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Teatro para crianças resiste em Pernambuco

Mesmo sem patrocínio, Métron Produções começa neste fim de semana a 15ª edição de seu festival voltado às crianças, que segue até o fim de julho

Luiz Felipe Botelho diz que 'há brasas embaixo dessa cinza', em relação ao marasmo do cenário atualLuiz Felipe Botelho diz que 'há brasas embaixo dessa cinza', em relação ao marasmo do cenário atual - Foto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

A experiência teatral alimenta a alma e provoca reflexões em todas as idades, mas tem um impacto potencializado quando a criança é o público das apresentações. O contato com as artes cênicas contribui para a maneira como os pequenos se relacionam com o mundo e leva à construção de plateias futuras, consolidando a existência do teatro como um todo. 

Apesar de sua importância, o segmento do teatro infantil vem enfrentando problemas, embora algumas iniciativas teimosas persistam (caso do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, que abre sua programação neste fim de semana e está completando 15 edições).

"Pernambuco sempre foi um celeiro do teatro infantil, uma referência nacional de local onde se faz produções de qualidade e espetáculos que marcam época", aponta Toni Rodrigues, da Cênicas Cia de Repertório. Junto com as companhias Fiandeiros, Humantoche, Mão Molenga e 2 Em Cena, o grupo vem investindo no segmento infantil, embora não seja voltado apenas para ele.

"Aqui na Cênicas, atualmente temos quatro espetáculos infantis em nosso repertório: 'Pinóquio e suas desventuras', 'Pluft - O fantasminha', 'Era uma vez um rio' e estamos estreando 'O segredo da arca de Trancoso', durante o Festival, no próximo dia 28", enumera.

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Além da estreia desta peça, neste mês de férias a Métron Produções (organizadora do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco) vai trazer, entre montagens com perfil mais experimental e autoral e outras que optam por textos mais conhecidos, outras 14 peças locais diferentes, que vão ser apresentadas em quatro teatros (Santa Isabel, Luiz Mendonça, Barreto Júnior e Roberto Costa), a preços reduzidos (R$ 30, a inteira e R$ 15, a meia-entrada), e também de graça, no teatro Joaquim Cardozo (núcleo da UFPE na rua Benfica), ampliando a oportunidade para todas as classes sociais. 

"O evento tem uma aceitação muito boa. Quanto às peças, nossa proposta é um retrato do que acontece em Pernambuco. Se tem uma safra boa de produções, isso se reflete no festival", explica Ruy Aguiar, um dos organizadores. Em 2018, a Métron não conseguiu patrocínio e por isso não trouxe espetáculos de fora do Recife, como chegou a fazer em anos anteriores. Ainda assim, o evento continuou.

"É um projeto que congrega muitas pessoas e que foi concebido não só para incrementar o mercado, mas para incentivar a vivência da arte. O mais bonito de se ver é a acolhida do público. As pessoas precisam de cultura, de ter sua cidadania resgatada", destaca por sua vez Edivane Bactista, que também está à frente do festival.

Ela relembra que o evento surgiu em 2004, por influência de Marco Camarotti (professor, ator e encenador pernambucano já falecido), com a proposta de fomentar trocas e ajudar a escoar as produções. De lá para cá, houve mudanças no mercado. "Além da falta de verba e espaço nos teatros, precisamos competir com outros eventos, porque a quantidade de opções no Recife, até mesmo gratuitas, é muito grande. Mas, quando o público se encanta, ele vem", afirma.

"Há dificuldades na realidade local, e elas não nascem na arte", pontua o ator e dramaturgo Luiz Felipe Botelho. "Em termos de produção e capacidade criativa, vejo novas coisas acontecendo. A questão é que a crise econômica tem repercutido na cultura, e vivenciamos um momento muito esquisito. Tenho 58 anos e nunca vi uma situação tão grave, em todos os níveis. Uma conjunção de descaso, falta de representatividade e ausência de diálogo", lamenta.

Mesmo diante deste cenário desolador, ele diz que "há brasas embaixo dessa cinza" e que as pessoas que fazem o teatro não deixam de produzir e o público, de se interessar. "A finalidade da arte é fazer com que nós nos aprofundemos no que somos. Aprender sobre a vida, sobre a sensibilidade, para que a gente possa sempre descobrir como ir além de nós mesmos e na relação com os outros", destaca. Homenageado desta edição do Festival de Teatro para Crianças, Luiz Felipe é autor premiado de várias peças voltadas para o público infantil. A mais recente é justamente "O Segredo da Arca de Trancoso", produzida pela companhia Cênicas.

Entre o lúdico e o 'talk show de personagens' 

Arriscar ou apostar no conhecido? A escolha do texto das peças infantis é, muitas vezes, uma questão controversa. Diante de uma conjuntura desfavorável, com dificuldades de obter patrocínio e sem ter certeza da resposta do público, optar pela montagem de um clássico pode ser uma saída menos temerária. Ainda assim, isso não significa que a peça tenha menor qualidade que as montagens mais experimentais.

 

Para quem ama a arte teatral, o grande consenso é se posicionar contra o que chamam de 'talk shows de personagens', que não investem na dramaturgia nem na pesquisa, e simplesmente reproduzem no palco as cenas a que as crianças costumam assistir na televisão ou no YouTube.

"Esse tipo de produção mercantilista não é arte. Claro, todos precisam receber remuneração pelo seu trabalho, todos buscamos o sucesso. Mas essa não deveria ser a prioridade do artista. É absurdo quando a arte coloca o comércio em primeiro lugar. E é triste ver que as pessoas acabam sendo levadas a enxergar algo de importante naquilo. Muitos pagam caro e vão assistir a esses espetáculos sem refletir, sem sequer gostar do que vêem, apenas para se sentirem incluídos", critica o dramaturgo Luiz Felipe Botelho.

"Infelizmente tem muita gente apelando para esse filão, usando esse expediente fácil para ganhar dinheiro às custas das crianças e de suas famílias. Claro, existe espaço para todo tipo de produção, não dá para se querer controlar. Mas são espetáculos que entretêm mas não acrescentam nada à experiência de quem os assiste", lamenta por sua vez o ator e diretor Toni Rodrigues. "O que nos dá esperança é saber que existe, sim, mercado para trabalhos de maior qualidade, que resgatam o lúdico e não tratam a criança como algo menor".

Programação
Teatro de Santa Isabel (Praça da República, , 233 - Santo Antônio, Recife - PE)
Abertura : "Os Saltimbancos" (30/6 e 1º/7)
As aventuras de Mané Gostoso (07/07 e 08/07)
Pinóquio e suas desventuras (14/07)
A Bela e a Fera (21 e 22/07)

Teatro Luiz Mendonça (Av. Boa Viagem, s/n - Boa Viagem, Recife - PE)
Rapunzel, um conto enrolado (07/07 e 08/07)
Alice no País das Maravilhas (14/07)
Chapeuzinho Vermelho (21 e 22/07)
Aladim, o musical (28 e 29/07).

Teatro Barreto Júnior (rua Est. Jeremias Bastos - Pina, Recife)
Era uma vez na Terra Encantada (07/07 e 08/07)
Violetas da Aurora: o encontro (07/07 e 08/07)
Pocket show: Para Criança meter o nariz (14/07)
Assim me contaram, assim vou contando (21 e 22/07)
O segredo da arca de Trancoso (28 e 29 de julho)

Teatro Experimental Roberto Costa (Paulista North Way Shopping, Rodovia PE-15, 242 Centro, Paulista)
O Pequeno Príncipe (7/7 e 8/7)
Violetas da Aurora: o encontro (14/07)
Era uma vez no fundo do mar (21 e 22/07)
Alice no País das maravilhas (28 e 29/07)

Serviço:
Quando: de 30 de junho a 29 de julho
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Todas as apresentações tem inicio às 16h30

Circuito de Animação
O Circuito de Animação é uma ação social em parceria com Núcleo de Pesquisa em Teatro para Infância e Teatro Joaquim Cardozo. Tem como foco a apresentação de vários pequenos espetáculos com curta duração e de formas animadas. As apresentações serão gratuitas, e o público pode fazer um pequeno circuito para assistir todos os espetáculos (que terão duração máxima de 6 minutos, cada um). Serão apresentados espetáculos em Lambe- Lambe, teatro de objetos, teatro com bonecos e sombras.

Serviço:
Quando: 22 de julho, das 16h às 17h30

Onde: Teatro Joaquim Cardozo (r. Benfica, 157 - Madalena)
Gratuito

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