Sisters questionaram Hadson sobre plano machista
Sisters questionaram Hadson sobre plano machistaFoto: Reprodução/Globo

A atual edição do Big Brother Brasil já provou que o adjetivo “histórico”, recorrentemente utilizado pela Globo em suas chamadas, não é apenas marketing. Há 20 anos no ar, o programa vem conseguindo bater seus próprios recordes de audiência e votação, semana após semana. O último paredão, por exemplo, registrou mais de 1,5 bilhão de votos computados. Os bons números não são fruto apenas do isolamento social do público, impedido de sair às ruas por conta da pandemia do coronavírus, ou da estratégia de misturar anônimos e famosos no confinamento. As atitudes dos participantes dentro da casa mais vigiada do Brasil têm repercutido de maneira estrondosa, especialmente nas redes sociais, suscitando debates que ultrapassam a barreira do entretenimento e refletem as mudanças na sociedade brasileira.

Entre os tantos assuntos que eclodiram nesta edição do reality show, o que talvez tenha obtido maior destaque dentro e fora do programa é o comportamento machista visível em parte do elenco masculino. Não à toa, na reta final do programa, apenas um homem - o ator carioca Babu Santana - está entre os dez últimos integrantes. Casos de assédio praticados pelo ginasta Petrix e pelo hipnólogo Pyong Lee contra as colegas de confinamento foram denunciados pelos espectadores logo no início do jogo e estão sendo investigados pela polícia.

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Por outro lado, a união feminina foi aplaudida diversas vezes pelos internautas. Ao falar sobre sororidade para justificar seu voto no arquiteto Felipe Prior, a atriz e cantora Manu Gavassi fez as buscas no Google pelo termo - que diz respeito ao apoio mútuo entre mulheres - crescerem 250%. Um dos momentos mais icônicos desta edição, aliás, foi quando todas as sisters se juntaram para cobrar explicações do ex-jogador de futebol Hadson, após descobrirem um “plano de sedução” tramado por ele.

Um experimento social

Criado em 1999 pela produtora de televisão holandesa Endemol e adaptada em diferentes países, o Big Brother tem esse nome em alusão ao romance “1984”, escrito por George Orwell. Na sociedade descrita na obra, as pessoas vivem sob a vigilância de uma autoridade máxima chamada de “Grande Irmão”. Assim como os personagens do livro, os membros do reality são observados 24 horas por dia através de câmeras. É por essa e outras razões que a psicóloga Thais Ingrid encara o programa como um verdadeiro experimento social.

“São pessoas totalmente diferentes convivendo. A diferença em relação à sociedade é a de que ali há um reforço positivo: o prêmio de um milhão e meio. Ficam muito nítidas questões do nosso cotidiano, como frases que passam ‘despercebidas’, mas que são faladas por tantos em nossos círculos. É possível perceber, ainda, a identificação entre telespectadores e participantes. Tudo isso instiga em nós, que estamos assistindo, um senso crítico, mas sempre haverá conteúdos nossos nesse julgamento ao outro. O programa dá certo pela capacidade de nos entreter com nossos próprios conteúdos, sejam eles conscientes ou não”, destacou.

Causas em disputa

Para Alex Vailati, antropólogo e professor do Departamento de Antropologia e Museologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o reality e o mundo exterior são campos interconectados. “Temos que pensar que o BBB é um produto da indústria cultural também. Então, essa polarização que foi recriada através da escolha de personagens com posicionamentos contrastantes é algo que a produção do programa perseguiu. E, claramente, é algo que reflete o contexto atual no qual nós vivemos”, enfatizou.

A polarização política e ideológica vivenciada no País parece também ter tomado conta dos espectadores. Divididas, as torcidas de cada participante agem buscando encontrar e expor deslizes que possam desmoralizar os oponentes e desqualificar as bandeiras por estes levantadas. A tática segue a onda dos cancelamentos, termo usado quando uma figura pública passa a ser atacada nas redes sociais em função de alguma atitude considerada ofensiva. Foi o que ocorreu com a influenciadora digital Bianca Andrade, conhecida como Boca Rosa, ao ficar ao lado dos rapazes na briga com as garotas da casa. O mesmo aconteceu com participantes que dispararam falas racistas durante o programa, como Manu Gavassi, Ivy e, mais recentemente, Gizelly, criticada por chamar de “barro” a maquiagem usada pela médica Thelma.

Thelma e Babu sofreram comentários racistas dentro do BBB

Thelma e Babu sofreram comentários racistas dentro do BBB - Crédito: Reprodução/Globoplay



Segundo o professor de filosofia Salviano Feitoza, é necessário um olhar amplo para essas situações. “O problema do cancelamento é que ele destrói a potencialidade educativa da situação. Muitas vezes, é importante considerar que machistas, sexistas, racistas e homofóbicos naturalizaram uma visão de mundo. Eles foram educados nesse processo, mas isso não exime a responsabilidade deles sobre aquilo que dizem. A gente deve responsabilizar educando os indivíduos, para que eles possam compreender por que aquela fala é ofensiva. É importante considerar esses elementos: não apenas quem é o objeto, mas quem são os agentes do cancelamento e as razões que estão sendo reivindicadas, acima de tudo”, enfatizou.

Com tantas bandeiras sendo levantadas ao mesmo tempo, a discussão entre as torcidas nas redes sociais acabou se tornando um disputa sobre qual causa é mais relevante. Se por um lado, há quem aponte machismo em frases e atitudes de todos os homens da casa; por outro, não passa despercebido o tratamento excludente e estigmatizante dado aos personagens negros. “São minorias, cada uma com sua especificidade, mas, no final das contas, todas padecem de uma mesma exploração marcada pelo capital. Então o que o BBB apresenta, quando coloca participantes que vivenciam esse tipo de situação, é o ajuste necessário a se fazer para que não se tenha uma disputa para saber qual é a minoria mais explorada. Não é uma questão de quem padece mais, mas sim da legitimidade do direito de existir”, afirmou Salviano.

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