contemporâneo está tratando essas identidades", relembra. Ao ponderar sobre esses espetáculos e outros mais, o autor conclui que os palcos brasileiros vivem um bom momento no que diz respeito à representatividade.

"Historicamente, há uma tentativa de encontrar uma imagem que dê conta desses corpos 'desviantes'. Claro que já passamos por estereótipos ou conservadorismos, mas temos avançado muito nesse quesito. Posso dizer que, hoje, o teatro leva mais dúvidas do que certezas, possibilitando um debate mais profundo", aponta.

Contra o ódio

O ator e dramaturgo Cleyton Cabral faz coro à opinião de Rodrigo. Para ele, uma história encenada no palco tem o poder de conscientizar o público sobre questões importantes. "A função da arte é, também, criar uma ponte entre as pessoas, chamando os espectadores ao diálogo", defende.

Foi pensando nesse papel de comunicar do teatro que o artista criou o monólogo "Solo de guerra", que discute a homofobia e suas consequências. A peça, que integra a Mostra Alternativa de Teatro do FIG, será encenada hoje, às 21h, em Garanhuns (Rua 13 de Maio, 40). "O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo. O teatro me possibilita falar sobre isso e ser ouvido", aponta.  

Veja também

Newsletter