Cena do filme 'Unicórnio', com Bárbara Luz e Patrícia Pilla
Cena do filme 'Unicórnio', com Bárbara Luz e Patrícia PillaFoto: Zeca Miranda/Divulgação

O enredo do filme "Unicórnio" se revela aos poucos, na larga duração de suas cenas e no silêncio incômodo de seus personagens. Mãe e filha moram em uma casa na montanha, o pai está ausente e um outro homem se muda para a região. Pouco acontece em cena, mas os sentimentos que ligam esses personagens possuem uma forte carga sugestiva. Dirigido por Eduardo Nunes, o filme já está em cartaz.

O filme é livremente inspirado em dois textos da escritora Hilda Hilst (1930-2004): "Unicórnio" e "Matamoros". "Leio os livros da Hilda desde que era mais novo. Não compreendia muito bem nas primeiras vezes, mas gostava muito. A impressão que o livro causava era muito forte, uma sensação que independia da compreensão do texto", lembra Eduardo. "Depois, quando pensava em fazer meu segundo longa, reli alguns textos dela e me inspirei nessas duas novelas", revela.

A trama é delicada e sugere temas complexos. Maria (Bárbara Luz) mora com sua mãe (Patricia Pillar). O pai (Zé Carlos Machado) está afastado; um criador de cabras (Lee Taylor) monta um acampamento vizinho às mulheres. Aos poucos, Maria começa a se dar conta da sexualidade da mãe e também de suas próprias vontades, questionando os sentimentos que surgem no processo de amadurecer.

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"Em 'Unicórnio', a relação da filha com a mãe é o que tem de mais importante. A menina vê a mãe como uma figura que ama e odeia ao mesmo tempo. É algo que ela não consegue compreender. A descoberta sexual, a ideia da morte, a existência ou não de Deus - são várias questões levantadas por Hilda passando por essa menina", detalha.

O filme lida com características associadas à fábula: o unicórnio, o fruto proibido, a natureza. Filmado no Parque Estadual dos Três Picos, na região serrana do Rio de Janeiro, Eduardo recorre ao cenário e ao silêncio como elementos fundamentais. "O filme tem pouquíssimos diálogos. Acho que deve ter uns 30 ou 40 minutos de silêncio. Mas acredito que boa parte das relações entre os personagens se dá nessa ausência de fala. Quando existe o diálogo, é para tentar esconder algo", avalia Eduardo.

Elenco

O elenco é formado por quatro atores. "Patricia Pillar não precisa de apresentações, ela foi muito generosa. Zé Carlos Machado já fez cinema, mas é basicamente do teatro de São Paulo. Lee [Taylor] vem do teatro, mas está surgindo com força na TV. Gosto de trabalhar com atores de formações diferentes, para que tragam diferentes elementos na caracterização das personagens", detalha.

No centro do enredo está Maria, interpretada por Bárbara Luz. "Ela não tinha experiência anterior, em cinema, teatro ou TV. Mas ela pegou a personagem de forma intuitiva. Ela viu a personagem e teve uma compreensão além da técnica de atuação. Os pais delas são do teatro, do grupo Galpão, de Minas Gerais, então acho que de alguma forma, mesmo sem ter experiência como atriz, está acostumada ao trabalho", explica.

Técnica

O que transforma o enredo em algo misterioso e ambíguo é sua construção técnica, em especial o som, usado como artifício para modificar a atmosfera da história. "O som faz as cenas irem além de uma compreensão imediata", sugere o diretor. "Tenho uma equipe que trabalha comigo há quase 15 anos, e todos foram muito criativos nessa tentativa de criar um universo onírico, que usa elementos da realidade, com sons de pássaros e vento, mas que vão além do normal", detalha.

Na pós-produção, essa interferência foi potencializada. "Era importante o elemento de sonho; o filme é uma fábula. Foi um trabalho de pesquisa anterior à filmagem. Depois, tivemos uma pós-produção detalhada. Criávamos várias camadas, e cada camada tinha elementos que a gente trabalhava separadamente. Era como se pintássemos o filme todo à mão: as folhas, o tronco da árvore, as paredes. Nossa intenção era criar um filme de fábula, e essas cores trazem uma força uma força que parece sair da tela", ressalta.

Cotação: regular


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