'Severina' cria mistério e romance em trama apaixonada pela literatura
Parceria entre Brasil e Uruguai, 'Severina' conta a história de um dono de livraria que fica fascinado por uma mulher misteriosa que rouba livros. O filme está em cartaz no Cinema da Fundação (Derby e Casa Forte)
Na essência de "Severina" está a paixão pela literatura, a maneira como os livros e a cultura literária sugerem maneiras de interpretar e refletir sobre aspectos complexos e às vezes contraditórios da existência.
Dirigido pelo cineasta e diretor de teatro carioca Felipe Hirsch, baseado no livro homônimo do autor guatemalteco Rodrigo Rey Rosa, a história se passa no Uruguai e acompanha a vida de um dono de uma livraria (Javier Drolas). O filme está em cartaz no Cinema da Fundação (Derby e Casa Forte).
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A história de "Severina" começa com a narração do protagonista, que durante um evento em sua livraria vê quando uma mulher que ele não conhece (Carla Quevedo) entra na loja. É desse encontro casual e inesperado que surge uma espécie de fascínio instantâneo e arrebatador.
O homem acompanha com interesse cada vez maior quando essa mulher misteriosa retorna nos dias seguintes. Ela não responde nenhuma pergunta de maneira decisiva e toda vez que entra na livraria rouba algum exemplar, o que aumenta a curiosidade do dono.
"Severina" começa como romance, um drama sobre o que aproxima as pessoas e os silêncios de cada um, mas, aos poucos, o roteiro muda o tom e o ritmo: o longa se torna uma espécie de mistério existencial, um enredo enigmático sobre uma personagem que ao não revelar quase nada de si mesma se torna o alvo da obsessão e da imaginação do protagonista.
Parece ser através de trechos literários, leituras, citações e frases alegóricas que os espectadores têm acesso aos sentimentos particulares da mulher, cujo nome está no título do filme.
Aos poucos a relação entre o casal se torna mais intensa e o roteiro sugere informações vagas sobre Severina: ela mora com seu pai em uma pensão, rouba livros em diversas livrarias e em cada loja parece se relacionar de forma ambígua e potencialmente erótica com os livreiros.
É uma situação que parece empolgante pelo que sugere de humano e complexo, mas aos poucos fica a impressão que o roteiro evita enfrentar de maneira firme as lacunas na relação entre o casal.
Além de dono da livraria, ele tem também a ambição de ser um escritor. Esse detalhe acaba sendo fundamental para a trama: a certa altura, o filme parece uma novela dramática escrita pelo protagonista, uma ficção em que realidade e ilusão se misturam e se tornam uma conjugação difusa de eventos.
Enquanto o roteiro tenta injetar mistério e tensão, as atuações pendem para o excesso, o que desfaz um pouco da magia desses mistérios e ambiguidades - um filme que termina se conectando com a literatura de forma convencional e de certa forma evidente.
Cotação: regular

