Ter, 16 de Junho

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ENTREVISTA

Estreando filme sobre crime real, Taís Araújo reflete: "Os incômodos são importantes para a mudança"

Atriz esteve no Recife para apresentar o filme "Doutor Monstro" na abertura do Cine PE

Taís Araujo pretende circular com espetáculo pelo Brasil Taís Araujo pretende circular com espetáculo pelo Brasil  - Foto: Ricardo Fernandes/Folha de Pernambuco

Longe da televisão desde “Vale Tudo”, Taís Araujo retorna às telonas neste ano. Ela estrela “Doutor Monstro”, filme baseado em um crime real, previsto para estrear no dia 10 de setembro. Na última segunda-feira (1º), o longa-metragem ganhou sua primeira exibição ao abrir a 30ª edição do Cine PE.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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Durante sua rápida passagem pelo Recife para divulgar o filme, Taís Araujo conversou com a Folha de Pernambuco sobre esse e outros projetos. No teatro, a atriz carioca vem chamando atenção por seu trabalho no monólogo “Mudando de Pele”, que começa a circular por outras cidades além do Rio de Janeiro.

Com mais de 30 anos de carreira, a artista conta que vem buscando cada vez mais levar ao público novas narrativas para mulheres negras. Para isso, tem buscado produzir seus próprios trabalhos no teatro e no cinema, além de não abrir mão de apontar publicamente aquilo que a incomoda. 
 

Confira a entrevista:

Em “Doutor Monstro”, você interpreta a promotora de justiça Cláudia Ferreira. Quem é essa mulher? É uma personagem inspirada em alguém real? 

Ela é fictícia. Na vida real, promotores homens atuaram na acusação, mas o diretor quis colocar uma mulher. Ela fica obcecada em botar esse cara na cadeia. Acho muito incrível, porque é o desejo de uma mulher de fazer com que a outra mulher tenha o seu reconhecimento, mesmo depois de morte, e falar: "Gente, isso não pode acontecer nesse país, não pode ser desse jeito, as coisas não podem ficar assim". Obviamente que é o trabalho dela como promotora, mas é algo que bate em um lugar muito pessoal dessa mulher também.

Para além do “true crime”, o que esse filme oferece ao público?
Se fosse apenas um filme de “true crime” pelo “true crime”, acho que eu nem teria aceitado. Ele é um filme de tribunal. Isso foi o que me deixou impressionada e com vontade de fazer: o gênero. A gente não faz muito isso no Brasil. Claro que ele [o filme] fala de um crime que aconteceu, mas é um filme de tribunal. Aí ele revela várias feridas do Brasil: a questão da morosidade da justiça, a espetacularização de um crime quando fica todo mundo olhando para o criminoso como se fosse uma grande estrela. Todas essas mazelas que acontecem não só no Brasil. O mundo tem uma tendência a olhar dessa maneira e esse filme expõe essas feridas. 

Essa é a sua primeira vez no Cine PE, mas a passagem pelo Recife será bem rápida…
Nem 24 horas, porque eu estreio em São Paulo, na quarta (3), a minha peça. Tenho muitos amigos pernambucanos. Acabei de mandar fotos daqui falando "estou na sua terra” para alguns deles, como Mãe Carmem Virgínia [chef de cozinha]. Mas conheço pouquíssimo o Recife. Já vim algumas vezes, mas sempre rápido. Nunca vim para ficar e aproveitar a cidade. É uma falha na minha vida isso. 

Então, é uma oportunidade de você trazer a peça “Mudando de Pele” para o Recife.
Ah, eu quero. Minha ideia é levar para o Brasil inteiro. Queria muito isso. Agora a gente começa em São Paulo. Depois, temos Porto Alegre e Belo Horizonte, mas eu quero trazer para cá também.

Você resolveu realmente se dedicar ao teatro neste ano. Como está sendo a experiência?
Maravilhosa. Eu e a Yara de Novaes [diretora] estamos trabalhando nessa peça há muito tempo. Só em sala de ensaio, eu fiquei três meses vivendo essa história. Como produtora, quando você escolhe a peça, vê que ela se tornou algo tão bonito e que faz as pessoas serem tocadas, aí fala: “nossa, está dando certo". Fizemos no Rio, que foi maravilhoso, com tudo esgotado e sessão extra. Abrimos as vendas em São Paulo e, uma hora depois, já esgotou tudo. Vamos ver como as pessoas vão receber a peça lá, porque isso é o que mais importa. 

Você também vai produzir o filme sobre Elza Soares, que será interpretada por você. O que produzir seus próprios trabalhos te proporciona?
Novas histórias e novas formas de contar as histórias. A história da Elza, por exemplo, a gente viu que o Brasil contou durante muito tempo de uma maneira muito viu, machista. Quero contar a Elza a partir da “maravilhosidade” que essa mulher era. Mudar os pontos de vista muda a história toda. Depende de quem conta. 

Referência é uma palavra muito utilizada para falar sobre você. Como você se sente ao ocupar esse lugar?
Eu já vi esse lugar de várias maneiras. Tenho quase 50 anos. Hoje em dia, vou entendendo os lugares que ocupo e a necessidade de ocupá-los ou não. Vejo como uma super responsabilidade, mas com um prazer também. Eu tive essa lacuna de referências e acho que elas são importantes para a gente se enxergar em algo de alguma maneira. Inclusive, essa pesquisa de novas narrativas está dentro desse mesmo pacote. 

Recentemente, acompanhamos você falar de maneira muito aberta sobre o que te incomodava na sua personagem em “Vale Tudo”. Essa transparência cobra um preço? 
Desde “Xica da Silva” (1996) eu já falava aquilo que eu pensava. Acho que tudo pode ser dito. O negócio é a maneira como você fala. Entendo também pessoas que fiquem mais intimidadas ou receosas em apontar qualquer coisa que esteja incomodando, mas penso que os incômodos são bons. Eles são importantes para a mudança. 


 

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