Urgência contemporânea: 'Janela' convida Lucrecia Martel

Ela é dona de uma obra potente, com três longas que inauguraram nova fase no cinema da Argentina

medianerasmedianeras - Foto: Divulgação

Se considerarmos que o cinema argentino cresceu ao ponto em que entre o final da década 1990 e o começo dos anos 2000 se tornou uma cinematografia popular e especial além das fronteiras da América Latina, a cineasta Lucrecia Martel deve ser vista como uma das responsáveis por direcionar essa expansão. Sua lista de filmes é relativamente pequena, incluindo apenas três longas-metragens, “O Pântano” (2001), “A Menina Santa” (2004) e “A Mulher Sem Cabeça” (2008), mas parece indicar potências sensíveis do cinema desta década.

Lucrecia é a convidada da segunda-feira (31) do Janela Internacional de Cinema do Recife para uma conversa mediada por Kleber Mendonça Filho, às 17h, no Cinema do Museu (Casa Forte). “Acho que o cinema argentino, desde a década de 1990, conseguiu articular bem a urgência de temas ‘contemporâneos’ (que refletiam certas necessidades políticas e culturais do período) com um arrojamento estético”, diz Angela Prysthon, professora do bacharelado em Cinema e Audiovisual da UFPE e do programa de pós-graduação em Comunicação.

A participação de Lucrecia no Janela é uma forma do evento se posicionar sobre a história recente do cinema latino-americano. “Lucrecia certamente é um dos nomes mais importantes do cinema mundial desse século, então de antemão sabemos que estamos lidando com uma mestra do cinema”, diz Luís Fernando Moura, responsável pela programação do festival. “Ela é uma realizadora fundamental para entender o que aconteceu no cinema de 2000 pra cá. Talvez ela tenha contribuído com a emergência e a sensibilidade ao retratar o cotidiano”, sugere.

Os efeitos do cinema da realizadora se estenderam para além das fronteiras da Argentina e podem hoje ser sentidos em cineastas de diferentes países e perspectivas. “Parece que o cinema de Lucrecia ajudou a fundar uma temporalidade específica, que fez escola mundialmente”, indica Luís. “O próprio novo cinema brasileiro usa esse realismo dos anos 2000 pra cá, pensando em filmes como ‘O céu sobre os ombros’, de Sérgio Borges, e o cinema do pernambucano Gabriel Mascaro”, ressalta.

“Junto com diretores como Martín Rejtman, Lisandro Alonso e Pablo Trapero, por exemplo, Martel deu visibilidade a esse cinema na esfera mais legitimada criticamente (principalmente festivais e a crítica especializada). Ou seja, o lugar de Martel no cinema não era mais aquele reservado ao cinema latino-americano de busca por um reconhecimento mercadológico (sucesso em Hollywood, grandes públicos, estilo ‘Como água para chocolate’, ‘Central do Brasil’ ou ‘Cidade de Deus’)”, ressalta a pesquisadora.

É possível notar na história recente do cinema argentino filmes de grande sucesso comercial, como “O segredo dos seus olhos” (2009), de Juan José Campanella, e autores mais voltados ao circuito alternativo, como Pablo Trapero . “Ambos acabaram influenciando um o sucesso do outro, e aí deu a impressão desse amálgama, dessa ideia de ‘cinema argentino’ como uma coisa uniforme”, diz Angela.

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