Rolling Stones quebra jejum e lança albúm

Banda inglesa lança álbum com covers de seus ídolos no blues de Chicago, pois foi a cidade onde o nascimento do rock fez uma escala

Os deputados também realizarão em 2019 um seminário sobre o tema, em um município que ainda será definidoOs deputados também realizarão em 2019 um seminário sobre o tema, em um município que ainda será definido - Foto: Wesley D'Almeida

 

SÃO PAULO (Folhapress) - Entrevista coletiva, 1965. O jornalista norte-americano pergunta aos Rolling Stones, na época com dois álbuns e um punhado de singles: “Vocês apenas regravam músicas dos grandes mestres do blues. Por que eles não vendem muitos discos e vocês vendem?” Keith Richards pega o microfone: “Os grandes mestres do blues são velhos, negros e feios. Os Rolling Stones são jovens, brancos e bonitos”.

Não foi uma declaração racista. Richards zombou da sociedade de consumo, que desprezava os ídolos que ele e seus colegas veneravam. E ainda veneram, como dão prova em “Blue & Lonesome”, álbum lançado oficialmente em dezembro de 2016 com 12 canções de bluesmen.
Não é uma simples homenagem ao blues, mas especificamente ao blues de Chicago. A cidade acabou reunindo artistas que eletrificaram o gênero. O nascimento do rock fez escala ali.
Nos anos 1960, garotos ingleses como Stones e Yardbirds foram buscar lá ingredientes para dar um passo além de Elvis Presley. Durante sua primeira turnê norte-americana, em 1964, os Stones gravaram por dois dias no Chess Studio, local sagrado para o blues de Chicago. Ali eles chegaram a encontrar Muddy Waters (1913-1983), o maior ídolo de Mick Jagger. O nome da banda veio de uma canção dele, “Rollin’ Stone”, lançada em 1950. Depois de 11 anos sem gravar, desde “A Bigger Bang”, os Stones passaram três dias no British Grove Studios, em Londres. O dono do lugar é o guitarrista Mark Knopfler (Dire Straits), que participaria do disco, mas quem acabou colaborando foi Eric Clapton.
Ajuda do “vizinho”
Trabalhando em uma outra sala dos estúdios, Clapton cruzou um corredor de 20 metros para encontrar os amigos e tocar em “Everybody Knows About My Good Thing”, que Little Johnny Taylor (1943-2002) gravou em 1971, e “I Can’t Quit You Baby”, de Willie Dixon (1915-1992), regravada pelo Led Zeppelin em seu álbum de estreia, de 1969. O maior homenageado de “Blue & Lonesome” é o intérprete da versão mais famosa da faixa-título, Little Walter (1930-1968).
Cantor e gaitista nascido em Chicago, Walter é descrito por amigos como um rei da simpatia. Os compositores gostavam de vê-lo gravar suas músicas, e ele gravou um monte delas.
Além de “Blue & Lonesome”, as outras canções do repertório de Walter que os Stones incluíram no álbum são “Hate to See You Go”, “I Gotta Go” e “Just Your Fool” -que foi o primeiro single do álbum, divulgado no dia 6 de outubro. Walter morreu aos 37 anos, enquanto dormia, após levar uma surra numa briga de bar em Chicago.
Outros que mereceram atenção dos Stones foram Howlin’ Wolf (1910-1976) e Willie Dixon (1915-1992). Do primeiro, regravaram “Commit a Crime”. Curiosamente, Wolf registrou essa música em 1971 numa gravação que teve participação de Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, e Eric Clapton.
Duas faixas são de autoria de Dixon. Além de “I Can’t Quit You Baby”, na qual Mick Jagger tenta -e quase consegue- imitar o jeito de cantar do autor, a outra é “Just Like I Treat You”, que teve sua versão mais famosa em 1961, na voz de Howlin’ Wolf. “Ride ‘Em on Down” é um cover de Eddie Taylor. Na verdade, a música originalmente se chama “Shake ‘Em on Down”, composta em 1937 por Bukka White (1906-1977). A música foi regravada várias vezes, com alterações no título e nas letras. Jagger gosta da versão que Eddie Taylor (1923-1985) fez em 1955. Mas Richards prefere escutá-la com o guitarrista Jimmy Reed.
Os Stones tocaram essa música em outubro passado, no megafestival californiano Desert Trip. Eles não a apresentavam ao vivo desde um dos primeiros shows da história da banda, em 12 de julho de 1962, em Londres. Reed (1925-1976) é autor de “Little Rain”, sucesso de 1957 também incluído no repertório de “Blue & Lonesome”. As duas músicas que fecham o disco são “All of Your Love”, de Magic Sam (1937-1969), e “Hoo Doo Blues”, de Lightnin’ Slim (1913-1974).
Obra inatacável
Apresentada a lista de tributos do álbum, uma análise crítica do trabalho é despropositada. Sob qualquer ângulo, “Blue & Lonesome” é uma obra inatacável.
Os comentários que pipocam em sites de música pelo mundo são muito parecidos. Falam da relevância das canções escolhidas -e de seus compositores- e da interpretação intensa dos Stones.É somente a maior banda de rock tocando as músicas que seus integrantes amam. Jagger se esforça, canta com alma. Richards e Watts estão numa zona de conforto. E Ron Wood já declarou que está louco para fazer uma turnê dos Stones só de blues. Oba!

 

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