Sexo

João Luiz Vieira

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Luto
LutoFoto: Divulgação

Antes de mais nada, peço-lhe desculpas pela ausência de quatro meses de publicação da coluna. Estava sem condições emocionais para pensar para fora porque desmoronei por dentro. Perdi minha senhora, a minha melhor amiga, a mulher que me ensinou que a gente nasce com ética, mas ela se aperfeiçoa a partir da empatia e do entendimento que todos erramos porque eternamente em evolução. Não basta sermos humanos, precisamos ser melhores humanos. Isso, claro, inclui os relacionamentos afetivos e sexuais.

Na Umbanda, quem é filho de Omulu ou de Obaluaiê não entende (embora respeite) os que não toleram o luto, o próprio e o do outro. Tive uma chefe que o pai morreu, e ela se ausentou da empresa por apenas três dias. Sabe o motivo? Em dois desses três dias ela estava na viagem de carro para o velório-enterro. Se não, seria apenas um. Um dia para a morte de quem lhe trouxe a vida.

Porque era pai, mas era velho, "tinha que morrer mesmo". Porque ele morreu, mas era só um cão, ou seja "só um bicho". Porque nada disso. Porque da terra viemos e para ela voltaremos, e Omulu é o senhor dela, incluindo suas sementes de cura e seus calores vulcânicos. Esse temido orixá é implacável quando desrespeitado nesse tango que inclui encontros e despedidas, seja de um filho de dois anos, de um pai de 90 ou de um cão recém-adotado.

Lembro de uma situação recorrente quando morreu meu pai, depois meu avô, meu melhor amigo, minha avó, meu primeiro filho, o segundo e agora minha mãe, em um intervalo de pouco mais de uma década. Bastante comum foi ouvir frases como "sai dessa tristeza", "para de ouvir essas músicas", "não adianta chorar", "olha que dia lindo", "dorme que passa" e outras 50 frases fofas, mas inúteis para quem está no processo de luto.

Este é o real parto, e é preciso ritualizar essa ruptura de estágios. Essa simbologia é tão forte que o movimento físico de quem morre lembra muito a expressão física de quem recebe ou se despede de uma entidade nas religiões de matriz afrobrasileira. É uma viagem dentro de um túnel movido a apneia entre o aqui e o que não sabemos.

Vida e morte sempre será o maior dos romances incompreendidos porque a maioria das pessoas acredita que uma é a negação da outra. Vida e morte são coligadas e se oxigenam, mas precisam, sim, de dança e contradança, na chegada e na partida. O mais importante: aproveite essa falta de ar (temporária, como tudo) e a transforme em expressão artística. A arte cura e nos salva.

Além de tudo isso que relatei acima, enquanto eu me silenciava percebi que o mundo ficou (ainda) mais barulhento nesses quatro meses de mergulho para dentro. Muitos indivíduos apresentando faturas de abusos, desmerecimentos, agressões de todo o tipo de tempos outros. É uma época de corte, de morte, de luto de uma era, de deixar para trás o que não tem mais valia. Não adianta mais dizer que no seu tempo era outra coisa, porque se você está me lendo seu tempo é agora.

Não há mais espaço para desrespeitar o diferente, o que age ou pensa de maneira diversa à sua: seja pela cor, pela raça, pelo gênero, pela identidade e orientação sexual, e até na recusa de se relacionar afetiva ou sexualmente com outro representante da espécie. A humanidade vive sob pêndulos, entre entregar e reter. Em momento de fartura econômica a tendência é agregar. Como atualmente vivemos em colapso, em temporada de subsistências individuais, a demarcação de território é lei. Tende a passar no futuro? Tudo passa. Até mesmo as certezas, sua libido e nosso luto.

*João Luiz Vieira tem 33 anos de carreira na área de comunicação, sendo 28 deles como jornalista. Trabalhou em quatro jornais diários (Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal do Commercio e Correio de Jaboatão), quatro revistas (Época, Marie Claire, Quem Acontece e Top Magazine) e dois portais de internet (Terra e IG). Pós-graduado em Projetos Culturais e Educação Sexual, assina como autor/coordenador os livros “Construindo Daniel” (Harper Collins/2017), “Sexo Sem Tabu” (Planeta/2017), “Kama Sutra Brasileiro” (Planeta/2016) e “Sexo com Todas as Letras” (E-Galaxia/2013). Desde 2017 atua em sociedade com Kahuê Rozzi no projeto Sexo Sem Medo, do YouTube, onde responde por roteiro e apresentação. Hoje também atua como colunista de sexualidade nos portais UOL, Folha de Pernambuco e Futuro do Sexo.

* A Folha de Pernambuco não se responsabiliza pelo conteúdo das colunas.

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