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Vitórias e derrotas de uma vocação libertária: exposição celebra os 200 anos da Revolução Pernambuca

Mostra “17 por 12” acontece no Espaço Arte Plural a partir desta terça-feira (10)

Agendão de concursos e seleçõesAgendão de concursos e seleções - Foto: Lehi Henri / Arte FolhaPE

O ano era 1817. O povo pernambucano não aguentava mais trabalhar duro para entregar toda a riqueza produzida para o regalo da Família Real portuguesa, que se instalou na colônia brasileira fugida das tropas francesas de Napoleão. Por causa dessa extorsão, nosso Estado sofria uma crise econômica, política e social. A situação fez emergir o espírito libertário que se acentuava muito mais em Pernambuco do que no restante do Brasil. E, daquela vez, a revolta veio pelas mãos de descontentes padres (mais de 50 deles - daí o movimento também ter sido conhecido como Revolução dos Padres), militares, comerciantes burgueses e intelectuais, influenciados pelas ideias Iluministas de libertação e ansiosos pela proclamação da República, para se verem independentes da colonização de uma nobreza parasita. A gota d’água se deu em 6 de março, quando o capitão José de Barros Lima - que a história eternizou como Leão Coroado -, Frei Caneca e outros impuseram um governo provisório e proclamaram a República. As conquistas não ficaram por aí. Pela primeira vez houve liberdade de Imprensa no Brasil e alguns impostos foram abolidos.

Daí a importância de lembrar os 200 anos da Revolução Pernambucana, que começam a ser celebrados nesta terça-feira, 10 de janeiro, com a abertura da mostra “17 por 12”, na Arte Plural Galeria, às 19h. Pinturas e telas feitas por 12 artistas pernambucanos retratam as cenas mais marcantes dos capítulos da chamada “única revolução brasileira digna desse nome”, de acordo com o historiador Manuel de Oliveira Lima. A ideia veio do catálogo anualmente publicado pela Companhia Editora de Pernambuco (Cepe), parceira da galeria nessa exposição. “Também publicaremos livros, ensaios e HQs, ao longo de 2017, para comemorar a data. Fazemos parte de uma comissão criada pelo Governo do Estado para realizar homenagens à data”, avisa o presidente da Cepe, Ricardo Leitão.

No catálogo, distribuído gratuitamente, há um texto esclarecedor sobre o episódio histórico marcante e a vocação pernambucana libertária e guerreira. Há ainda texto do curador da exposição, Raul Córdula. “Homenagem interessantíssima por não se tratar de exposição tradicional de documentos e imagens de arquivo, mas de obras de arte encomendadas para este fim a um grupo de artistas locais”, diz Córdula em trecho do texto.

Jeims Duarte, Helder Santos, Daaniel Araújo, Bruno Vilela, Beto Viana, Plínio Palhano, Jéssica Martins, Gio Simões, Roberto Ploeg, George Barbosa, Renato Valle e Rinaldo Silva foram escolhidos para retratar temas selecionados em sorteio. Lá estão em forma de artes visuais vitórias e derrotas. Sim, nem só de glórias viveu a Revolução de 1817. Muito menos a história de Pernambuco. Como relata o livro “História de Pernambuco” (Editora ASA Pernambuco,1985, 4ª edição), do historiador Flávio Guerra, bastou chegar a notícia à corte, no Rio de Janeiro, de barco, com o governador Caetano Pinto deposto à bordo, para serem envidas tropas pela terra e pelo mar para dar fim aos insurgentes. Sentimos o gostinho de apenas 75 dias de república. Para Flávio, no entanto, teria sido diferente, “se não tivesse faltado ao governo provisório iniciativa para lançar mão de preciosos recursos de guerra existentes na capitania, em vez de se preocupar com corriqueiros problemas pessoais e de administração. Não se cuidou seriamente da defesa militar e subestimou-se consideravelmente a reação da coroa”, diz trecho da obra. Resultado: suicídios, esquartejamentos, destruição de patrimônios e perda de territórios. Lá se foi o sonho de liberdade.

Dois séculos depois, Pernambuco, o Brasil e o mundo estão em plena crise. Impossível não mencionar o presente mesmo ao recordar o passado. E é isso que fazem os artistas em suas obras.

Vontade política que veio do povo

“A Maçonaria planeja a revolução”. Tal fato é pu­ra verdade e foi o tema incumbido ao artista Jeims Duarte. A partir de seus traços, ele reproduziu o prédio da antiga Maçonaria, que se encontra atualmente atrás da lanchonete Habbib’s da Conde da Boa Vista. Na prática não foi esse o prédio onde ocorreram as reuniões para tramar a revolução. “Mas quis justamente ‘linkar’ com uma referência mais próxima e reconhecível pelas pessoas hoje. O processo se deu justamente dessa tensão entre um propósito didático e um propósito crítico. Como não há didática sem ideologia, nem crítica sem ideologia, procurei uma conciliação entre essas necessidades”, justifica Jeims. Uma única janela iluminada insinua que uma reunião acontece ali. A licença poética também se mostra no retrato das esfinges. “Elas indicam dúvidas em relação ao futuro que são instadas a prever, ligando as preocupações libertárias de 1817 com as angústias atuais. Há uma placa à direita com uma inscrição cortada onde se lê ‘PHORA’ como escrito antigamente. Sabemos bem qual o personagem que tem sido convidado ultimamente a ‘dar o fora’”, declara o artista.

“Pernambuco tem uma história de muito conflito político. Mas o que me chamou atenção foi um tema sobre o qual não conhecia detalhes”, revela o artista Renato Valle, responsável pelo “Suicídio do Padre João Ribeiro no Engenho Paulista”. “Soube que ele foi o designer da bandeira de Pernambuco”, revela Renato, que procurou ler a respeito e soube que o padre não suportou a angústia de ver militares fugindo e soldados abandonados praticando atos de desespero e acabou se enforcando. Seu corpo foi desenterrado, mutilado e exposto em um pelourinho no Marco Zero. “Nossa história é cheia de brutalidade, destruição. Não somos um povo pacífico. Isso é secular. O povo se cala não porque é apático, mas porque quer fazer parte da elite. O que vivemos hoje se revela no passado”, lamenta Renato. O artista intitula sua obra, bastante sombria, de “Pernambuco esquartejado”, e a descreve como “um quadro de horror”. “É o poder atropelando as pessoas. E uma história que continuamos a viver, pois a maior preocupação do mundo não envolve educação, cidadania e patrimônio. Vamos continuar maquiando o horror com Photoshop”.

“Pernambuco sempre lutou para o Brasil ser independente e foi sacrificado. Tiraram Alagoas e Paraíba de Pernambuco. Portugal estava em decadência e o Brasil foi a leilão”, ressalta Rinaldo Silva, autor de “Líderes da revolução são enforcados em praça pública”, cujo ateliê, na rua da Glória, fica ao lado da rua Leão Coroado. “Até hoje temos que mandar nossas riquezas para fora. Para mim, que trabalho com simbologia, é uma questão cíclica. Precisamos revisitar esse conceito de nação”, critica Rinaldo.

A “Eleição do governo provisório de Pernambuco” se dá pelas mãos do artista Bruno Vilela. “Decidi criar uma espécie de estandarte, como se fosse um brasão com símbolos da bandeira. O trabalho é uma foto contemporânea de oito políticos no Palácio do Campo das Princesas”, descreve. Sua intenção foi mostrar que o poder é atemporal. “Um governo é deposto mas os interesses são os mesmos. A história é cíclica”, lamenta. O que lhe chamou atenção foi uma vontade de regionalização que existiu, quando, ao celebrar as missas, a hóstia passou a ser de mandioca em vez de trigo, e o vinho foi substituído pela cachaça.

O holandês radicado em Olinda, Roberto Ploeg, produziu “O Bloqueio do Porto do Recife pela Marinha” com o objetivo de salientar o aspecto econômico, já que Portugal acaba com a revolução por esse motivo. “Pintei a tela de cima para baixo, como se fosse o voo de um pássaro. Coloquei embarcações sem cor nem conteúdo mostrando que a atividade portuária está totalmente paralisada”, explica Ploeg. Para ele, a conexão com o momento atual se dá com o que ele chama de ‘golpe de Estado’. “Assim, se esvazia a movimentação econômica, gerando o desemprego, o fim da indústria naval, de Suape, a falta de produtividade, a venda do patrimônio nacional. Estamos vivendo uma recolonização da América Latina pelos Estados Unidos. O futuro é o fim do Mercosul e a volta da Alca (Área de Livre Comércio das Américas)”.

Já Plínio Palhano aborda o “Casamento de Domingos José Martins com Maria Teodora da Costa”. “A pintura tem sinais da própria Revolução, como as representações simbólicas do sol, que é a força e o futuro, das três estrelas que representavam as capitanias de Pernambuco, Paraíba e Ceará (que aderiram ao movimento), e a cruz da cristandade. Maria Teodora é ficcional, com umas rosas vermelhas simbolizando o clima revolucionário, mas o Domingos José Martins está como em algumas pinturas do seu retrato”, descreve Plínio. Para ele, o maior legado que ficou foi “um marco de que o povo pode quando pretende impor a sua vontade política”.

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