Recife Holandês traduzido em traços

Livro, que chega às prateleiras das livrarias pela editora Veneta, é ambientado em Pernambuco

boi-voadorboi-voador - Foto: Reprodução

André Toral andava sumido dos quadrinhos. Nos hoje longínquos anos 1980, na revista “Animal”, Toral inaugurava sua proposta lúdico-histórica em “Pesadelos Paraguaios”, espécie de Little Nemo bélico com cara de Mattotti. A voracidade e brutalidade da guerra do Paraguai traduzidas em viagens oníricas que encerram com o personagem acordando no último quadro. Desde então, o quadrinista e o acadêmico (Toral é mestre em Antropologia e doutor em História) manifestam esse casamento com trabalhos consistentes.

Sua obra tem em comum visitar eventos históricos com a liberdade ficcional, aproximando o leitor dos seus personagens e contextos apresentados sem a dureza científica ou o rigor do real. Nem por isso deixa de ser verdade o que é mostrado. Em seus quatro livros, essa foi a tônica. Mais uma vez, talvez na sua melhor forma, em “Holandeses”, Toral presenteia o leitor com uma história instigante. Para o leitor pernambucano em especial. O livro trata justamente do período de Maurício de Nassau no Recife. Identificamos facilmente, não apenas a paisagem desenhada, mas muitos dos fatos narrados.

O pernambucano que vê no passado holandês o nosso melhor período colonial talvez torça o nariz para a história. Aparentemente só eram outros agentes explorando oportunidades em negócios ligados ao açúcar, tráfico de escravos ou o que se apresentasse. O Recife desse período se equilibrava entre o novo colono (o holandês) e a antipatia e resistência dos antigos (os portugueses). Além dos brasileiros - índios e escravos. Um caldeirão meio indigesto e complexo. A relação com os índios, os tipos de aliança com as tribos locais determinavam a garantia da permanência de um ou de outro. E, como sempre, valia a lei do mais forte. O mais forte da vez.

Essa convivência gerava muita tensão. Os portugueses, católicos fervorosos, não toleravam os judeus que vinham da Holanda pois estes eram, na maioria, judeus sefardistas (portugueses e espanhóis) fugidos da inquisição. Eles, os judeus imigrantes, representavam quase metade dos brancos holandeses em Pernambuco. E é em torno de dois desses personagens que a história gira.

Esaú e Castor são dois irmãos jovens judeus em busca de espaço para suas aspirações. A Europa do século 17 não era exatamente acolhedora. Mesmo na Holanda, mais tolerante e com uma expressiva comunidade judaica, não era fácil um judeu ascender socialmente. Seus destinos são traçados pela conveniência de uma investida da Companhia das Índias Ocidentais, espécie de empresa transnacional daquela época. Através dela, eles chegam ao Brasil.

Aqui, cada um buscou seu interesse: Esaú, pragmático e com tino para os negócios, abraçou o tráfico de escravos com desenvoltura e sadismo. Não fazia graça nem concessões. Maltratava para espantar o tédio. Já o irmão Castor, mais idealista, artista (gravador e assistente de Rembrandt), acreditava na corrente de que os índios americanos eram descendentes de judeus. Assim, o Brasil era o retorno às origens do judaísmo. O livro, além de uma leitura prazerosa e quase obrigatória em Pernambuco, é um belo produto. Com design harmonioso que realça o tratamento artístico da obra.

Na entrevista abaixo, André Toral revela um pouco de seu processo e suas ideias sobre a obra, a história e o momento do quadrinho nacional. Mas, antes, faz uma simpática reverência ao público pernambucano: “Queria muito mesmo que o leitor de HQ do Recife entrasse em contato com essa história. Gostaria muito de um retorno do pessoal daí, leitores privilegiados, primeiro porque vivem aí e depois por conhecerem a história e os locais. Diga para me procurarem para conversarmos”. O recado está dado.

Quanto tempo você dedicou ao projeto?

Trabalhei no livro de 2011 até 2016. Interrompi muito, fui cuidar da gravura e da minha vida e muitas vezes deixei a HQ parada meses...

A ideia surgiu durante sua pesquisa de doutorado? A história dos índios sul-americanos serem descendentes de judeus?

Não, a HQ não tem nada a ver com academia, tese ou similares. Interessei-me pelo assunto quando visitei o Recife e decidi fazer uma história sobre a luta entre portugueses e holandeses. Achei tudo tão grandioso, a paisagem tão linda, uma tradição tão rica: pirei. O ‘start’ da história foi dado quando li um artigo sobre messianismo judeu no Brasil de Nachman Falbel, professor aposentado da USP. Pensei: índios judeus? Volta do Messias e tudo isso ambientado em Pernambuco do século 17? Tô dentro.

Os desenhos da HQ lembram litogravura, vê-se algumas linhas que remetem ao esboço, tem um pouco de sujeira também. É intencional?

Não uso mais nanquim. Muito trabalho e nunca tive habilidade com pena. Faço um scan do lápis que vira o traço preto, daí porque parece litografia. Guarda a textura do lápis. A cor é com aquarela em mesa de luz, como em animação na década de 1940...

O leitor pernambucano vai obviamente reconhecer muitos lugares. Você veio ao Recife pesquisar os cenários?

Fui ao Recife, Olinda e circuito turístico em 2006, creio. Não desenhei e tirei poucas fotos que nunca usei como referência. Usei muito a pintura holandesa de 17 e pintura holandesa feita no Brasil, A. Eckhout, Z. Wagener, Frans Post. Existe uma fartura de documentação iconográfica do Brasil holandês ao contrário da penúria da iconografia da parte portuguesa do Brasil. O mesmo podemos dizer a respeito do mundo colonial português e holandês.

O que você acha do período holandês no Nordeste brasileiro? Você acredita que teria sido diferente se eles continuassem aqui ou o princípio colonialista e exploratório era o mesmo do português?

Existe uma mitificação do período que corresponde ao Brasil holandês feita no XIX em detrimento do colonizador português. Primeiro não acredito que um Brasil holandês seria possível porque aqui já havia uma cultura luso- brasileira viva e forte. Só se exterminassem toda a população, o que também não seria conveniente porque os holandeses não queriam colonizar o Brasil. O papel da colônia é ser parasitada pela metrópole, que só quer saber de dinheiro. Nesse sentido, os indonésios e os habitantes do Suriname não idolatram seus antigos colonizadores, os holandeses; nem os indianos querem voltar a ser colônia inglesa... Nessa história, curiosamente não existe "Brasil". Não existe a nação, claro. O termo "brasileiros" era reservado aos índios, veja na parte final do meu livro. Era um período onde a ideia de Brasil como pátria aparece pela primeira vez. E numa colônia portuguesa como forma de expressão das elites locais.

Os quadrinhos brasileiros vivem um momento muito frutífero. Como você, que atua há algum tempo, como vê esse presente e o que pensa do futuro das histórias em quadrinhos brasileiras?

Acho que nunca se publicou tanto e com tanta qualidade no Brasil. Tem de tudo. Tem quadrinhos ligados ao mercado, quadrinhos importados, quadrinhos que buscam a história do país, crônicas da sociedade brasileira, confessionais, ligados à cidadania, à busca de identidades, direitos LGBT. Vou para o Mato Grosso em julho onde espero me encontrar com quadrinistas Tapirapé, grupo indígena. A internet aproximou pessoas, facilitou financiamento, forneceu referências e o quadrinho brasileiro explodiu. Só não faz quem não quer.

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