Amor pela imagem levou Ypiranga Filho a ser escultor, restaurador, cineasta, fotógrafo e gravurista
Amor pela imagem levou Ypiranga Filho a ser escultor, restaurador, cineasta, fotógrafo e gravuristaFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

"Estou esperando para ver o resultado", conta o artista Ypiranga Filho, com um olhar sereno que traduz quase seis décadas de trabalho e 82 anos de vida. Ele se refere ao livro "Ypiranga" (publicação de 292 páginas com capa dura e papel couché, onde estão registrados seus desenhos, esculturas, gravuras, pinturas e outros exercícios pictóricos envolvendo xerografia, fotografia e cinema) e também à exposição com mais de cem peças, que funciona como um espelho tridimensional do livro e entra em cartaz nesta quinta (9), no Museu do Estado de Pernambuco, em paralelo com o lançamento da obra. Segundo Ypiranga, esse momento vai possibilitar uma visão maior do que vem produzindo, e representa uma chance de refletir sobre se e como deve prosseguir.

Organizado por sua esposa, Lêda Régis, o livro traça uma retrospectiva inédita sobre a obra desse artista múltiplo. "Tenho muitas profissões", enumera Ypiranga: restaurador, cineasta de super 8, fotógrafo, gravurista, pintor. Todas refletem seu amor pela imagem. A mais inusitada, para quem não o conhece, é a de neurorradiologista, à qual dedicou 30 anos de trabalho e que funcionou como alicerce para sustentar a casa, permitindo que tivesse liberdade para criar e se posicionar politicamente através de sua arte (socialista declarado e amante dos espaços abertos, ele participou de ações como o movimento Arte na Ribeira, durante a ditadura militar pós-golpe de 1964, e da Brigada Portinari, que pintava muros do Recife e Olinda em apoio a Miguel Arraes, em 1986). Já a vertente mais conhecida é a escultura, dentro da qual se destaca como um dos mais prolíficos e relevantes artistas pernambucanos.

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As esculturas de Ypiranga Filho tiveram início ainda nos anos 1960. Ele reaproveitava sucatas de metal de procedência variada, transformando-as nas peças que chama, desde então, de "objetos-abjetos". "Fiz uma escultura de mais de cinco metros de altura, que ficava exposta em frente ao Museu de Arte Contemporânea de Olinda (MAC). Era toda feita com peças de fusquinha, que era algo fácil de encontrar na época. Gosto das linhas do volkswagen, esse carro que revolucionou o mundo", lembra o artista. Só que a peça foi roubada e ele jamais a conseguiu recuperar.

Há alguns anos, o mesmo aconteceu com "Ogum", outra escultura de grande porte que estava instalada na avenida Caxangá. Mas, dessa feita, ele conseguiu intervir a tempo. "Uns homens chegaram com uma serra, colocaram a escultura num carro e levaram para a comunidade de Roda de Fogo. Localizei o ferro-velho onde ela estava, e comprei-a por R$ 500. Fiz um novo apoio, e hoje é uma das peças que serão expostas no Museu do Estado", ri Ypiranga.

"A visão do público sobre a obra de um artista é geralmente fragmentada, e nem nós mesmos, que acompanhamos esse processo de perto, conseguimos ter noção desse conjunto. Por isso esse projeto é tão importante", destaca Lêda Régis. Ela já vinha catalogando a produção de Ypiranga, computando 1.028 peças, quando a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) fez o convite para fazer, com o artista, o segundo volume de uma série de livros de arte luxuosos, iniciada em 2017 com o falecido pintor Rodolfo Mesquita.

Entre os textos e fotos que dão conta de sua obra, também há espaço para saber mais sobre a biografia de Ypiranga Filho. No livro, participam a historiadora Joana D'Arc, os críticos de arte Raul Córdula e Marcos Lontra, e os artistas José Cláudio e Adão Pinheiro. As fotografias ficaram a cargo de Fred Jordão, que enfrentou o desafio de reproduzir as esculturas, algo muito mais trabalhoso que registrar objetos bidimensionais. Tudo para fazer jus ao legado de Ypiranga, um verdadeiro patrimônio da arte brasileira.

Serviço:
Lançamento da exposição e do livro "Ypiranga" (Cepe, R$ 90, 292p).
No Museu do Estado de Pernambuco - avenida Rui Barbosa, 960, Graças
Em 9 de agosto, a partir das 19h. Exposição fica em cartaz até 6 de setembro. 

Amor pela imagem levou Ypiranga Filho a ser escultor, restaurador, cineasta, fotógrafo e gravurista
Amor pela imagem levou Ypiranga Filho a ser escultor, restaurador, cineasta, fotógrafo e gravuristaFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco
Capa do livro lançado sobre Ypiranga
Capa do livro lançado sobre YpirangaFoto: Divulgação
Escultura em ferro - obra retratada no livro de Ypiranga
Escultura em ferro - obra retratada no livro de YpirangaFoto: Divulgação
Arte gráfica com xerox - peça retratada no livro de Ypiranga
Arte gráfica com xerox - peça retratada no livro de YpirangaFoto: Divulgação
Desenho a nanquim e bico de pena - obra retratada no livro de Ypiranga
Desenho a nanquim e bico de pena - obra retratada no livro de YpirangaFoto: Divulgação

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