Trama de contemplação e resistência

Com gravações em Pernambuco, “Piedade”, novo filme de Cláudio Assis, trata sobre o embate entre a natureza e a exploração capitalista

Matheus Nachtergaele interpreta o empresário Aurélio, na produção que deve estrear em 2018Matheus Nachtergaele interpreta o empresário Aurélio, na produção que deve estrear em 2018 - Foto: Ed Machado

O título do novo filme de Cláudio Assis parece indicar a diversidade de ideias que o enredo sugere. “Piedade”, que tem Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Cauã Reymond e Matheus Nachtergaele no elenco, está sendo filmado na Praia do Paiva e deve estrear em 2018 - a reportagem da Folha de Pernambuco acompanhou a gravação de uma das cenas. “O filme fala sobre ecologia, exploração, vida. O momento que o Brasil está passando. O mundo está de direita. Quem os Estados Unidos elegeram? Você vê o que está acontecendo no Congresso e na presidência da república?”, ressalta o diretor.

No enredo, o bar Paraíso do Mar é gerido por Dona Carminha (Fernanda) e pelo filho mais velho, Omar (Irandhir). A rotina muda com a chegada de Aurélio (Matheus), executivo de São Paulo. “Nosso papel é dar contribuição. A gente tem que ter atitude.

Tem que aproveitar esse momento pra fazer uma contribuição social. Um depoimento político. É um filme de resistência e de denúncia. De contemplação e respeito com o ser humano. Não é só entretenimento. São assuntos que interessam à sociedade. Só acredito em cinema que faz pensar. Com delicadeza e com amor, mas também com atitude”, diz Cláudio.

Perspectivas

Matheus tem uma visão particular sobre o filme. “Uma indústria petroleira precisa ocupar um espaço onde pessoas vivem. O desenvolvimento versus um certo desejo humanista de preservar relações com natureza, relações familiares, o inevitável caminhar do capital versus a derrocada cada vez maior daquilo que nos era mais precioso. Os pequenos negócios de família que vão passando de pai para filho.

No filme tem uma família que mora numa praia paradisíaca. E o agente da indústria petroleira, que sou eu, o Aurélio, veículo dessa ideia de desenvolvimento. A função dele é retirar a família dali, e ele vai fazer o que tiver ao alcance para executar o pedido”, detalha.

Interpretar um vilão com esse perfil emocional é uma novidade para o ator. “Dentro do panorama de personagens que já fiz com o Cláudio - e mesmo no cinema brasileiro - acho que é novidade. É difícil me convidar para um personagem mais aburguesado.

Talvez pelo meu tipo físico, ou pelo histórico de personagens que já vivi, as pessoas me procuram mais para uma visceralidade desesperada ou um tipo popular carismático. Esse é aburguesado, com desejos cosmopolitas, veio de Bauru, e você sente que ele gostaria de ser um cara mais metropolitano”, detalha.

Nachtergaele desenvolveu um entendimento especial sobre o que Aurélio representa. “Tudo que é afetuoso, natural, atrapalha o Aurélio. Ele gosta da internet, do ar-condicionado, da assepsia que o mundo moderno e a tecnologia propõem. Ele vai ter que corromper algo nessa família para que eles percam a força e a alegria. É uma crítica ao avanço do capital. Como ator eu tento encontrar o que nele é humano. Ele não é exatamente o Capital. É um cara utilizado.

Como todos nós. Tenho me sentido assim. Principalmente depois do golpe. Foi um momento tipo ‘opa, então era verdade, eu era massa de manobra. Meu voto não importa mas meu imposto vocês querem‘“, opina.

Entre as pesquisas, o ator ressalta conversas com empresários de Suape, onde se passam partes fundamentais da história. “Eles me contaram que o [Miguel] Arraes, quando inaugurou Suape, chamou a imprensa. Ele disse ‘tenho que escolher entre duas coisas. Um lindo recife de corais ou bilhões injetados na Região. Vou escolher os bilhões’.

É isso: escolhe-se. Em algum lugar tem que existir um porto, onde navios saem e chegam.

Para mercadorias, para o comércio. E nesse lugar não haverá corais. Não haverá medusas, águas-vivas, comida para tubarões. É uma troca que se faz. Depois o mundo cobra. Acho que o filme é sobre isso: tende piedade. Pensa nas decisões. Que decisões estamos tomando?”, sugere.

Tubarão

No filme de Cláudio, os tubarões deixam de ser vilões. “Fiz passeata contra a construção do Porto de Suape quando era estudante. Hoje Suape está dando força para o filme. A gente sabia do desastre ecológico que ia acontecer. Eu tinha 18, 19 anos. Sabíamos que ia acontecer o que está acontecendo, os ataques dos tubarões, porque eles não têm mais os peixinhos para comer. A gente falou com um cara, diretor de uma ONG de São Paulo, a SOS tubarão. Ele disse que esse é o único filme que o tubarão não é o vilão, é a vítima”, detalha o diretor.

Filho

No elenco está ainda o filho de Cláudio, Francisco de Assis. “Ele nasceu em set de filmagem, a mãe dele engravidou em ‘Árido Movie’. Eu estava fazendo making of do filme do Lírio [Ferreira]. Em todos meus filmes esse cara está. Em ‘Febre do Rato’ ele dirigiu uma cena. Eu adoeci, fui internado, e ele me deu uma ideia para filmar a cena do rato. Ele tinha uns cinco anos. Nem quero que ele seja ator, nem eu nem a mãe, mas a gente vive disso. Ele nasceu aí. O que importa para mim é que tenha um registro para um dia ele ver como ele era”, ressalta.

Em “Piedade”, Francisco assume um papel mais importante. “Perguntei a ele, ‘E aí, tu quer fazer o filme?’ Ele respondeu, ‘Cláudio, eu não sei’. Ele só me chama de Cláudio.

Eu disse que tinha muita gente que queria trabalhar comigo. ‘E tu não quer? Tá tirando onda?’. A gente brincou. Um tempo depois contei a história do personagem, aí ele soltou um sorriso. Tem 12 anos. Malandrinho. Quando ele viu que era interessante, uma coisa do mundo dele, topou. Agora veio me cobrar cachê. Eu disse ‘como é rapaz?’. É uma figura”, brinca.

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