Voo precoce para uma outra dimensão
Aos 27 anos, Vitor Araújo faz o caminho de intérprete a maestro em seu novo disco “Levaguiã Terê”, calcado no sincretismo cultural do Brasil
Nome de um pássaro que voa em outra dimensão, de modo que só poderíamos ouvir seu canto na Terra, o Levaguiã Terê é uma lenda indígena que o músico ouviu de um guia quando viajou para o Vale do Catimbau, entre o Agreste e o Sertão pernambucanos. A história ficou armazenada na memória de Araújo até que a semelhança com os mitos dos orixás Oduduá e Oxalá despertou a percepção do sincretismo cultural brasileiro, que se tornou a matéria-prima do álbum.
Logo na abertura do trabalho duplo, com a vigorosa “Toque Nº 1: Rando Fálcigo” esse sincretismo fica evidente, trazendo à tona a ancestralidade que formou a cultura brasileira. A herança clássica europeia se funde às percussões trazidas pelos africanos e, embora se trate de um trabalho instrumental, as vozes emulam os cantos rituais indígenas.
“Esse foi o meu primeiro disco escrevendo para grande orquestra e todo meu estudo foi autodidata, então, sem dúvida, usei muito Villa-Lobos, estudei muito Stravinski, Strauss, mas não é um disco erudito. Nesse sentido acho que está mais parecido com o que o Tom Jobim fazia em ‘Matita Perê’, que era orquestral, mas processualmente popular”, define Araújo, que ainda recebeu dicas e teve as partituras revisadas pelo pernambucano Mateus Alves. É dele a composição de “Toque Nº 4: Caldi-Naguará”.
Interferência
Outro nome que compôs para o trabalho foi o violinista e guitarrista Felipe Pacheco, da banda carioca Baleia, que assinou as faixas “Espelho/Rotunda” e “Rotunda/Espelho”, explorando o limite entre música e ruído na transição entre a primeira e a segunda parte do disco. “A estética contrapõe as partes: são seis toques e seis cantos”, explica ele, que na segunda metade do disco, assume uma linguagem mais pop, como fica evidente em faixas como “Canto Nº3: Vuto Flâmego”.
As percussões imponentes, por sua vez, são de Amendoim, Nego Henrique e Rafa Almeida, os dois últimos ex-Cordel do Fogo Encantado. Também tocaram no disco Hugo Medeiros, Gabriel Ventura e Vinícius Sarmento. A arte gráfica é de Raul Luna e o álbum foi financiado pelo edital da Natura Musical. “Levaguiã Terê” reafirma o precoce amadurecimento musical de Vitor Araújo.

