“Sala de Jogar e Outros Campos Minados” estreia no Mammam

Marcio Almeida, que completa 30 anos de trabalho, faz um recorte sobre os últimos anos de sua produção artística

Exposição toca em temas como pertencimento, geopolítica e de movimentos no espaço urbanoExposição toca em temas como pertencimento, geopolítica e de movimentos no espaço urbano - Foto: Bruno Campos

 

Na Zootecnia existe uma especialização chamada Etologia, estudo do comportamento animal. A partir da observação, o então graduando Marcio Almeida aprendeu a conhecer o ser irracional e usou a experiência para olhar também o humano. O primeiro costuma se movimentar por instinto. O indivíduo, ao contrário, se locomove conscientemente, muitas vezes forçado por seus iguais, como tem acontecido atualmente com os refugiados da Síria.

Há 30 anos, a Zootecnia perdeu Marcio para as artes plásticas. O estudo do deslocamento do indivíduo, no entanto, ele levou consigo, e se tornou uma constante em seus trabalhos. Não poderia ser diferente na exposição “Sala de Jogar e Outros Campos Minados”, que estreia no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam), nesta quinta-feira (19), às 19h.

Não se trata de uma retrospectiva, mas de um apanhado da produção dos últimos seis anos, trazendo em comum o que ele costuma pesquisar em seu próprio caminho migratório ao longo da vida, repleto de questões sociais, políticas e de comportamento.

Conceituais ou de ordem prática, essas questões perseguem a trilha da existência, gerando contradições tão constantes quanto as que Marcio costuma abordar, de maneiras diversas. O que parece útil perde a utilidade; o forte é na verdade frágil; e a segurança nada mais é do que insegura.

Nessa exposição, com 25 obras, entre instalações, desenhos (esboços das peças em terceira dimensão), fotografias e vídeo, obras inéditas ou não se misturam a projetos que começaram e agora terminam, e cujo pontapé inicial foi dado pelo trabalho que dá nome à expo. “É uma sala que fala da intolerância. Se as pessoas soubessem argumentar, não haveria violência”, diz o artista. Em uma mesa, uma pequena estátua parece ter tido a cabeça separada do corpo por um disjuntor. “Lembrei do Estado Islâmico, que destrói monumentos históricos. Acabar com a cultura de um povo é destruí-lo através de suas ideias”, explica Marcio.

A intolerância é étnica, religiosa, muitas vezes fruto apenas de uma opinião divergente que chega ao estopim da guerra. Por causa disso, o tema da migração ganhou a obra “Efeito CoLateral”, já apresentada, mas bastante contemporânea, com coletes salva-vidas representando a salvação e ao mesmo tempo as dificuldades que virão.

“O imigrante sai de um lugar que ele imagina ruim. Mas do lado oposto existe preconceito, situação de gueto, desafeto”, enumera. Um latino-americano em outras terras sabe o que é isso. Se for artista, sua obra costuma ser tratada como ‘exótica’, eufemismo para mais uma demonstração de preconceito.

Dessa reflexão e de outras veio “Eremitério Tropical 2”, exibida em Cuba, ano passado, e agora pela primeira vez por aqui. Marcio conta que se inspirou no livro do Frei Fernando de Brito de Alencar, “Cartas da Prisão e do Sítio”, que narra os momentos de perseguição política e tortura que ele e Frei Tito sofreram durante a ditadura militar. Esse tempo parece que terminou, mas é sabido que muitos presos são torturados até hoje, e que construir um muro para solucionar diferenças sociais é apenas tapar o sol com a peneira.

“A instabilidade nos deixa sempre em alerta”, analisa. Não há, portanto, teia de salvação, como Marcio mostra na produção inédita “Objeto de Proteção”, uma grande rede que, vista de longe, pode até parecer protetora. De perto, no entanto, quando se sabe que foi feita de um frágil material como a fita crepe, a conclusão é uma só: ninguém está a salvo.

 

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