Tiago Judas reúne tiras do personagem popular na década passada; confira entrevista:

O protagonista é Kocinas, criado por Tiago em 1998

Kocinas, criado por Tiago em 1998, é um homem quieto, com um aquário na cabeça, movido por uma forma particular de entendimento sobre o mundo em voltaKocinas, criado por Tiago em 1998, é um homem quieto, com um aquário na cabeça, movido por uma forma particular de entendimento sobre o mundo em volta - Foto: Divulgação

Os quadrinhos que compõem o livro “Hídrico”, assinados pelo artista plástico paulistano Tiago Judas, parecem criados a partir da união peculiar entre humor e filosofia, comédia sobre a rotina cotidiana e aflições existenciais. O protagonista é Kocinas, criado por Tiago em 1998; esse homem quieto, com um aquário na cabeça, movido por uma forma particular de entendimento sobre o mundo em volta, tornou-se popular na cena de quadrinho underground paulistano, sendo publicado na Revista Piauí e na Sociedade Radioativa - espaço dedicado a novos quadrinistas.

Pouco tempo depois de gerar curiosidade e atrair leitores, no entanto, esse personagem encontrou um fim peculiar: a morte gráfica e o esquecimento. “A história dessa publicação é um tanto longa e mistura realidade e ficção”, diz Tiago.

“Em 2006, inscrevi as tiras em um concurso da Folha de São Paulo e ganhei o 3º lugar. O jornal publicou meu trabalho, mas uma família, cujo o sobrenome é o mesmo do personagem, entrou em contato para proibir o uso do nome. Recebi uma notificação informando que se eu publicasse o nome eles me levariam pra justiça. Eu estava super feliz de ter ganho o concurso, mas na época a proibição me chateou tanto que resolvi por um fim nas tiras. Para isso desenhei uma HQ de cinco páginas relatando ‘jornalisticamente’ todo esse acontecimento, em que no final a tal família matava o personagem”, lembra o autor.

“Em 2012, a editora Barba Negra fez o convite para publicar essa história mais as tiras do tempo do fanzine. Como eu ainda não tinha páginas suficientes, desenhei mais umas 200 tiras inéditas. Como o personagem estava morto, buscando ser coerente, desenhei outra HQ de cinco páginas em que o personagem ressuscita. Quando o livro estava desenhado, com as tiras antigas, a história da morte, da ressurreição e mais as tiras novas, a editora fechou. Peguei os originais e fui em busca de outro editora. Foi quando apareceu o Rogério de Campos com a Veneta, que já simpatizava com toda essa história e finalmente o ‘Hídrico’ foi materializado. Para evitar qualquer chateação, publico as tiras com uma tarja preta sobre o nome”, detalha.

O resultado é uma publicação que reúne piadas que ressaltam pequenas situações do cotidiano, uma forma de humor mais ligada ao nonsense e ao levemente absurdo, com um estilo de traço simples. “O livro é dividido em três blocos”, diz Tiago. “Tiras antigas, do tempo do fanzine ‘Sociedade Radioativa’; histórias mais longas, contando a morte e a ressurreição do personagem. E tiras novas, desenhadas exclusivamente para o livro”, detalha - uma coletânea que indica o humor como uma forma de resistência.

Entrevista > Tiago Judas (Artista plástico )

Gostaria que falasse um pouco sobre a criação desse personagem, em 1998; o que te motivou?
Comecei a desenhar o personagem quando moleque, em busca de fazer algo que eu tanto gostava: quadrinhos. Pura vontade de experimentar essa linguagem que eu tanto consumia. Se não fosse os caras de São Paulo, o Caeto e o Ulisses, que me convidaram pra participar do fanzine “Sociedade Radioativa”, a coisa toda ia acabar na gaveta mofando... Publicar no fanzine me fez obter retorno de um determinado público e consequentemente vontade de desenhar mais.

Como foi a volta a esse personagem hoje em dia?
Na verdade ele é meu único personagem. Nas minhas outras HQs os personagens que crio acabam no último quadro, mas esse insiste em permanecer. Pra mim o livro é uma saga. “Hídrico” é um caderno de notas que me acompanhou durante um longo período. Existem fatos e ficções rabiscados ali. Também é possível notar esse percurso narrativo através do próprio desenho, que sofre alterações visíveis. Eu vejo o livro também como se fosse uma “apresentação ao vivo”, tem muito erro e improviso ali. Fui experimentando meu desenho com diversos materiais, em diversas fases, testando as piadas e até mesmo aprendendo a me relacionar com os editores.

Por que a opção por censurar o nome do protagonista, se ele já é conhecido como Kocinas?
É porque, por mais incrível que possa parecer, a história da família com o mesmo sobrenome é real e eu não quero de forma alguma me envolver com situações judiciais. Quando a senhora, que inclusive aparece no relato da morte do personagem, pediu para eu parar de desenhar o personagem, os olhos dela estavam realmente tristes e preocupados. Eu respeito o pedido deles e não acho grande prejuízo colocar a tarja, na verdade até me diverte.

O que te atrai nesse tipo peculiar de humor de ‘Hídrico’, em que existencialismo e cotidiano aparecem misturados?
Porque mesmo que não queiramos, isso é a condição humana. Temos que escovar os dentes, trocar a lâmpada, almoçar no quilo, ganhar dinheiro suficiente e simultaneamente responder pra nós mesmos “de onde viemos e pra onde vamos?”. Olhar para o mistério que é a vida e conseguir achar graça é uma forma de perceber que não estamos sós nessa caminhada, somos todos muito parecidos pois quando rimos é porque estamos nos entendendo, nossa inteligência está conversando.

Veja também

Record demite Marcos Mion após 11 anos na emissora, diz colunista
Famosos

Record demite Marcos Mion após 11 anos na emissora, diz colunista

Cinco filmes que merecem continuações
Cinema

Cinco filmes que merecem continuações