Sertão metafórico na peça 'Grande Sertão: Veredas', no Teatro Guararapes

Depois de ter sido adiada por causa da crise de abastecimento, espetáculo chega a Pernambuco, em sessão única neste domingo (8)

Luísa Arraes, o Riobaldo meninoLuísa Arraes, o Riobaldo menino - Foto: Annelize Tozetto/Divulgação

A peça "Grande Sertão: Veredas" estará em Pernambuco, em única apresentação, neste domingo (8), às 19h, no Teatro Guararapes. Ela transpõe para o palco o mítico livro de Guimarães Rosa e traz em seu elenco nomes de peso como Caio Blat, Luísa Arraes, Leonardo Miggiorin e Luíza Lemmertz (filha da atriz Julia Lemmertz). A peça é dirigida por Bia Lessa, que decidiu "coisificar" os universos contidos naquela que é considerada a maior obra literária brasileira do século 20. Em vez de criar um cenário realista regionalizado, Bia optou por dar destaque a um sertão metafórico.

Assim, criou uma grande estrutura tubular, onde parte da plateia vai poder assistir ao espetáculo de dentro dessa "gaiola" (utilizando fones de ouvido que permitem escutar separadamente a trilha de Egberto Gismonti, as vozes dos atores e os diversos efeitos sonoros, levando a um nível profundo de interação). Para os que preferem uma visão panorâmica da movimentação dos atores, há a opção da plateia tradicional.

"Bia optou pelo vazio, pela evocação do Sertão. Por conta dos poucos elementos cênicos, cada um acaba evocando seu próprio sertão interior. A amplitude sonora é tridimensional. Você ouve tudo, folhas, pássaros, chuva, o espaço vazio pleno de sons. A música e os efeitos sonoros criam uma experiência imersiva", descreve Caio Blat, que é um dos intérpretes de Riobaldo. Quem faz o Riobaldo menino é Luísa Arraes. "Bia não escalou ator ou atriz em função do sexo, do gênero, mas pelo jeito de atuar", explica Luísa.

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"Eu faço parte da descoberta de Riobaldo quando menino, o primeiro contato dele com as coisas, em uma época de inocência e sem tanta preocupação", acrescenta. Além de Riobaldo, ela interpreta um jagunço, bichos e cactos. "Tem esse aspecto bonito da relação não-hierárquica dos humanos com os bichos, plantas, a Terra. Os personagens humanos e não-humanos são todos feitos por nós. Há muitas narrativas em movimento. Em nenhum momento tem algo no palco fazendo figuração, plano de fundo. Cada um tem sua própria singularidade e conta uma história", destaca a atriz.

Tanto Caio quanto Luísa, que falaram por telefone à reportagem da Folha de Pernambuco, conversaram sobre o processo de construção da peça. "O texto original foi destroçado e retraçado, gerando um resultado muito íntimo. O mergulho inicial foi muito intenso, e poder vir a se expor dessa forma é um milagre, um privilégio e uma honra. São raros os momentos em que você consegue conciliar tanto primor. A gente construiu uma espécie de baú de buscas, armazenando experiências, sentimentos não domesticados, ferozes", aponta Luísa.

"Foi uma reação direta ao livro. Não houve adaptação, libreto. O contato foi feito diretamente com o romance na mão, no improviso, através de um processo de imersão na obra e da escolha coletiva dos trechos e da encenação", conta Caio. Ele relata que não chegou a assistir a nenhuma outra montagem de "Grande Sertão", embora lembre da minissérie de Walter Avancini (estrelada por Tony Ramos e Bruna Lombardi).

"É pena viver esse spoiler da memória, porque as reações de quem não conhece a história são preciosas, o primeiro impacto de quem descobre o drama de Riobaldo. A peça tenta desconstruir a questão de gênero. Diadorim não é homem, mulher ou trans, é um símbolo do afeto sem classificação, um amor de loucura no meio da guerra, da impossibilidade, e Riobaldo é um ser atormentado por ter perdido esse amor e não saber se a culpa é dele. É uma angústia universal e atemporal e, mesmo após 50 anos, o texto permanece muito atual, porque o desejo, o amor e o afeto brotam em qualquer situação. 'Grande Sertão' é uma obra prima que representa com perfeição uma situação de guerra, miséria, pobreza, amor e encanto. Ou seja, retrata o Brasil", avalia ele.

   Prêmios

O evento está sendo aguardado com ansiedade, após ter sofrido um adiamento de mais de um mês (marcado para o dia 2 de junho, foi cancelado por conta da crise de abastecimento, que impediu a locomoção da equipe e o transporte de equipamentos). Entre outros prêmios que a peça já recebeu, estão o de melhor direção pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 2017; o de melhor direção e melhor ator (Caio Blat) do Prêmio Shell de 2017; e o prêmio Bravo! de melhor espetáculo de teatro.

Serviço:
Peça "Grande Sertão: Veredas"
Neste domingo (8 de julho), às 19h
Teatro Guararapes (Centro de Convenções, Olinda)
Quanto: R$ 200 (palco, com serviço de headphone, limitado a 200 pessoas)
Plateia: de R$ 160 (inteira) a R$ 50 (meia-entrada), de acordo com a posição no teatro

 

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