Ter, 16 de Junho

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LANÇAMENTO

A humanidade radical de Zélia Duncan em novo álbum, "Agudo Grave"

Em seu 21º disco, Zélia Duncan encontra em Maria Beraldo uma parceira capaz de transformar canções em experiências sonoras que ampliam os sentidos das letras e reafirmam a potência da escuta

Zélia Duncan lança o seu 21º álbum, "Agudo Grave", com produção e arranjos de Maria BeraldoZélia Duncan lança o seu 21º álbum, "Agudo Grave", com produção e arranjos de Maria Beraldo - Foto: Mauro Restiffe/Divulgação

“Eu vim procurando um perigo para correr.” A frase surge quase casualmente durante a conversa, mas acaba funcionando como uma espécie de chave de leitura para “Agudo Grave”, o 21º álbum da carreira de Zélia Duncan. 

Afinal, poucos artistas com 45 anos de trajetória acumulada e uma discografia consolidada estariam dispostos a entregar um conjunto de canções inéditas às mãos de uma produtora mais de duas décadas mais jovem, abrindo mão dos controles habituais do processo e aceitando ser conduzidos por caminhos cuja direção sequer conheciam de antemão.

Mas, aos 61 anos, Zélia segue recusando zonas de conforto. Em vez de repetir fórmulas ou revisitar territórios já conquistados, preferiu apostar numa parceria capaz de deslocá-la criativamente: a produção musical da multiartista Maria Beraldo. 

O encontro entre as duas vinha sendo construído há algum tempo, a partir de colaborações em projetos distintos e de uma admiração mútua que se fortaleceu ao longo dos anos.

Quando decidiu iniciar um novo trabalho de inéditas, Zélia enxergou em Maria a oportunidade de revisitar sua própria obra a partir de um olhar externo, mas profundamente conectado às suas inquietações artísticas.

“O mais importante pra mim é o desafio que Maria significou. E significa”, afirma. “Minha discografia não é confiável. Ela vai pra vários lugares. E eu adoro isso. Eu me viciei nessa aventura, nesse risco.”

Essa disposição para o deslocamento parece dialogar diretamente com um dos temas centrais de “Agudo Grave”: a convivência entre opostos. 

O próprio título do álbum sugere esse encontro entre extremos — o agudo e o grave, a leveza e a densidade, a certeza e a dúvida, a experiência acumulada e a permanente disposição para o novo. 

Ao longo do repertório, Zélia transforma paradoxos em matéria poética, investigando as contradições que atravessam a vida contemporânea e a experiência humana.

Quando os arranjos contam histórias
Com dez faixas inéditas e uma regravação, “Agudo Grave” reúne canções que orbitam questões existenciais e refletem, entre outras coisas, sobre o que significa ser humano em tempos de inteligência artificial, excesso de estímulos digitais e automatização da experiência cotidiana. 

Mas, o disco também se organiza em torno de outro elemento recorrente: a convivência entre ideias aparentemente contraditórias. Em vez de buscar respostas definitivas, Zélia parece interessada nos espaços de fricção entre conceitos opostos — entre tecnologia e humanidade, serenidade e inquietação, completude e falta, controle e entrega.

Não por acaso, uma expressão acabou se transformando numa espécie de bússola conceitual durante as gravações: “A expressão que guiava o trabalho era ‘humanidade radical’”, conta Zélia.

Essa “humanidade radical” passa justamente pelo reconhecimento das ambiguidades que nos constituem. Em “Agudo Grave”, a vulnerabilidade não aparece como fraqueza, mas como potência; a dúvida não é tratada como ausência de rumo, mas como condição indispensável para continuar buscando. É nesse terreno de paradoxos que o álbum encontra sua unidade conceitual.

Essa ideia atravessa todo o álbum e ajuda a explicar a forma como Maria Beraldo concebeu os arranjos. O resultado aparece logo nas primeiras audições de “Agudo Grave”, um trabalho em que a produção musical deixa de ocupar uma função meramente ornamental para se tornar parte fundamental da narrativa proposta pelas canções.

Mais do que criar ambientes sonoros elegantes ou sofisticados, os arranjos evitam caminhos previsíveis e transformam as canções em territórios de descoberta, repletos de surpresas sonoras que potencializam o discurso no disco, não apenas sua sonoridade. “Ela abraçou as minhas letras. Não só as melodias”, destaca Zélia.

“A própria Maria disse pra mim no final do trabalho: ‘ZD é um álbum de letras’. E acho que isso está muito maduro nesse álbum.”

Essa compreensão se manifesta de maneiras distintas ao longo do repertório. Em “E Aí, IA?”, por exemplo, a reflexão sobre inteligência artificial, automatização dos afetos e esvaziamento da experiência humana ganha tradução sonora em uma arquitetura musical que rejeita qualquer sensação de previsibilidade. 

Em vez de uma condução rítmica estável, a bateria surge fragmentada, interrompendo expectativas e criando pequenos vazios que fazem a canção avançar por sobressaltos, como se o próprio arranjo reivindicasse para si o direito à imperfeição, à hesitação e à dúvida que a letra celebra.

Ao lembrar da gravação, Zélia revela uma das orientações mais inusitadas de Maria Beraldo no estúdio. “Ela foi lá no talkback e falou: ‘Serginho, sem levada’. Ela tirou esse tapete de mim, de todo mundo que estava no estúdio. Ninguém fez o que achou que ia fazer.” 

O resultado dialoga diretamente com a ideia que atravessa a canção e boa parte do álbum. “Eu quero os meus próprios miolos. Dúvida visceral. Angústia. Por quê? Isso é ser humano.”

Não por acaso, a música encena um dos conflitos centrais do disco: quanto mais avançam as promessas de eficiência e automatização, maior parece ser a necessidade de reafirmar aquilo que nos torna imperfeitos, contraditórios e humanos.

Se “E Aí, IA?” representa o lado mais reflexivo do disco, “Meu Plano”, parceria com Ná Ozzetti, revela outra dimensão do encontro entre compositora e produtora. 

Conduzida pelos clarinetes e clarones executados por Maria Beraldo, a faixa constrói uma atmosfera de suspensão e liberdade que impressionou a própria Zélia durante as gravações.

“Quando ela foi gravar, eu comecei a chorar. Falei: ‘Cara, essa menina está me emocionando muito’. Era ela sozinha lá dentro tocando e fazendo aquilo ventar”, recorda. 

O episódio ajuda a compreender o que torna “Agudo Grave” singular: os arranjos não ilustram as canções, mas ampliam seus sentidos, criando novas camadas emocionais para letras que já carregam forte densidade poética.

Humanidade e maturidade
Se “E Aí, IA?” concentra a reflexão do álbum sobre tecnologia e humanidade, outras canções ampliam o alcance temático de “Agudo Grave”, revelando um trabalho mais interessado em investigar os paradoxos, as fragilidades e as descobertas que acompanham o amadurecimento do que em narrativas românticas convencionais.

Acordes e levada folk de violões abrem o disco com a faixa-título “Agudo Grave”, esse lugar contraditório em que habita nossa humanidade dito nos primeiros versos:  “Sinto agudo e canto grave/ No meu pequeno intenso mundo/ Quantos imensos mundos cabem?”, canta Zélia, manifestando outros opostos ao longo da letra: cedo/tarde; doce/sal.

Não por acaso, muitas das composições parecem se alimentar da convivência entre forças opostas: o amor e a incompletude, a permanência e a transformação, a serenidade e o desejo.

É nesse território que se insere “Maravilha Disforme”, parceria com Lenine que figura entre os pontos altos do repertório. 

Construída sobre uma sucessão de imagens aparentemente contraditórias – “o sólido que escorre”, “o eterno que termina”, “o sonho que não dorme” –, a canção encontra nos clarinetes melancólicos de Maria Beraldo e no encontro vocal entre os dois intérpretes uma moldura perfeita para refletir sobre a incompletude da experiência humana. 

A própria lógica dos paradoxos, tão presente na letra, ecoa o conceito que dá nome ao álbum. Assim como “agudo” e “grave” coexistem sem se anular, a canção sugere que beleza e imperfeição, plenitude e falta, estabilidade e mudança não são experiências excludentes, mas dimensões inseparáveis da existência.

“É uma música da maturidade, onde você já sabe que o ser humano é incompleto. Nem amor a gente tem inteiro. O lance é você dar graça na procura”, resume Zélia.

A ideia reaparece sob outros ângulos nas canções de amor que ocupam parte importante do disco. Em “Importante”, composta para a companheira Flávia Pedras durante a pandemia, a cantora celebra a força dos afetos cotidianos a partir de uma frase que acabou se transformando em espécie de lema das gravações: “Tudo é normal e importante”. 

Já em “Calmo”, parceria com Zeca Baleiro, o amor surge livre de urgências e dramatizações. “É um ‘amor Caymmi’”, define Zélia. “É aquele amor que tem todo o tempo do mundo.” 

A canção, marcada pela delicadeza dos sopros de Maria Beraldo, traduz a serenidade de quem já compreendeu que paixão e tranquilidade não são necessariamente opostos. “Somos maduras, mas não estamos mortas”, brinca a artista. 

Mais uma vez, o disco encontra força na aparente contradição: um amor tranquilo, mas não acomodado; maduro, mas ainda atravessado pelo desejo.

Em contraponto à contemplação dessas faixas, “Resolvidinho”, parceria com Juliano Holanda, traz leveza e humor ao repertório. “Ela é a fofa do disco”, diz Zélia. Com um olhar bem-humorado sobre os relacionamentos contemporâneos, a canção funciona como uma pausa luminosa dentro de um álbum frequentemente dedicado a perguntas existenciais.

Entre os colaboradores mais presentes de “Agudo Grave”, nenhum ocupa papel tão central quanto Alberto Continentino. Além de dividir com Zélia a autoria de “E Aí, IA?”, o músico assina também “Importante” e “Pontes no Ar”, faixa na qual participa como cantor ao lado da artista.

“Ele tem tudo que um cantor precisa: uma voz diferente, afinadíssima”, elogia Zélia. “As três músicas dele, eu digo que, junto com a Maria, são as grandes novidades do álbum.”

Em “Pontes no Ar”, a parceria sintetiza uma das imagens recorrentes do álbum: a disposição de seguir construindo caminhos mesmo diante das incertezas. 

Não por acaso, a canção parece dialogar diretamente com o espírito que move o álbum desde sua origem: a recusa da acomodação e a aposta permanente no movimento.

Já “Olhos de Cimento”, composta com Pedro Luís, apresenta uma das sonoridades mais densas do repertório. Inspirada pela transformação urbana observada da janela de casa, a música abandona o clima festivo normalmente associado ao compositor carioca e ganha contornos quase industriais na leitura proposta por Maria Beraldo. 

“Ela botou uma porrada”, comenta Zélia, referindo-se ao peso do arranjo. “Parece que tem uma britadeira na música.” O resultado potencializa a crítica presente na letra, que observa a desumanização das cidades e a solidão que se espalha em meio ao concreto.

O percurso se encerra com “Que Tal o Impossível?”, de Itamar Assumpção, compositor cuja obra acompanha Zélia há décadas. A faixa reúne músicos presentes ao longo de todo o álbum e incorpora intervenções do pianista pernambucano Vitor Araújo, além de trazer ainda fragmentos sonoros das canções anteriores, como se “Agudo Grave” revisitasse a si próprio antes de desaparecer.

“Eu gosto muito da ideia de terminar com uma pergunta”, afirma a cantora. “As perguntas é que podem salvar a gente. As certezas estão levando a gente para o abismo.”

Em tempos de respostas automáticas, “Agudo Grave” escolhe o caminho contrário: o da escuta atenta, da dúvida e da aventura. Como Zélia gosta.

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