Solidão ao extremo na HQ 'Meu amigo Dahmer'

Livro de Derf Backderf conta a história de colega do ensino médio que se tornou um serial killer

Publicação é da editora DarkSide Publicação é da editora DarkSide  - Foto: Darkside/Divulgação

Muitos estudos, livros, pesquisas e séries se debruçam sobre tentar entender um serial killer. O que passa em sua mente, o que o fez ser quem é, cometer as atrocidades que cometeu. O passado daquela pessoa se torna objeto de estudo e observação, cada gesto, palavra ou reação lido até o talo das entrelinhas para que se identifique, enfim, o porquê.

“Meu amigo Dahmer”, história em quadrinhos escrita e ilustrada pelo norte-americano Derf Backderf e publicada nacionalmente pela editora DarkSide, traz uma visão diferente. Não é cheio de “será que foi nesse momento que ele se tornou psicopata?” e não tenta defender Jeffrey Dahmer, preso pelo assassinato de 17 homens e garotos, envolvendo também canibalismo e estupro. Apenas conta uma história: a história do amigo Dahmer.

É que o autor, Derf, e Dahmer eram colegas de turma no ensino médio - o que, convenhamos, dá a Derf o poder de contar uma história de um ponto de vista que ninguém tinha contado antes. Ele nos apresenta Jeffrey, um adolescente anti-social e esquisito que foi, acima de tudo, uma pessoa negligenciada.

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Mas atenção: em nenhum momento do livro Derf defende Dahmer por ter se tornado quem se tornou, inclusive afirma que ele deixou de ser uma pessoa digna de empatia no momento em que cometeu seu primeiro assassinato. Mesmo assim, é possível tirar de Dahmer um único sentimento, forte, que acompanha o leitor da primeira à última página e que Derf passou bem, tanto com a narrativa quanto com os desenhos - o sentimento de solidão.

“Meu amigo Dahmer” é interessante por mostrar o cotidiano do adolescente que viria a se tornar um monstro, mas não chega a ser uma leitura complexa e carregada de nuances. É simples, se repetindo às vezes, inclusive, e evoluindo lentamente (uma opção estilística do autor). O desenho é o mais intrigante da obra, que peca com o excesso de narração (explicações que não precisam ser dadas, pois a ilustração já estava clara). Os quadros focados em Dahmer são os mais curiosos, quando dá para ver que, de fato, o autor se dedicou e prestou atenção em como retratar aquela cena. O isolamento do futuro serial killer tanto na escola quanto com o divórcio dos pais, sua tendência estranha em imitar os ataques epiléticos da própria mãe, sua frustração sexual, principalmente por ser gay, descontada de forma maníaca em homens aleatórios que lhe atraíam - tudo isso são coisas que se destacam durante a narrativa.

É notável o trabalho de pesquisa para o quadrinho: não satisfeito com suas memórias, Derf consultou colegas da época, pessoas envolvidas, revirou entrevistas, livros, diários. Daí, traz uma história amarrada e cheia de fontes justificáveis (no final da edição, inclusive, há um sumário de praticamente cada página, explicando de onde vieram aquelas referências e informações). É um trabalho válido e meritório, mas que precisava ser explicado na introdução do livro. Afinal, apesar de se tratar de uma história em quadrinhos, “Meu amigo Dahmer” é quase que um livro-reportagem. Acaba sendo uma leitura repetitiva e com poucos fatos relevantes e novos que não foram ditos ao longo da história desenhada.

Serviço:
"Meu amigo Dahmer", de Derf Backderf
Editora: DarkSide; 288 págs
Preço médio: R$ 30

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