Sobre uma escrita não tão longe assim

Centenário de morte do escritor gaúcho Simões Lopes Neto traz sua obra à tona e se torna tema de exposição

Prefeito de Amaraji em reunião com o governador no PalácioPrefeito de Amaraji em reunião com o governador no Palácio - Foto: Wagner Ramos/SEI

Existem escritas que precisam ser resgatadas, revisitadas - e para os que não tiveram contato com a obra, conhecidas. Entre essas, está a de João Simões Lopes Neto, cujo centenário de morte se completa neste ano. Gaúcho, nascido na cidade de Pelotas em 9 de março de 1865 e falecido em 14 de junho de 1916, produziu livros, peças de teatro (algumas sob o pseudônimo de Serafim Bemol), artigos e matérias jornalísticas. Além de ter exercido a função de empresário, esta um pouco mal-sucedida, pois ele conseguiu falir até um cartório...

Sua obra mais conhecida, e considerada um marco, é “Contos Gauchescos”, datada de 1912. A obra apresenta o vaqueano (guia, conhecedor de caminhos) Blau Nunes, protagonista que embala o leitor em sua narrativa. “Genuíno tipo - crioulo - rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco”, assim é apresentado o personagem.
Sim, há alguns termos bem regionais, gauchecos mesmo. Mas a fluidez da narrativa baseada na oralidade do homem simples, do campo, aproxima a escrita do leitor, independentemente de sua origem. Ora, porque o contexto é auto-explicativo; ora, porque existem palavras que fazem parte do nosso vocabulário nordestino antigo. Palavras como “aboletar” ou “pabulagem”, encontradas em trechos de seus escritos, são bem utilizadas até hoje por aqui, e com o mesmo sentido.
Símbolo da literatura regionalista do Rio Grande do Sul, o escritor rendeu influências. “Autores, como Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, com certeza, leram Simões Lopes Neto e levaram a inspiração a seus textos. Assim como o legado também foi para o movimento modernista”, afirma Ceres Storchi, curadora da mostra “Simões Lopes Neto - onde não chega o olhar prossegue o pensamento”, que está em cartaz no Santander Cultural de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Mesmo com a parceria entre a instituição e o Museu do Estado de Pernambuco, não há previsão de chegada no Recife.
A mostra, que fica em cartaz até 18 de dezembro, traz a vida - com representação da árvore genealógica do escritor - e sua obra. O artista gráfico, também gaúcho, Edgar Vasques ilustra os painéis baseados nos personagens de “Contos Gauchescos” e “Lendas do Sul”. Do acervo, há as diversas edições de seus livros, além de escritos originais. Por falar em acervo, o grande detentor da coleção é Fausto Leitão Domingues, conselheiro do Instituto João Simões. Do seu patrimônio saiu a maior parte dos objetos em exposição. “Fico satisfeito em colaborar. Pois sou um apaixonado pela obra de Simões Lopes Neto, que retratou tão bem o Pampa gaúcho. Foi um escritor da nossa origem. O meu livro de cabeceira, para mim a obra máxima dele, é ‘Contos Gauchescos’”, declara.
A iniciativa, além de lembrar os 100 anos de morte de Simões Lopes Neto, traz à tona uma personalidade que vem sendo redescoberta mais recentemente. Após um período no esquecimento, o escritor está sendo, atualmente, objeto de pesquisa em universidades. É preciso que o rótulo de “regionalista” não aprisione o escritor em uma caixa. Pois os seus textos retrataram um Brasil, na época raramente encontrado em publicações literárias, e que já evidenciavam a diversidade do País.
*A editora assistente viajou a convite do Santander Cultural

Veja também

'Fazer o certo requer coragem', diz Dani Calabresa sobre acusações contra Marcius Melhem
Assédio

'Fazer o certo requer coragem', diz Dani Calabresa sobre acusações contra Marcius Melhem

Mais de 40 filmes de terror nacionais são exibidos em mostra online
Cinema

Mais de 40 filmes de terror nacionais são exibidos em mostra online