Tecnologia a serviço da moda

Estampa do tecido é uma das etapas mais demoradas e caras da produção de uma peça de vestuário

Por causa do preço, a marca Rainha da Cocada recorre ao Sudeste do País para produzir as suas estampasPor causa do preço, a marca Rainha da Cocada recorre ao Sudeste do País para produzir as suas estampas - Foto: Divulgação

Quando você se encanta por uma estampa talvez nem imagine o trabalho que deu para colocar aquele desenho no tecido. Essa etapa é uma das mais demoradas da produção de uma peça. E em alguns casos - quando se quer design exclusivo - pode ser a mais cara também. Caso da estamparia digital, método mais moderno.

Em Pernambuco, ainda são poucas as confecções que contam com essa tecnologia. “As confecções do Polo Agreste produzem pouco e em tecidos mais baratos e sintéticos. Portanto não compensa investir meio milhão em uma máquina de impressão digital. Quando a quantidade é grande, a maioria das empresas já compra o tecido estampado de fora. É uma deficiência, pois não imprime a identidade local, apesar de baratear o produto”, lamenta Fredi Maia, presidente do Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções em Pernambuco (NTCPE).

Existem técnicas alternativas que não deixam de lado a qualidade. Segundo o diretor presidente da grife de surfwear Rota do Mar, Arnaldo Xavier, a marca tem dois processos principais: a serigrafia e a sublimação. No primeiro, a tinta vai da tela para o tecido através de um rolo. Na tela, o desenho é gravado por fotossensibilidade - os pontos escuros do fotolito são os locais vazados que permitirão a passagem da tinta. Mais sofisticada, a sublimação imprime o desenho em papel com um corante sublimático, através de uma prensa térmica. Infelizmente, só quem suporta essas altas temperaturas são os tecidos sintéticos, impróprios para o nosso clima.

Mais artesanal, a marca Desalinho “printa” suas peças com carimbos feitos com borracha de sola de sapato. “Não temos o compromisso de produzir uma estampa perfeita. Nosso propósito é que a falha esteja presente”, declara Margarida Costa Lima. A proposta despretensiosa surgiu de uma necessidade de desautomatizar. “Tínhamos um escritório de design gráfico e trabalhávamos com computador o tempo inteiro e nos sentíamos incomodados. Queríamos trabalhar com as mãos”, lembra Margarida.

Na outra ponta da tecnologia, a estamparia digital é uma gigante poderosa que imprime diretamente do computador para o tecido em alta resolução. O custo é alto porque a tinta é cara e a manutenção do equipamento também. Em Pernambuco, a única máquina de estamparia digital que imprime em tecido natural pertence à Estampa Banana. “Fazemos moda e também painéis de parede para festas”, acrescenta Sofia Lobo, uma das designers da marca.

A grife BluK é uma das que utiliza a estamparia digital em suas peças. Segundo a empresária Keila Benício, dona da marca, a padronagem já vem pronta de São Paulo. “Eles fazem os desenhos a partir do tema escolhido e criado por mim e minha equipe, e depois enviam para que eu aprove”, conta a empresária. A jovem marca Rainha da Cocada também precisa recorrer ao Sudeste para produzir as estampas, já que fica mais barato comprar o tecido e estampar no mesmo lugar. “Não queríamos trabalhar com tecido sintético. Como a impressão digital é muito cara e não temos uma grande produção, optamos por fazer algo não voltado para o fast fashion”, explica a estilista Taís Fernandes. Para a estilista e proprietária da Refazenda Magna Coeli, a vantagem da estamparia digital é a possibilidade de exibir todas as texturas. “Para a última coleção que fiz, inspirada nas pedras portuguesas, quis que saísse no tecido até a sujeirinha das pedras, para dar um tom de real”, declara.

A empresária da grife Movimento, Tininha da Fonte, conta que em todo Brasil são pouquíssimas as fábricas que produzem poliamida com a quantidade de elastano necessária para fazer uma boa peça de beachwear. O processo de estamparia digital para esse tecido, portanto, também tem que ser cuidadoso e, segundo Tininha, não existe em Pernambuco. “Pensar na estampa é a parte de criação que mais gosto, mas é demorada”, admite a empresária.

Já a designer gráfica pernambucana radicada em São Paulo Lin Diniz, que possui especialização técnica em estamparia digital, a técnica cilíndrica (feita a partir de cilindros metálicos perfurados com o desenho da estampa) ainda é a mais viável, devido ao custo, principalmente quando a quantidade de tecido é grande. Lin já passou pela grife Iódice e pela agência paulistana de comunicação focada no design de moda, Cherry Plus. Atualmente, ela atende clientes como Tufi Duek e Luigi Bertolli. “Gosto mais dos trabalhos em que posso aplicar minhas artes manuais. Trabalho em cima do conceito da coleção e busco inspirações no meu repertório pessoal”, declara. O mercado, segundo Lin, é promissor, pois não existem muitos cursos na área. Em Pernambuco, por exemplo, não há nenhum. “Quem se especializar terá destaque”, acredita.

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