“Z: A Cidade Perdida”: exploração como trunfo

“Z: A Cidade Perdida”, inspirado no best-seller de David Grann, capricha na fotografia, mas traz poucas cenas de ação

Robert Pattinson vive Henry Costin, auxiliar que encara nativos pouco amistososRobert Pattinson vive Henry Costin, auxiliar que encara nativos pouco amistosos - Foto: Imagem Filmes/Divulgação

Se você deseja assistir a “Z: A Cidade Perdida” achando que será uma nova versão dos filmes do Indiana Jones, melhor mudar de plano.

Baseado no best-seller de não ficção de David Grann, o filme avança a passos lentos, com poucas cenas de ação. Talvez a parte mais animada seja uma reunião da Sociedade Geográfica Real (Royal Geographic Society) da Grã-Bretanha, quando o protagonista, o explorador inglês Percy Fawcett (Charlie Hunnan), tenta convencer seus colegas da existência de uma civilização perdida na Amazônia, entre a Bolívia e o Brasil, onde hoje é o Acre.

Vemos um grupo de homens brancos, arrogantes e céticos, achando impossível que uma civilização avançada possa existir onde são encontrados apenas “selvagens”.
Fawcett precisava de um patrocinador para retornar à floresta, após ter algumas pistas de uma primeira viagem. São eles os sofisticados, argumenta Fawcett, não os europeus com seus preconceitos e guerras destruidoras.

Com fotografia grandiosa, o filme levanta temas que dominavam o mundo antes e durante a Primeira Guerra Mundial, quando os grandes impérios europeus e suas colônias na África, Ásia e nas Américas entravam em colapso.

Em casa, Nina (a excelente Sienna Miller), a fiel esposa de Fawcett, representa a luta das mulheres pela emancipação e independência. A vastidão primal da floresta é contrastada com cenas horrendas nas trincheiras durante a guerra, onde a cultura supostamente civilizada devasta a terra, desfigura a natureza e transforma árvores e soldados em espectros. Um homem vale menos do que alguns metros de avanço.

O filme é um tributo ao espírito desbravador que inspirou-e inspira-tantos a expandir as fronteiras do possível, abrindo portas para todos nós.

Fawcett retorna várias vezes à floresta, ao lado de seu auxiliar Henry Costin (Robert Pattinson), encarando a brutalidade da natureza e nativos pouco amistosos.

Todo cientista tem um pouco de Percy Fawcett (ao menos na sua versão cinematográfica): a busca pelo novo, pelo que pode se esconder sob o véu do conhecido. Claro, existe também a ambição e a busca pelo sucesso e reconhecimento. Mas a essência é o desejo de fazer a diferença, de deixar sua marca na vasta história do conhecimento.

Infelizmente, o Percy Fawcett verdadeiro era bem diferente do representado na tela. O livro de Grann distorceu a história de dele, e o filme amplia o mito ainda mais. Segundo o explorador canadense John Hemming, apesar de Fawcett ter sido um excelente topógrafo da região, como explorador era medíocre.

O melhor, me parece, é interpretar o filme como uma metáfora do espírito do explorador, sem se apegar à veracidade da narrativa. Felizmente, existem aqueles que são como o Fawcett do filme, pessoas apaixonadas que saem pelo mundo para ampliar as fronteiras do conhecido para todos nós. Esse espírito merece ser celebrado.

* Marcelo Gleiser é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, nos EUA. Seu livro mais recente é “A simples Beleza do Inesperado” (ed. Record).

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