Córdula mostra criações de forte cunho político, como quadro recriado em 2012, retratando um revólver engatilhado sobre uma bandeira
Córdula mostra criações de forte cunho político, como quadro recriado em 2012, retratando um revólver engatilhado sobre uma bandeiraFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

Segundo a mitologia grega, Zeus condenou Sísifo ao inútil e infindável castigo de rolar uma grande pedra até o alto de uma montanha, apenas para vê-la despencar ao local inicial quando já estava quase alcançando o topo. Para o artista plástico Raul Córdula, que inaugura nesta terça-feira (19) sua nova exposição na Arte Plural Galeria (rua da Moeda, 140, Bairro do Recife), é possível traçar uma analogia entre esse mito e sua trajetória profissional. "Pinto os mesmos aspectos, com algumas variações, a minha vida inteira. Quando termino, percebo que ainda não finalizei. Será assim minha vida inteira, até que um dia eu não possa mais pintar", descreve.

Com quase 60 anos de carreira, Córdula mantém nesta mostra algumas de suas características marcantes, como o uso de figuras geométricas - em especial, os triângulos. "Não sou um pintor representativo. Eu não represento, mas simbolizo, e a correlação se faz", descreve. É possível, assim, detectar a grande melancolia presente nas obras, em especial nas produzidas mais recentemente.

Como um grande poema gráfico, Córdula aglutina suas raízes paraibanas, fazendo referências à Serra da Borborema e à Pedra do Ingá; reinterpreta as ocorrências cotidianas, como na série de desenhos "Encéfalos", onde destila as sensações que o acometeram durante um exame de ressonância magnética; e denuncia o atual estado político das coisas.

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No díptico "João Batista e João Evangelista", por exemplo, ele mostra o princípio e o fim da trajetória de Cristo - e insere entre as duas telas uma terceira, "Rupestre", com uma base suave em tons de linho cru que traz em seu centro um desenho vermelho que remete a uma chaga e à mão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

'Rupestre' faz referência à mão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

'Rupestre' faz referência à mão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - Crédito: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

Outra peça com forte teor político tem uma história mais longa: é uma recriação de um quadro anterior, feita em 1968 - segundo o artista, "o ano que parece que nunca vai acabar". Retratando um revólver engatilhado, a obra tinha sido censurada na época da ditadura militar e tinha um outro acabamento pictórico, remetendo à pop art e às histórias em quadrinhos.

 A nova versão, em tinta acrílica sobre tela, foi produzida em 2012 mas acabou ganhando ainda mais força de manifestação política nos dias atuais. "Esta exposição expressa um canal de temporalidade presente na obra de Raul Córdula. Fala da existência, da história das artes visuais no Brasil e trata das questões políticas em que estamos submersos", reforça a curadora Joana D'Arc Lima. O título de um dos quadros, "Eternagora", parece ser a chave para perceber a fluidez temporal que norteia sua produção.

Composta por 18 obras, que incluem pinturas, esculturas, fotomontagens e desenhos, a mostra reúne grafismos e elementos do abstracionismo geométrico e da nova figuração brasileira. Ao mesmo tempo em que revisita seu passado, Raul Córdula deixa claro que não tem interesse em ser um artista que comece e termine sua carreira da mesma forma. A exposição, que é gratuita e ficará em cartaz até 18 de maio, é uma ocasião imperdível para conhecer ou se (re)apropriar de sua arte. Raul Córdula estava sem pintar havia seis anos, e o conjunto que pode ser visto na Arte Plural traz peças que vão de 2009 a 2019, retrando uma década de perenidade.

Serviço:
Exposição de Raul Córdula
Arte Plural Galeria (Rua da Moeda, 140, Bairro do Recife)
Vernissage: terça-feira (19), às 19h, para convidados
Aberta ao público de 20 de março a 18 de maio, das 13h às 19h
Entrada gratuita

 

Córdula mostra criações de forte cunho político, como quadro recriado em 2012, retratando um revólver engatilhado sobre uma bandeira
Córdula mostra criações de forte cunho político, como quadro recriado em 2012, retratando um revólver engatilhado sobre uma bandeiraFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco
'Sem título', tinta acrílica sobre tela de algodão
'Sem título', tinta acrílica sobre tela de algodãoFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco
'Bandeira escorrendo', tinta acrílica sobre tela de linho
'Bandeira escorrendo', tinta acrílica sobre tela de linhoFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco
'Eternagora' faz referência às temporalidades da obra de Raul Córdula
'Eternagora' faz referência às temporalidades da obra de Raul CórdulaFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco
'Rupestre' - estêncil e tinta acrílica sobre tela de linho
'Rupestre' - estêncil e tinta acrílica sobre tela de linhoFoto: Rafael Furtado / Folha de Pernambuco

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