Julia Dalavia, de 'Órfãos da Terra', exalta a influência do feminismo nas mocinhas contemporâneas

Atriz interpreta a a doce e corajosa Laila, refugiada e defensora de ideias feministas no folhetim da Globo

Julia Dalavia, na pele de LailaJulia Dalavia, na pele de Laila - Foto: Globo/Divulgação

Julia Dalavia sempre leva em conta o potencial social de suas personagens. Ao ler os primeiros capítulos de Órfãos da Terra, a atriz logo viu que a doce e corajosa Laila poderia ser muito mais que apenas um papel étnico. Refugiada e defensora de ideias feministas em uma cultura onde as mulheres não têm voz, Laila representa para Julia um olhar contemporâneo sobre as mulheres do Oriente Médio.

“É uma personagem que questiona. Ela não aceita o casamento forçado, a subjugação e a falta de opinião. Mesmo no Brasil, ela terá de lutar muito para se firmar. Vejo a Laila como uma grande heroína. Em um momento onde o feminismo é tão falado e necessário, ela chega com um propósito e não vive apenas em função do amor e do casamento”, defende a atriz, empolgada com sua primeira protagonista.

Natural da cidade do Rio de Janeiro, Julia passou boa parte de sua infância e pré-adolescência fazendo testes para a tevê. Diante de inúmeras respostas negativas, ela já estava pensando em abandonar os planos de atuar quando conseguiu o papel de Helena na primeira fase de “Em Família”, de 2014. Em seguida, viveu a jovem Alê de “Boogie Oogie” e foi chamada novamente para a primeira fase de uma trama das nove, no caso, a poética “Velho Chico”, de 2016.

Em uma atuação elogiada na pele da jovem Maria Teresa, Julia acabou sendo escalada para viver uma prostituta na série “Justiça”. O trabalho carregado de cenas de alto teor erótico e dramas familiares catapultou Julia para a supersérie Os Dias Eram Assim, onde teve de emagrecer oito quilos para viver uma jovem que acaba se contaminando no princípio da epidemia de HIV. Ao analisar a carreira, a atriz de 21 anos acredita que todos os papéis foram uma espécie de ensaio para os dilemas e nuances da mocinha da atual novela das seis.

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“Tenho feito personagens muito densas. A Laila também tem uma história pesada, mas a mensagem dela é de esperança. O trabalho é enorme, mas sinto que fui me preparando para todas as complexidades da novela ao longo dos últimos anos”, ressalta.

Em cinco anos de carreira na tevê você já conta com seis novelas e uma série no currículo. De onde vem essa urgência?

Não sei. Acho que as coisas foram acontecendo sem eu me dar muita conta (risos). A tevê funciona de forma muito sequenciada. A partir de um bom desempenho, outros trabalhos vão surgindo. Sou nova, preciso ganhar repertório, então fui aproveitando essas oportunidades. Não apenas contracenei com muita gente da qual sou fã como também tive personagens interessantes e que me exigiram muito.

Em que sentido?

Fisicamente mesmo. Em “Os Dias Eram Assim” interpretei uma jovem com HIV em plenos anos 1980. Na sequência, vivi uma órfã que descobre um câncer em “O Outro Lado do Paraíso”. Agora, Laila é uma refugiada de guerra. De alguma forma, me descobriram para tipos bem dramáticos e acho que sou uma sortuda por ter a chance de desenvolver mulheres tão diferentes e complexas.

Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes)

Laila (Julia Dalavia) e Jamil (Renato Góes) - Crédito: Globo/Divulgação



Você tem o receio de ficar marcada por tipos mais densos e não ter a chance de diversificar mais a carreira?

Acho que não. Estou com 21 anos e tenho muito o que trabalhar e aprender. Tinha 16 anos quando fiz minha primeira novela e pensei que, por conta da minha cara de mais nova, faria garotas indefesas por muito tempo. Por sorte, consegui fazer essa transição para personagens mais adultas de forma muito tranquila. É claro que vou adorar fazer comédia, mas o que importa mesmo é a qualidade do papel e não o gênero.

Laila é sua primeira mocinha. Como é estar em um posto tão cobiçado?

Colocam uma pressão enorme nesse tipo de personagem. Quando surgiu o convite, realmente questionei se estava segura para a função. Por fim, me preparei de forma muito semelhante para minhas outras personagens. Na real, muda mesmo é o volume de texto para decorar e as longas horas de gravação. O que mais gosto na Laila não é o fato de ela ser protagonista, mas de ser uma mocinha que está em sintonia com a mulher de hoje.

Como assim?

Ela é a base familiar, dona de seus atos e lutou muito para não ter de ceder a uma vida de opressão. Mesmo sem muita voz, os direitos femininos avançam no universo árabe porque existe luta e questionamento. A base do texto da Laila vem desse desejo por mais autonomia e opinião. As autoras da novela poderiam focar totalmente no contexto romântico, mas foram além. Todos os núcleos discutem o machismo enraizado na sociedade, tanto no Oriente Médio quanto no Brasil.

Você chegou a se inspirar em alguém para a personagem?

Conheci muitas refugiadas durante a preparação para a novela. Mas uma, em especial, acabou virando uma referência. Ela se chama Tülin Hashemi, tem 25 anos e veio muito novinha para o Rio de Janeiro. É praticamente uma carioca, estuda gastronomia e tem a cabeça muito para frente. Durante nossa convivência, mesmo orgulhosa de suas raízes, ela questionava os valores do país, da religião, e isso me encantou. Foi o estofo da Laila, uma verdadeira homenagem às mulheres feministas e fortes daquela região.

Você já havia contracenado com o Renato Góes na primeira fase de “Velho Chico” e em “Os Dias Eram Assim”. Como é esse reencontro?

É muito feliz. Os primeiros capítulos de “Velho Chico” foram mágicos e a gente logo ficou muito amigo. É um ator que eu admiro e acompanho. Quando fiquei sabendo que voltaríamos a trabalhar juntos, vi que a troca artística seria muito interessante e isso me deixou um pouco mais tranquila. É sempre bom estar entre amigos.

Você protagonista muitas cenas dramáticas e de ação em “Órfãos da Terra”. Qual foi a sequência mais difícil da personagem até agora?

São tantas... Costumo dizer que a Laila é uma grande heroína. Ela vive em constante perseguição. Então, é muita correria e exige muita concentração para que tudo dê certo. Novela é um trabalho extenso, coletivo. Quanto mais grandiosa a cena, mais trabalho todos os envolvidos terão. Então, acho que a sequência de fuga dela para o Brasil contém as cenas mais complexas da minha carreira. Mas que me dão um orgulho enorme!

“Órfão da Terra” - Globo - de segunda a sábado, às 18h20.

Mergulho árabe

Antes de “Órfãos da Terra”, a única conexão de Julia Dalavia com a cultura árabe era pela gastronomia. “Eu já era apaixonada pelas comidas típicas. No processo de preparação, acabei aprendendo a fazer alguns pratos, conhecendo os temperos. É uma riqueza de ingredientes enorme e que diz muito sobre a mistura que é esse universo”, explica.

Além da culinária, a atriz fez um mergulho profundo nos costumes, figurinos e, especialmente, nos conflitos sociais do Oriente Médio. “Não dá para querer entender a região sem estudar a guerra. Até para que despertasse no elenco a urgência que é abordar a questão dos refugiados. É um grande aprendizado que levo para a vida”, emociona-se.

Fios à disposição

Julia Dalavia fica ansiosa para saber quais as mudanças visuais que uma nova personagem pode propor. Mesmo com pouco mais de cinco anos de carreira, a variedade de convites e projetos fez a atriz mudar bastante ao longo dos últimos anos. “A única vez que usei meu cabelo mesmo foi em 'Em Família', minha primeira novela. Após isso, comecei a variar os 'looks', coloquei mega, pintei de louro, cortei joãozinho. O bom dessas mudanças é que já entro na energia do papel”, avalia.

Recentemente, em “O Outro Lado do Paraíso”, Julia e a equipe de caracterização da novela optaram por um corte bem curto e sóbrio. Agora, além de ter deixado os fios crescerem, ela teve de se render ao “megahair” para viver a destemida Laila de “Órfãos da Terra”. “Eu adorei esse visual mais natural e rústico. Acho que combinou muito com a força da personagem”, garante.

Instantâneas

# Julia Dalavia se interessa por Artes Cênicas desde muito nova. Aos 8 anos, já estava nos palcos em sua primeira montagem profissional: a peça infantil “A Fuga das Galinhas”.

# O primeiro beijo de Julia foi aos 12 anos e não teve nada de mágico. Foi durante um teste de elenco e com um ator desconhecido.

# O envolvimento da atriz com o cinema acabou proporcionando sua primeira viagem internacional. Em 2014, ela filmou a comédia “Até que a Sorte nos Separe 3: A Falência Final”, em Las Vegas, nos Estados Unidos.

# Assim que tiver uma folga maior entre projetos, Julia sonha em estudar na New York Film Academy, prestigiada escola americana de artes cinematográficas.

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