Talentos dos quadrinhos de Pernambuco na CCXP Tour

Ilustradores pernambucanos contam as suas trajetórias e sobre a oportunidade de estar no evento

Projeto independente traz narrativa de família que vive numa floresta, em tanque de guerra adaptadoProjeto independente traz narrativa de família que vive numa floresta, em tanque de guerra adaptado - Foto: Paullo Allmeida

A vinda da Comic Con Experience (CCXP) para o Recife, entre os dias 13 e 16 de abril, no Centro de Convenções de Pernambuco, oferece aos fãs da cultura pop uma intensa programação, com visita de nomes de destaque nas artes gráficas e visuais. O evento também tem impacto para os artistas locais: é a chance para jovens autores estreantes, que buscam se estabelecer no mercado editorial, apresentar trabalhos e fundamentar bases autorais.

Um exemplo é Roger Vieira, ilustrador desta Folha de Pernambuco, que lança sua primeira história em quadrinhos: "Não tenho uma arma". "O quadrinho fala sobre o que acontece depois de uma história maior. Tive uma ideia e vi que era muito grande, achava que ainda não estava preparado pra desenhá-la. Decidi começar com uma história menor", diz o autor. "É sobre o tempo que a gente vive hoje, quando todo mundo quer estar armado para se defender. Pensei numa cidade em que todo mundo tivesse essa cultura bélica", explica.

A narrativa apresenta aspectos de uma futura história maior, ainda em processo de criação. "A HQ fala sobre uma família que conseguiu sair dessa cidade e está vivendo meio que escondido, ou talvez fugindo. É uma história com menos personagens, mais simples, que apresenta um pouquinho do que eu quero que seja futuramente a história maior. Ainda não está fechada, tenho algumas ideias, mas preciso trabalhar muito ainda", detalha o autor, que estará durante o evento no Artist's Alley, espaço reservado para quadrinistas.

A HQ introduz o leitor num universo familiar, em que mãe e filho vivem numa floresta, dentro de um tanque de guerra adaptado como residência. "Pensei que eles, por terem saído de uma cidade bélica, queriam meio que mudar um pouco o modo de vida. Eles têm um tanque, mas não é usado como arma. Criam flores lá, forma uma contradição. É uma arma mas não é usada como uma arma. E a partir disso, tento fazer personagens como se quisessem ser o que eles não foram programados para ser", explica.

Trajetória

O interesse de Roger por quadrinhos surgiu quando era criança. "Lia quadrinho desde os sete anos. Meu pai trazia revistas da (Turma da) Mônica. Mas a ideia de fazer quadrinho veio mais tarde, quando tinha uns 16. Foi quando eu passei a querer contar histórias", diz Roger. "Fui autodidata. Lia revistas de Mozart Couto, Scott McCloud, Will Eisner. Lia muita HQ, mas não tinha acesso a muita coisa. Buscava ler pra entender mais ou menos como funcionava, para depois tentar fazer o que eu queria", explica.

Este é o primeiro quadrinho do autor. "Na internet lanço tirinhas, quadrinhos de uma página. Fiz um trabalho no Inktober (iniciativa em que ilustradores fazem uma página por dia, em outubro), mas foi meio de improviso. Não fiz lançamento, apenas juntei tudo e publiquei na internet. Esse considero a minha estreia, tem a minha cara, foi bem pensado", detalha Roger, que publica "Não tenho uma arma" de forma independente. "São 300 exemplares. Eu que financiei tudo. Cada um custa R$ 15", diz o autor.

Sonho de criança realizado por Felipe Soares

A inspiração para os contos "Passageiro" e "Ciço e a botija de ouro", que compõem o volume "Contos malditos", de Felipe Soares, foi o gênero terror. "Eu gosto de levar susto", diz Felipe. "Sempre gostei do gênero terror. Achei que seria um desafio colocar isso no quadrinho. Também estudo cinema e gosto de filmes que têm plot twist. O que me move a fazer quadrinhos de terror é o final inusitado, a reviravolta", ressalta. A publicação, a primeira do autor, será lançada durante a CCXP, no Artist’s Alley.

A estreia se dá com adaptações de contos que surgiram no canal de YouTube Segredos Malditos. "É um canal com áudio-dramas de terror, nascidos de contos de amigos. A gente se juntou para fazer esse canal. Enquanto vai rolando os áudios, há ilustrações, que eu faço", explica o autor. "Sou ilustrador e animador, só que meu sonho de criança era ser quadrinista. Sempre quis desenhar quadrinhos. Vendo a oportunidade da CCXP, vi a necessidade de ter um material legal e realizar meu sonho", ressalta.

As narrativas reunidas neste lançamento compartilham o gênero, a ambientação sombria, o instinto de suspense. "A primeira é 'Passageiro'. O autor do conto, Pablo Ferreira, aprovou a adaptação. A história é sobre uma mulher que tem dupla jornada, trabalha como caixa em um mercado e faz faculdade à noite. Ela está de saco cheio da rotina. Até que surge uma oportunidade dela sair desse cotidiano. É quando coisas estranhas acontecem", detalha.

"O segundo conto é 'Ciço e a botija de ouro', baseado em texto de Bruno Antônio. Não há tempo definido, mas pelo linguajar você intui que é o Brasil colonial. É sobre um caboclo velho que tem um sonho em que existe uma botija de ouro num casario abandonado. No sonho se ele cavar bem fundo, sem olhar para trás, consegue essa botija. Se olhar, perde. Ele acaba pegando a pá e cava e enquanto isso assombrações aparecem para tentar seduzi-lo", explica.

O caminho de Felipe pelos quadrinhos se iniciou de um jeito familiar. "Começou com Maurício de Souza, como muita gente", lembra. "Inclusive estou feliz que ele vai estar na CCXP. Não sei se vou conseguir falar com ele. Pelo menos tirar uma foto vou tentar", diz. "Sempre devorei livros que falam sobre quadrinhos, de mestres como Will Eisner, que tinha livros mais didáticos, como 'Quadrinhos e arte sequencial'. Sempre tive essa paixão e queria um dia parar e fazer uma HQ", ressalta.

Um Recife distópico por natureza em "Pindorama"

Recife é o cenário do quadrinho "Pindorama", com roteiro de Erick Volgo e ilustração de Lehi Henri. Mas as páginas apresentam a cidade num futuro distópico, em que um tsunami destruiu a ordem política, econômica e social da capital pernambucana. "Pesquiso desastres naturais, cidades ameaçadas. Cresci no Janga. Quando era criança, tinha uma praia linda, onde as pessoas iam veranear. Agora deixou de ser um paraíso e o mar começou a avançar. Construíram muros de arrecifes para conter a água, mas não adiantou", diz Erick.

"Pesquisando descobri uma ilha no norte da África que tem um vulcão adormecido, e se ele entrar em erupção há um risco real, pelo que li, de trazer um tsunami para a costa do Atlântico, incluindo os Estados Unidos, o Caribe e o Nordeste entre os mais afetados. Comecei a viajar nesse cenário, como seria se isso acontecesse", detalha o roteirista sobre o primeiro volume da HQ, que terá 10 capítulos - o primeiro, vendido por R$ 20 na CCXP, tem 56 páginas e contou com apoio do Funcultura.

O quadrinho se passa depois do tsunami; conhecemos um Recife destruído - e dessa nova configuração surge uma nova ordem. "Tenho um amigo que quando eu estava criando a história comentou que 'não tem necessidade de criar um Recife distópico, o Recife já é distópico por natureza'. É verdade. O tsunami cria uma alegoria, um cenário distópico, para mostrar coisas que acontecem de forma sutil. A gente passou pelo golpe, há casos de corrupção, então existem personagens que são alegorias do Brasil hoje em dia", diz.

O nome do quadrinho antecipa certos sentimentos e emoções que guiam a narrativa. "Pindorama em tupi guarani significa terra livre dos males, terra das grandes palmeiras. Comecei a pensar que hoje Recife é absolutamente verticalizada. Achava pertinente ter uma história de super-herói para discutir o Brasil, a ideia que o Recife hoje não tem palmeiras, mas tem prédios grandes. Ao mesmo tempo o nome remonta a esse Brasil idílico", diz Erick. Os heróis surgem de pontos inesperados: "Trato da exclusão social, da questão das minorias: os excluídos como nova possibilidade de resistência", destaca.

Serviço:
Roger Vieira - https://www.behance.net/Roger_Roll
Felipe Soares - http://cargocollective.com/fesoares
Erick Volgo e Lehi Henri - https://www.facebook.com/pindoramaHQ/?fref=ts

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