Cultura+

Vozes divididas na cultura

Entre os otimistas, estão vozes como a de Marcelino Granja, secretário estadual de Cultura, e a de Márcio Almeida, artista plástico.

O grupo possui cerca de 2/3 dos delegados do Congresso Estadual do PT que devem escolher, nos próximos dias 19 e 20 de outubro, o nome que comandará a legendaO grupo possui cerca de 2/3 dos delegados do Congresso Estadual do PT que devem escolher, nos próximos dias 19 e 20 de outubro, o nome que comandará a legenda - Foto: Kelvin Maciel

Se 2016 foi considerado por muitos um ano atribulado, em meio a um cenário de incertezas, 2017 já é esperado com receio, principalmente para quem transita no meio cultural em Pernambuco. O cenário é árido para linguagens como as artes cênicas, já que um dos principais festivais locais, o Janeiro de Grandes Espetáculos, ficou a um fio de não ser realizado, pela dificuldade de patrocínios, como reforça o produtor Paulo de Castro. E espaços importantes, como o centenário Teatro do Parque, continuam fechados. Mas nem todas as previsões são pessimistas, e há quem chegue a cogitar que o que ocorreu de melhorias em 2016 vai impactar neste ano que se inicia. Entre os otimistas, estão vozes como a de Marcelino Granja, secretário estadual de Cultura, e a de Márcio Almeida, artista plástico.

Marcelino Granja
Secretário de Cultura do Estado

“As conquistas de 2016 vão viabilizar um 2017 melhor. Além do Funcultura maior, de R$ 36 milhões, tramitará na Assembleia Legislativa a partir de fevereiro projeto de lei que pode garantir que os produtores saibam, com um ano e quatro meses de antecedência, o tamanho dos editais seguintes. Também teremos o Funcultura da Música, à parte, que é uma conquista enorme, por ser a principal cadeia cultural do Estado. Já a Lei 14.104 (que rege o pagamento dos cachês por parte do Governo) ainda está em processo de discussão interna. Entre as demais conquistas para 2017 está a criação do mecenato cultural de Pernambuco e do Credicultura, que é controlado por um fundo público de cultura que vai ser alimentado através da contribuição das empresas previamente aprovadas. Como disse o governador Paulo Câmara, Pernambuco tem uma cultura de tal valor que não é possível que não desperte interesse das empresas. Essa parceira alivia o caixa do Estado e gera recursos”.

Paulo de Castro
produtor de teatro

“Acredito que 2017 será tão ruim quanto foi o último ano. Os caminhos que a nossa política e economia estão tomando interferem em diversos setores, entre eles, o da arte. Foi um dos piores anos em termos de cultura e, apesar do trabalho forte que temos feito para mudar a situação não vejo perspectiva para o novo ano. Não é uma coisa que se transforma do dia para noite e até mudar o pensamento do povo, vai custar muito. Prova disso é o (festival) Janeiro de Grandes Espetáculos, já conhecido no Brasil e que este ano será feito quase que na marra, com pouco incentivo. Se não fosse a classe artística, ele não aconteceria. Artistas trabalharam em 2016 e ainda não receberam os cachês do Governo. E não falo só de prefeituras e Governo Estadual, o problema é o Governo Federal. Saquearam tudo. A nossa área, que trabalha com a criatividade, deveria ser privilegiada e ainda não é. Porque as pessoas ainda não entendem isso e vai demorar muito para que elas entendam”.

Márcio Almeida
Artista plástico

“Eu acho que, embora estejamos passando por uma crise institucional e econômica, os artistas continuam com uma produção de excelência em Pernambuco, graças a exposições internacionais. Nos anos 1990, era raro um artista pernambucano expor no Exterior. Agora, muitos são convidados. Faltam, no entanto, equipamentos à altura dessas produções, efervescentes, para que a população tenha a oportunidade de acompanhar o que os artistas, de todas as gerações, estão fazendo. É preciso aumentar o orçamento das instituições, pois com a crise, tudo aumentou e não há como viabilizar exposições. É preciso que a classe artística volte a se aproximar do processo político; a participar da gestão. Muitos artistas apenas trabalham a política dentro das obras. Se a categoria se afasta, a tendência é uma piora no processo de gestão e o segmento perde força. Mesmo diante da crise, acredito que a produção artística deve continuar intensa em 2017”.

Thaís Vidal 
Produtora da Ponte Produções

“Para mudar esse cenário, é preciso uma mudança política. Pelo lado local, ainda precisamos de uma política de cinema na Prefeitura do Recife, porque não temos nenhuma iniciativa municipal para o setor, e equipamentos estão abandonados. Embora os festivais sejam um espaço aberto ao debate, ainda atingem plateia restrita. Precisamos investir na televisão pública, temos que pensar em políticas de difusão para que haja a formação de público. Talvez exibir filmes em escolas, assim como em ocupações, à exemplo do Cine Olinda. Um país que não investe em cultura livre é um país ignorante, tentar construir esse repúdio à cultura é uma forma nos controlar, temos que tomar cuidado para não consumir só entretenimento e o cinema acabar funcionando como uma campanha indireta do governo. Temos os editais da Ancine e o Funcultura, projetos aprovados para 2017, mas não podemos olhar só para o nosso quintal. Temos que lutar por novas conquistas”,

Jarmeson de Lima

Produtor cultural de eventos

“Acredito que uma das principais coisas que pode contribuir em 2017 é a iniciativa privada começar a investir em cultura. Nos últimos dois anos o foco das empresas foi a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tudo indica que olhos irão se voltar para a música. Muitas marcas ficam com receio de investir em projetos culturais, mas com o Governo de Pernambuco abrindo o mecenato via Lei Rouanet, pode ser simbólico para que outras empresas sigam esse exemplo. Se fala muito em sustentabilidade artística, gravar um disco independente de editais ou gravadoras. Esse mercado deve se fortalecer mais. Se você pega uma lista de melhores do ano, a maioria não tem vinculação com gravadora, se elas quiserem ter esse artista tem que investir na distribuição. A própria entrada da rádio Frei Caneca pode ser de grande ajuda. As pessoas reclamam da falta de espaços e não atentam para pequenos lugares de formação de público, como o Terra, A Casa do Cachorro Preto e o Texas”.

Melk Z-Da
Estilista

“Está havendo uma mudança de comportamento de consumo de moda por causa da crise. E acredito que essa mudança será ainda maior em 2017 porque a crise deve continuar. Percebo que as pessoas estão pensando muito mais antes de consumir moda. Antes o mercado ditava as tendências e logo o público se apressava em seguir. Agora o cliente pensa um pouco mais antes de comprar por impulso. Já estão aparecendo no mercado marcas chamadas de upcycling (processo de criar algo novo e melhor a partir de itens antigos, gerando um produto único, sustentável e feito à mão). O (estilista) Alexandre Herchcovitch tem feito isso atualmente de reutilizar uma roupa que já existia mudando totalmente o design. O Brasil vai demorar a assimilar essa tendência, mas acredito que chegará por aqui. Tenho percebido em meu ateliê clientes que vêm ajustar roupas antigas. É um movimento de reutilização de peças para que durem mais. Haverá maior conscientização”.

 

Veja também

"Eric", "Rio-Paris - A Tragédia do Voo 447", "Evidências do Amor": confira destaques do streaming
STREAMING

"Eric", "Rio-Paris - A Tragédia do Voo 447", "Evidências do Amor": confira destaques do streaming

Lucas Lima comenta primeiro Dia dos Namorados solteiro após divórcio de Sandy
FAMOSOS

Lucas Lima comenta primeiro Dia dos Namorados solteiro após divórcio de Sandy

Newsletter