Cena de 'Simonal'
Cena de 'Simonal'Foto: Divulgação

Wilson Simonal (1938-2000) não tava nem aí para o momento político que sacudia o Brasil à época em que sorrateiramente pegou o “País Tropical” (1969) de Jorge Ben (Jor) e deu a versão malandra “Mó! Num Pá Tropi Abençoá por Dê”. Nos sombrios (e nada saudosos) tempos da Ditadura Militar, soaria óbvio ter Chico entoando “Cálice” ou Bethânia ressentida em "Carcará", entre outras tantas canções (necessárias) de protesto e resistência.

Mas foi com o cantor e compositor carioca que também atendia por "Simona", "Rei da Pilantragem" ou "Rei do Swing", que plateias eufóricas seguiam na contramão da realidade e consagravam, em coro uníssono, um dos nomes de peso da música popular brasileira. Este é um dos lados exibidos no longa de Leonardo Domingues, "Simonal", com estreia marcada para o dia 8 de agosto nos cinemas.

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Com uma narrativa que percorre a trajetória de ascensão e queda do músico entre as décadas de 1960 e 1970, o filme traz novamente à tona os percalços de um Wilson Simonal - vivido, com maestria, pelo ator Fabrício Boliveira - que saiu do calipso do grupo Dry Boys para ser notado por Carlos Imperial (Leandro Hassum), sua porta de entrada para alavancar carreira solo com sonoridades e domínio de palco que o trazem como um dos nomes incontestáveis da música.

Em um dos raros momentos de protesto da carreira, com a canção "Tributo a Martin Luther King", feita com Ronaldo Bôscoli, deu-se início a sua fatídica relação com o Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Na canção, esboçava suas reflexões enquanto negro, tal qual fazia o líder americano conhecido por suas ações em prol de direitos em seu país.

Foi um momento de autorreconhecimento de um homem negro, em plena ascensão, usufruindo das 'benesses' da vendagem de discos, plateias lotadas, contrato publicitário com a Shell, programas de televisão (TV Tupi e Record), participação em festivais e dueto com Sarah Vaughan (1924-1990). Em meio a tudo isto, uma vida pessoal compartilhada com Tereza (Ísis Valverde) - homenageada em seu primeiro compacto no início da década de 1960 com a canção "Terezinha".

O pai dos também músicos Wilson Simoninha e Max de Castro deu o pontapé para sua queda e consequente ostracismo quando se envolveu no caso de tortura de seu contador Raphael Viviani e carregou o estigma de "dedo duro", levado pela memória coletiva até os seus últimos dias de vida.

Em uma biografia que não hesita em colocar no pedestal o artista que, como tal, encantou e permanece ativo quando ouvido (e assistido), por exemplo, em canções como "Sá Marina" ou com a ingênua "Meu Limão, Meu Limoeiro", que levou a delírio pelo menos 30 mil pessoas no Maracanazinho, "Simonal" atende bem quando reverbera a importância de Wilson Simonal. Ao mesmo tempo em que, ao reavivar a decadência do músico, esboça um roteiro que vende o discurso de que, vítima das circunstâncias, lhe foi tomado um presente e um futuro que perduraria. Não haverá espaço para julgamentos de Simonal enquanto artista.

Assista ao trailer de "Simonal":

 

 

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