Barbara Galvão e Ivson Santo, diretores dos documentários
Barbara Galvão e Ivson Santo, diretores dos documentáriosFoto: Foto: Divulgação

Em registros da Idade Média, os corpos masculinos ocupavam grandes espaços no território enquanto os corpos das mulheres deveriam ficar restritos à invisibilidade. À época, elas não poderiam ofuscar os homens no ambiente. Séculos depois, padrões de corporalidade foram mudados, contudo, a magreza continua sendo cultuada como o molde perfeito.

Na busca de desconstruir esse padrão e colocar a gordofobia - o ódio aos corpos gordos - em discussão, dois documentários pernambucanos foram lançados, recentemente, no Youtube. Frutos de projetos experimentais de comunicação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ambos foram lançados em São Paulo e já acumulam prêmios em circuitos de cinema.

O filme “Gordxs”, do diretor Ivson Santo, é um registro sobre como a gordofobia impacta os membros da comunidade LGBTQIA+. No curta-metragem, os jovens pernambucanos Anico Perfler, Carol Stadtler, Wanderson César e Katarina Mendes relatam suas experiências e perspectivas sobre corpos e sexualidade. O documentário surgiu a partir das próprias vivências de Ivson, que sentia na pele as diferenças entre ser magro e estar acima do peso nas relações diárias na comunidade. “Comecei a me perguntar por que numa comunidade de pessoas LGBTQIA+ que diz ser inclusiva, não sentia que as pessoas gordas tinham um lugar nela?”, relata o idealizador.

Das inquietações surgiu o projeto experimental para o curso de Rádio, TV e Internet, sob supervisão da professora, Mannu Costa, que o orientou a buscar uma pessoa gorda que representasse cada sigla LGBT. “Buscamos mais de 20 pessoas possíveis e a grande maioria não topou participar por diversos motivos, mas principalmente por não se sentir bem com o próprio corpo e com as questões que iríamos abordar. A sorte de nossa produção foram os personagens que estão no filme terem topado expor tanto de suas vidas. ”, diz Ivson. Com o resultado, o curta estreou no Festival Recifest, no Cinema São Luiz, onde conquistou o prêmio de melhor filme no Júri Popular, em novembro do ano passado.

Em janeiro deste ano, o diretor apresentou o filme no Tapera Taperá, em São Paulo, integrando um debate sobre gordofobia. Lá, a também pernambucana e jornalista, Bárbara Galvão, levou o documentário “Desproporcional.doc”. O curta fala sobre as vivências de mulheres gordas numa sociedade gordofóbica. “Comecei a estudar esses temas no auge da minha insatisfação com o meu corpo, em meados de 2017. Me envolvi muito, fiz trabalhos na universidade sobre transtorno alimentar e gordofobia, viajei pra fazer cursos sobre os temas, tenho uma pilha de livros sobre esse universo do corpo dissidente. Acabei me tornando, meio sem querer, ativista dessa causa.”, diz a jornalista.

Percebendo que a sua causa e as suas vivências eram semelhantes a outras mulheres, ela colheu depoimentos e transformou em um documentário. Babi, Bia, Belle, Gabi, Milena, Vania e Zilda narram suas perspectivas enquanto mulheres gordas. “É muito mais fácil e cômodo colocar a culpa na própria pessoa gorda - dizer que ela é assim porque quer, porque não tem autocontrole, não tem força de vontade e disciplina - do que reconhecer e acolher o que fica por trás daquele corpo dissidente.”, diz a diretora, que também foi selecionada para o Festival Brasil de Cinema Internacional (FBCI), em São Paulo.

Assista ao 'Gordxs'

 

Confira o 'Desproporcional.doc': 

 

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