Cultura+

Rayssa Dias coloca mulheres no topo do brega funk

A cantora pernambucana lança, a custo de muito esforço, o seu primeiro single com dimensão nacional, “Malvadas que Brota”, nesta sexta-feira (21), em todas as plataformas digitais

Rayssa luta para se firmar no cenário do brega funk Rayssa luta para se firmar no cenário do brega funk  - Foto: Divulgação

Rayssa Dias ainda não tira o seu sustento da música. Aos 24 anos, a pernambucana de Salgadinho, em Olinda, precisa dividir-se entre a carreira de cantora de brega e a de professora no Instituto Espírita Allan Kardec e Lar Ceci Costa, onde estudou. O corre diário tem o sonho como motivação: ser reconhecida e levar o ritmo recifense ao Brasil, acompanhado de uma mensagem que nunca sequer foi enviada.

Com hits tocados em vários bailes pela Região Metropolitana do Recife, a exemplo de “Deixa o povo falar” e “Doce Ilusão”, Rayssa agora se prepara para um desafio maior. Lança, nesta sexta-feira (21), a sua primeira música com dimensão nacional, batizada de “Malvadas que Brota”, em todas as plataformas digitais (Spotify, Deezer, YouTube, iTunes).


O feito deve-se não só ao talento indiscutível de Rayssa, mas ao esforço diário da produtora Aqualtune, comandada, entre outros nomes, por Lenne Ferreira e Tássia Seabra, incansáveis quando o assunto é o trabalho para dar visibilidade às artistas negras da periferia que não têm equipamentos e condições para entrar na disputa do mercado. As portas fechadas já viraram uma realidade, mas é também da pessoa que inspira o nome da produtora que vem a força para enfrentar. Aqualtune é, segundo a tradição, a mãe de Ganga Zumba e avó materna de Zumbi dos Palmares, uma princesa africana, filha de um rei do Congo.

A vontade de continuar inspirando mulheres negras em Pernambuco é um dos pilares da produtora. Agora, com este lançamento de Rayssa, a Aqualtune, que começou como coletivo e se reestruturou em formato de produtora, pretende direcionar as artistas locais para uma relação mais próxima com as plataformas digitais e mostrar “Como elas podem se apropriar das plataformas digitais e arrecadar com isso”, alerta Lenne. E o mais importante: “Mostrar que tem menina fazendo brega funk. MC Loma é um exemplo, muito importante, mas não para nela”.

 

Lenne Ferreira e Tássia Seabra comandam a Aqualtune

Lenne Ferreira e Tássia Seabra comandam a Aqualtune - Crédito: Mateus Bernardo/Divulgação 

Tássia está morando em São Paulo, justamente para fazer a ponte de conhecimento em conteúdo digital. Os planos da produtora incluem, aliás, “Fazer uma oficina de gestão de carreira para os artistas independentes de Pernambuco”. Para ela, as plataformas digitais são fatores de empoderamento. 


Na luta

Filha mais velha de três irmãos, Rayssa começou a cantar como uma homenagem à sua mãe, Dona Terezinha, para chamar a sua atenção. Aos 12 anos, arriscou as primeiras composições e as notas vocais mais finas. Aprimorou e hoje aparece com um estilo bem definido. Ao passo que entoa versos românticos, Rayssa também destila palavras afiadas, limadas no período em que atuou no Slam das Minas PE e Boca no Trombone, grupos de poesia de resistência que têm as belezas e cruezas da rua como cenário e inspiração.

Se na batalha de versos Rayssa já brilhava, ao brega ela traz um refresh ativista que tardou, mas finalmente aparece nas letras. Ela leva toda a sua experiência de “Mulher preta, periférica, acostumada a enfrentar nãos e olhares atravessados” -como gosta de se definir- para as suas canções. Para ela, a mensagem se sobrepõe à ideia de música chiclete. Ou seja: não adianta ser ouvida se o público não entende o seu desejo de mudança. “Eu, como cantora, eu tenho que fazer alguma coisa pra que a gente possa acabar com isso. Pra que nós, mulheres, possamos ir ao lugar que a gente quer, fazer o que a gente quer, independente de qualquer coisa, que a gente não sofra nenhum tipo de assédio”, sentencia.

Novo hit

É justamente o que ela faz no novo trabalho. “A música (Malvadas que Brota) surgiu num dia comum, arrumando a casa”, conta Rayssa. O refrão chegou primeiro. E foi de uma chateação, na qual Rayssa preferiu nem se aprofundar, que a letra ganhou corpo: “Foi uma resposta, para provar que eu não preciso de visibilidade masculina para aparecer”. Não foi difícil deduzir, ao ouvir a resposta, que foi o machismo que motivou a canção, que diz: “Meu som gerou na tua quebrada/Tô tirando a minha braba/E até quem não gostou/Tá batendo palma”.

E é aí que o seu brega romântico começa a dar cada vez mais lugar ao brega funk, no qual a “tímida” participação de mulheres restringe-se quase que exclusivamente às danças ou às letras que não soam tão bem a ouvidos feministas. Sobre a questão, Rayssa é otimista: “Eu tenho observado que os caras têm tomado mais cuidado ao falar sobre as mulheres. Principalmente por quererem chegar a outros lugares”, referindo-se à cena nacional.

O problema, também, é a falta de espaço nas programações das festas. Mesmo com milhares de visualizações no YouTube e outras redes sociais, as mulheres ainda penam na hora de fechar contratos. “As mulheres pernambucanas precisam de mais visibilidade nos eventos”, cobra Rayssa. E a disparidade entre gravações de homens e mulheres no brega funk também choca. Eles divulgam novas músicas e clipes quase todos os dias. Para elas, a história é diferente. É preciso correr, pedir apoio, traçar planos. Isso tudo só para conseguir gravar uma música. 

Veja também

"Realeza" no batidão: atores de "Bridgerton" falam das experiências em visita ao Rio de Janeiro
STREAMING

"Realeza" no batidão: atores de "Bridgerton" falam das experiências em visita ao Rio de Janeiro

Fernanda Paes Leme sente culpa na maternidade e desabafa: "Arrasada"
Fernanda Paes

Fernanda Paes Leme sente culpa na maternidade e desabafa: "Arrasada"

Newsletter