Crítica

'Crip Camp' faz registro sensível da luta pelos direitos das Pessoas com Deficiência

"Crip Camp", novo trabalho para a Netflix da produtora Higher Ground, de Barack e Michelle Obama, trata da luta pelos direitos civis a partir de um acampamento nos Estados Unido

O filme surgiu a partir da experiência do diretor no acampamentoO filme surgiu a partir da experiência do diretor no acampamento - Foto: Divulgação

Somente em 1999, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu um calendário universal para lembrar dos direitos das Pessoas com Deficiência (PCDs). É uma da mais significativas conquistas deste grupo, que historicamente ficou à margem das civilizações, e que ainda pavimenta um caminho de lutas por direitos civis. São nestas mobilizações que o documentário “Crip Camp: Revolução pela Inclusão”, lançado pela Netflix, aprofunda-se em uma hora e quarenta e oito minutos de exibição. O longa-metragem é a segunda obra da produtora Higher Ground, de Barack e Michelle Obama, para a plataforma de streaming. A primeira produção do casal, “Indústria Americana”, venceu a categoria de melhor documentário em longa duração no Oscar 2020.

Se no primeiro filme, a produtora aposta na captação de interações socioculturais, de gênero e de trabalho após a compra de uma montadora norte-americana por chineses, em “Crip Camp” o foco se volta nas relações pessoais e na luta pelos direitos civis das pessoas com deficiência a partir da década de 1970. O pontapé para a mobilização começa na idealização do Acampamento Janed, na estrada de Woodstock, no estado norte-americano de Nova Iorque. Em uma época de restrição de direitos e de estigmatização das PCDs, o lugar se tornou o primeiro refúgio em que elas poderiam ser humanas, libertas e com o sentimento de pertencimento no mundo.

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É na primeira etapa que o diretor do documentário e um dos participantes do acampamento, Jim LeBrecht, desenvolve uma narrativa sobre o pertencimento dos integrantes no local. Foram nas atividades de aprendizagem, na música e nos relacionamentos que aquelas pessoas sentiram o que é estar distante dos olhares excludentes. “No Camp Janed, a assistência pessoal fazia parte de nossas vidas, de quem precisava. Havia gente que me vestia, despia, levava ao banheiro e dava banho, punha e tirava da piscina. Também foi o começo da minha experiência de ter outra pessoa que não meus pais fazendo essas coisas”, diz o depoimento de Judy Heumann, integrante do Janed e uma das primeiras ativistas da causa nos Estados Unidos.

 

Uma das militantes dos direitos civis nos EUA

Uma das militantes dos direitos civis nos EUA - Crédito: Foto: Divulgação

Além de Judy, outros participantes e monitores do acampamento dão seus depoimentos, enquanto o documentário faz uma investigação profunda e sensível com imagens da época. Embora a primeira etapa seja importante - com a construção de personagens reais, sensíveis e em busca da aceitação -, é na segunda parte que o longa-metragem consegue seu maior êxito. Com imagens históricas - quase exclusivas - e de um valor documental extremamente importante, o filme trata como o Janed impulsionou uma luta nacional pelos direitos das pessoas com deficiência. Com a participação conjunta até com os Panteras Negras - um dos maiores movimentos civis pela igualdade racial no país -, a luta política dessas pessoas ganhou as ruas para promover igualdade, respeito e acessibilidade.

Contudo, quando se analisa o contexto geral do filme, as duas partes parecem se complementar. O caminho trilhado por LeBrecht, em adentrar relações pessoais, sexuais e até mostrar desejos considerados “banais” para a maioria das pessoas só reforçam a necessidade de que a deficiência não pode ser maior que aqueles personagens envolvidos. E que suas lutas são justamente para isto. Além das entrevistas e contextualização do movimento, uma das maiores riquezas do documentário é a capacidade de registrar a história sem parecer didático ou enfadonho para quem assiste. E isso só é possível pelo envolvimento pessoal da direção, que viveu a época.

Confira o trailer: 

 

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