Sem memória, não há identidade

No Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual, mostramos a situação do acervo da Filmoteca Alberto Cavalcanti, que saiu do Teatro do Parque para o Museu da Cidade

Acervo da Filmoteca Alberto CavalcantiAcervo da Filmoteca Alberto Cavalcanti - Foto: Alfeu Tavares/Folha de Pernambuco

Desde 1980, o dia 27 de outubro foi escolhido pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) para celebrar o Dia Mundial do Patrimônio Audiovisual. A data ficou marcada pela adoção da Recomendação sobre a Salvaguarda e a Conservação das Imagens em Movimento - primeiro instrumento internacional sobre a importância cultural e histórica de gravações de cinema e televisão, pedindo medidas decisivas para a sua preservação. Aqui no Estado, um dos acervos mais relevantes é o da Filmoteca Alberto Cavalcanti, recheado de raridades, como o filme “Aitaré da Praia”, símbolo da produção do Ciclo do Recife (1926-1931).

Em uma sala, dentro de um armário de metal cinza com chei­ro forte de produtos químicos, no Museu da Cidade do Recife, no Forte das Cinco Pontas, São José, está guarda­da uma imensidão de registros documentais e filmes fictícios que fazem parte da história do audiovisual de Pernam­buco e do Brasil. As bito­las de filmes divididas em 8mm, 16mm e 35mm fazem par­te da Filmoteca Alberto Ca­­valcanti, que ficava no Teatro do Parque, na rua do Hospício. O local foi inaugurado em 1975 e nunca chegou a ser aberto para pesquisadores - fechou quando o Teatro encerrou atividades para reformas, em 2010. O acervo segue longe dos olhos da po­­pulação e dos pesquisadores.


O acervo, com alguns filmes deteriorados, foi retirado do local em fevereiro de 2015, para passar por avaliação do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe) e em seguida encaminhado para o Museu da Cidade do Recife, onde está até hoje. “O que poderia ser feito para a preservação do acervo aqui no Museu, foi feito. O resto precisa ser encaminhado para ser restaurado”, diz Lucia Matos, responsável pelo acervo de audiovisual do Museu da Cidade.

Um dos filmes de 16mm mais antigos no local fala sobre um tema que traduz a identidade do povo pernambucano: o carnaval. De 1920, “Carnaval do Recife”, de autoria do paraibano Walfredo Rodriguez, descreve o corso, e pontos como a ponte Maurício de Nassau, o porto, a Rua da Imperatriz, a Rua Nova e crianças fantasiadas. O material já foi restaurado pelo Museu da Imagem e Som de São Paulo a pedido do Cinema do Parque. Lucio Villar, pesquisador paraibano, conseguiu acessar o rolo, gravou o material e exibiu pela primeira vez em João Pessoa me dezembro passado. O filme será exibido durante o Janela Internacional de Cinema. Outro registo a salvo intitula-se “Recife de Dentro para Fora”, curta-metragem de Katia Mesel, de 1997. Este, embora restaurado, se encontra arranhado no início e com defeito no som.

O professor Paulo Cunha, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica como seus alunos encontraram o acervo. “Tinha dois (alunos) orientandos de mestrado trabalhando sobre filmes feitos aqui no Recife pela Meridional Filme (produtora ligada ao Estado Novo dos anos 1930) e sabendo que havia possibilidade desses filmes estarem na Filmoteca Alberto Cavalcanti, a gente fez uma primeira tentativa de visitar o Teatro do Parque (já fechado nessa ocasião) para saber se teríamos como ter acesso ao material”, conta.

Segundo ele, a situação era precária, pois o teatro estava abandonado e os filmes, espalhados em uma sala empoeirada, com muita umidade e nenhum controle. “Pedi para que um aluno de Cinema da época fizesse um levantamento do que tinha lá. Ele fez fichamento, sem abrir as latas, porque em alguns casos você não deve abri-las para não degradar ainda mais as películas. Após o levantamento e diante da precariedade do acervo, foi feita uma correspondência para a Prefeitura do Recife, sugerindo para que a mesma tomasse conta do acervo e colocando a universidade à disposição para guardar o material. Não foi necessário, porque a Prefeitura, através do Museu da Cidade, transferiu o material para o museu, no Forte das Cinco Pontas. De certa forma, garantiu a segurança do acervo, hoje estabilizado e fora de risco. Não era do interesse da UFPE tirar o acervo da Prefeitura. Queríamos apenas contribuir para guardar o acervo e preservá-lo. Espero que o acervo fique o mais rápido possível disponível para que pesquisadores possam estudá-lo”, pontua. 

O que eles pensam>>

“Imagens em movimento, juntamente com gravações sonoras, são registros importantes de nossas vidas, contendo mui­to da nossa memória pessoal e social, o que é essencial para a identidade e o pertencimento. É por isso que es­ses elementos devem ser pre­servados e compartilhados como parte do nosso patrimônio comum. As histórias con­tadas por esse patrimônio são expressões poderosas das culturas e dos lugares. Esse patrimônio fornece uma âncora em um mundo em constante mudança. Pro­mo­ven­do a coe­são, os arquivos também são essenciais para os de­ba­tes sobre as prioridades futuras”.

Irina Bokova, diretora-geral da Unesco

“Há o senso comum de que o Brasil é um País sem me­mória. No cinema não é dife­rente. Acervos bem organiza­dos são exceções, quase arti­go de luxo. Longe dos gran­des centros a situação é ainda pior. Quando existem, as po­líticas de fomento olham mais para a produção e circulação do que para a preservação. Tanto para obras do século passa­do quanto recentes, como as realizadas na década passada em suporte HI8 e MiniDV. E para os antigos espaços de exibição, essenciais para a manutenção da experiência cinematográfica. Entraves existem e podem ser superados, se nes­sa equação não faltasse o principal: a consciência de que sem memória, não há identidade”.

André Dib, jornalista e pesquisador

“A importância da preserva­ção é absoluta. Cada vez mais a gente precisa de refe­rência da nossa própria histó­ria, para evitar erros. Um e­xem­plo concreto: está para estrear o filme ‘Cinema No­vo’, de Eryk Ro­cha, que ga­­nhou prêmio de documentário em Cannes. É um filme que trabalha com imagens de arquivo do Cinema Novo, e aí Eryk, filho de Glauber Rocha, remonta em um filme inteiro uns 30 ou 40 filmes diferentes, cria narrativa muito particular. Quando assiste ao filme você entende a importância do resgate do ci­nema dos anos 1960 e o que poderia ser feito nos anos 2010, para ser resistente e atuante. Um cineasta só poderia fazer esse tipo de filme porque o Cinema Novo foi uma escola celebrada e alguns filmes foram preservados e outros não. Ele conseguiu imagens na Europa. A gente nunca teria acesso a esse discurso completo se não tivesse acervo disponível dessas imagens. Nos faz repensar equívocos que a gente está vivendo”.

Luiz Joaquim, crítico e coordenador de cinema da Fundação Joaquim Nabuco

“Isso para mim é o tema má­xi­mo dentro da memória audio­visual brasileira, nosso pa­trimônio vem sendo pre­teri­do. Com a criação da As­so­cia­ção Brasileira de Pre­ser­vação Audiovisual (ABPA) em 2008, as ações tem sido mais intensas e a preservação encarada de forma mais séria. Há muito investimento na produção e em festivais e recursos mínimos na preservação audiovisual. A cinemateca brasileira vem passando por uma crise muito forte”.

Lula Cardoso Ayres Filho, produtor e colecionador

“Na Fundação Joaquim Nabu­co temos um acervo bastante diverso. São dois grandes tipos. O produzido pela pró­pria instituição, através da Mas­­sangana, da diretoria de Me­mória, Educação, Cultura e Ar­te (Meca). Dentro dessa di­­retoria tem a Cehibra e, nes­sa, vários setores, como o acervo audiovisual e textual. Esses acervos estão guardados no quinto andar do prédio da Fundação em Apipucos, 24 horas climatizado, catalogados e numerados. Nesse andar tem o acer­vo mais histórico, antigo, em película. Com pérolas e raridades, como o Ciclo do Recife. Foram restaurados e digitalizados. O original está na Cinemateca, porque eles têm frigoríficos mais apropriados para guardar Nitrato Celuloso, que precisa de uma climatização mais especializada, por serem de alta combustão. Temos parte da coleção de Fernando Spencer. Não é uma estrutura perfeita, é uma luta diária para manter o ar-condicionado. Ligamos um por 12 horas, depois desligamos e ligamos um outro, para poder conseguir segurar. São dificuldades de várias instituições de preservação”.

Betty Lacerda Malta, coordenação de Documentação e Pesquisas Históricas da Fundação Joaquim Nabuco

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