Samuel Beckett ainda pulsa na temporada de "Fim de Jogo"

Teatro Promíscuo traz ao Recife peça do autor irlandês, que se torna atual ao falar sobre o fim das utopias

O ator Renato BorghiO ator Renato Borghi - Foto: Patricia Cividanes/Divulgação

A tragicomédia “Fim de Jogo”, do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, chega ao Recife celebrando os mais de 20 anos de atividades ininterruptas, do Projeto Teatral Promíscuo. Com direção de Isabel Teixeira e estrelada pelos atores Renato Borghi (como Hamm) e Elcio Nogueira Seixas (como Clov), a peça estreia hoje, às 20h, na Caixa Cultural, no Recife Antigo.

Com cerca de uma hora e 30 minutos de duração e classificação indicativa de 16 anos, as apresentações acontecem de 4 a 6 e de 11 a 13 deste mês no mesmo horário e local. Apesar do texto de Beckett ser apresentado na íntegra, a montagem adquire força e coerência próprias, uma vez que a encenação acontece no apartamento do próprio Borghi, durante um período em que ele passou por uma cirurgia na coluna e ficou sem poder se locomover.

A ideia é que o espetáculo não fique preso ao imóvel real, mas que possa ser “transportado” e “remontado” em qualquer espaço, desde teatros a salas expositivas.
A estreia oficial da montagem aconteceu em janeiro do ano passado, em São Paulo.

Além de utilizar objetos decorativos e pessoais do ator, como fotografias e móveis que compõem o espaço, estão presentes na encenação de forma inusitada e original, os pais dele: Maria de Castro Borghi (como Nell) e Adriano Borghi (como Nagg).


“Isso tudo faz parte do espírito, do jogo que a gente propõe, que é atrair a plateia para a ideia de uma coisa familiar, ou seja, podia ser comigo, podia ser na minha casa. O 'Fim de Jogo' não é uma coisa futurista lá no apocalipse, do 'Mad Max', não é igual a todas as montagens que a gente vê por aí do Beckett. Realmente tem uma marca das coisas dele, ficou tudo com uma estética de pós-guerra, de fim do mundo", compara.

"Achamos que o interessante era atrair o público para uma coisa absolutamente familiar e aí o próprio texto daria conta da parte estranha, não precisávamos forçar isso esteticamente. Claro, isso tudo nasceu dentro do apartamento, mas depois percebemos que podíamos levar o apartamento com a gente. O que era mais importante não era o local em si, era a atmosfera que eles estavam vivendo na casa deles”, contou Elcio Nogueira Seixas.

O projeto
A base para a atual criação teve origem em 1999, na série de workshops realizados pelo Teatro Promíscuo “Beckett - O Começo está no fim”. A equipe formada por Renato Borghi, Elcio Nogueira Seixas, Isabel Teixeira e o tradutor de “Fim de Jogo”, o professor e pesquisador especialista na obra do autor, Fábio Rigatto de Souza Andrade se reuniu para dar corpo ao atual projeto seguindo as mesmas perspectivas levantadas à época: fim das utopias, fim das esperanças demasiadas no progresso da humanidade.

“O Teatro Promíscuo surgiu quando o Renato começou a dar aulas no início dos anos 1990 e aí se formou um grupo de alunos, o qual eu fazia parte. Um grupo de jovens que se juntou em torno do Renato e todos eles tinham uma coisa em comum, eram de companhias de grandes gurus e estava todo mundo de saco cheio", recorda.
"A gente admira, eu mesmo fiz Teatro Oficina durante um ano, foi maravilhoso, uma experiência incrível, mas eu não me via lá. E o Renato não era assim, ele era um ator, não um diretor. Então ele ofereceu pra gente a possibilidade de fazer uma companhia no estilo das companhias antigas, que eram atores que se juntavam e eles eram os donos”, afirmou Elcio.

O ator ressaltou ainda o motivo pelo qual escolheram o nome do projeto. “Chamamos de Teatro Promíscuo porque tínhamos dois motivos, um era que ainda se falava muito na Aids e achávamos que as pessoas desde os anos 1980 tinham ficado muito encamisadas, não no sentido literal, mas no sentido de se distanciarem demais umas das outras, não ter contato. Não digo físico, mas em vários níveis. Então usamos um pouco essa metáfora", argumenta.

"O outro motivo era que a gente queria nossa companhia aberta, não uma companhia fechada, ou seja, queríamos sempre novos trabalhos, poder trazer diretores novos, diferentes atores de várias gerações, cruzar todo mundo no mesmo lugar”, disse.

Falta de sentido
Aos 80 anos de idade, - desses quase 60 de carreira - tendo encenado algumas das principais peças do cenário antigo e atual, Renato Borghi pode ser considerado um lenda viva do teatro brasileiro. Animado com mais um trabalho renomado, ele falou sobre a missão de montar um texto de Beckett.

“O Beckett nos dias atuais, ele é mais vivo do que nunca porque ele fala de uma falta de sentido, de uma razão última de viver, que não é compreendida, que não é atingida e estamos vivendo no Brasil, exatamente um momento muito estranho, que não se chega a compreender direito o que está acontecendo", alega.

"O País está passando por clima apocalíptico, uma coisa que não se sabe onde vai chegar. E aí de repente dá para compreender muito bem o que ele coloca: - E lá fora o que é que tem? Não tem nada. - Quando falamos não tem nada, é esse nada que encontramos no Brasil, essa falta de sentido, essa corrupção, como se fosse o fim do mundo. O Beckett fala muito lá dentro, daquilo de mais íntimo que o ser humano tem”, comentou Renato Borghi.

Desafios de fazer teatro
“Eu vou fazer 60 anos de palco, o que eu posso dizer é que eu quis fazer e fiz. É difícil, mas você consegue. Agora, estamos vivendo um momento muito complicado no ponto de vista de apoio, coisas governamentais. Tudo isso está muito problematizado, somos vítimas de uma difamação muito grande, estão dizendo que a gente mama na teta do governo, o que não é verdade”, finalizou. 

 

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