Vladimir Carvalho vem ao Recife para apresentar documentário sobre Cícero Dias

Cineasta estará nas sessões desta sexta, sábado e domingo no Cinema São Luiz para conversar com o público

Ato da oposiçãoAto da oposição - Foto: Anderson Stevens/Folha de Pernambuco

 

É curioso tentar entender a gênese de ideias que depois se transformam em filme. Vladimir Carvalho estava indo para a França, para apresentar o documentário “O Engenho de Zé Lins”, em 2005. Durante o voo, leu em uma revista de bordo que havia uma exposição sobre Cícero Dias, em Paris, com um texto de José Lins do Rego. “Botei na cabeça que ia filmar essa opinião dele, para colocar no filme, que naquela altura estava quase terminado“, lembra Vladimir. Chegando lá, o cineasta conheceu a viúva de Cícero, que o convidou para conhecer seu ateliê, e sua filha, que era afilhada do artista espanhol Pablo Picasso. “Cícero tinha morrido há dois anos. Fui ao ateliê, fiz entrevistas. Não tinha intenção de fazer um filme. Mas foi uma opção inevitável”, ressalta.

Esse evento motivou o cineasta de 81 anos, paraibano radicado em Brasília, a filmar “Cícero Dias, o compadre de Picasso”, em cartaz no Cinema São Luiz, sobre o pintor pernambucano - Vladimir pretende ir às sessões desta sexta-feira (11), sábado (12) e domingo (13) e conversar com o público. Mas a raiz do filme é mais profunda. “É uma memória da minha adolescência: uma discussão meio acalorada na casa de meu pai, ele e um amigo reacionário, que era contra a arte moderna. Isso foi em 1945. Assisti à discussão e lembro perfeitamente que me marcou muito, mas isso foi multiplicado no curso do tempo. Isso decantou na minha formação - você não para no cinema se não tem interesse pela cultura de forma geral. Cícero está na base da minha formação”, explica.

Pernambuco

Parte importante do documentário é a reflexão sobre a maneira como o pintor era visto em Pernambuco, a recepção de suas ideias. “Quis representá-lo no foco do acontecimento que chocou a cultura no Recife em 1948”, diz Vladimir, sobre a exposição na Faculdade de Direito. “Ele voltou para o Recife e já tinha começado uma nova etapa da obra dele, a fase abstracionista. Saiu do Recife como um artista figurativo, uma pintura digamos assim lírica e romântica. Ele foi para França, depois da Segunda Guerra, passou uma temporada em Portugal, e dessa experiência transforma toda carga poética na sua obra em abstracionismo, sem perder as cores e as paisagens de Pernambuco”, analisa.

Mesmo com o poder fascinante de suas imagens, Cícero sofreu ataques no Recife.

“Mário Melo, decano da imprensa pernambucana, batia todo dia na obra dele, preferindo a arte acadêmica. Havia preconceito e reacionarismo em relação à arte moderna. Juntei essa informação numa narrativa que sublinha esses momentos. A primeira exposição dele foi na Policlínica, como se sua pintura fosse ilustração da maluquice. Foi protagonista do espírito de renovação e transformação que surgiu depois da Semana de Arte Moderna de 1922. Representante desse ‘novo’ que luta contra o ‘velho’. Depois aconteceu o acolhimento, com as bênçãos dos grandes da terra, que passaram a venerar o Cícero. A cidade antes não estava preparada”, detalha.

Vida

O filme revela tanto aspectos da formação intelectual do pintor quanto eventos importantes em sua trajetória artística. “Cícero era um homem com disposição, com vocação para a vida. Ele saiu do Brasil em 1937, fugindo da perseguição da ditadura Vargas. Di Cavalcanti estava em Paris e disse para ele: ‘Venha para cá, você está perdendo tempo aí’. Cícero era muito sagaz e atuante, uma pessoa com muita vida.

Quando chegou lá, Di apresentou ele a pessoas, e no primeiro mês Cícero já entabulou sua primeira exposição. Ficou amigo de Picasso. Para você ver, e isso está no filme, o telefone de Picasso era no nome do Cícero. Picasso já era famosíssimo e delegou seu telefone a Cícero”, detalha Vladimir.

Além de encantar com a evolução de sua obra artística, Cícero também participou de um evento importante durante a Segunda Guerra Mundial. “Ele fez parte da resistência. Foi Cícero que levou o poema ‘Liberté’ para Portugal, às escondidas, dentro do paletó, para ser impresso em um panfleto com o poema e jogado pela Europa ocupada, durante a Segunda Guerra. Um libelo contra o nazismo, uma espécie de ode à liberdade. Cícero foi uma figura, era um homem que mesmo depois de ter passado dos 90 nunca deixou de ser um menino de engenho, como Augusto dos Anjos, João Cabral, Zé Lins do Rego.

Tinha alegria de viver. É como diz aquela frase, ‘o menino é o pai do homem’. Ai daquele que sufoca o menino“, ressalta.

 

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