Daniela Arbex, escritora e documentarista mineira
Daniela Arbex, escritora e documentarista mineiraFoto: Divulgação

"Ligo a televisão e sou massacrado pelas estimativas probabilísticas terríveis (bem acima das naturais) que rondam a minha categoria etária: indiscutivelmente idoso. Conheço bem o formato das curvas logísticas que representam as epidemias. A morte oferece um fascínio certeiro aos espíritos mais deprimidos e para afastá-lo, há um só caminho imediato: o da fantasia, da fabulação". 

As palavras iniciais do escritor pernambucano José Almino de Alencar, 74, em conversa com a Folha de Pernambuco, deram o norte certeiro para o que se pretende nestas linhas: "tramar" ideias no atravessar dolorido deste período de quarentena e consequente isolamento social ao qual o mundo foi submetido, em face da pandemia do novo coronavírus. 



 

 

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Assim como Almino, a escritora e documentarista mineira Daniela Arbex sugere que "Nesses dias em que estamos voltados para dentro, de nossas casas e do nosso interior, dias difíceis devem ser aproveitados pata alimentar a alma, e isso se faz com conhecimento e leitura". A mestre em história e poeta Bell Puã vê a leitura como "uma dessas formas mais agradáveis e também que me alimentam, me nutrem intelectualmente e até me dão um certo conforto". 

Já o escritor pernambucano Marcelino Freire reforça a importância de "Ler para não se sentir tão sozinho. Ler para estender o olhar e compreender o mundo em que vivemos. Para evitar tragédias futuras". Convidadas e convidados pela reportagem trouxeram dicas de leituras para este período de isolamento, com produções que podem ser baixados por e-books, em plataformas digitais das mais diversas, a exemplo da Amazon, que está disponibilizando gratuitamente o acesso ao Kindle para qualquer pessoa.

Marcelino Freire, escritor

Marcelino Freire, escritor - Crédito: Mario Miranda Filho


José Almino Alencar, propõe longos ou curtos mergulhos nos seguintes títulos:

Os Três Mosqueteiros (Alexandre Dumas);

D. Quixote (Cervantes);

Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa);

Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antonio de Almeida) e outras obras, tidas por Almino como "romances bons e curtos" de Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Braga e Antonio Prata

- E para os "espíritos regressivos" ele sugere Fogo Morto (José Lins do Rêgo) e Reinações de Narizinho (Monteiro Lobato).

Bell Puã, poetisa e historiadora pernambucana, que não hesita em afirmar que a leitura é o seu maior hobby

O Espetáculo das Raças (Lilia Moritz Schwarcz);

O Trato dos Viventes (Luiz Felipe Alencastro);

A Falsa Medida do Homem (Stephen Jay Gould);

Negritudes: Usos e Sentidos (Kabengele Munanga);

No Seu Pescoço e Americanah de Chimamanda e O Fio das Missangas, de Mia Couto são outras recomendações de Bell, que entrou na vibe do "compromisso de ler mais mulheres.

Bell Puã

Bell Puã - Crédito: Divulgação

 

Daniela Arbex, escritora mineira, autora de Holocausto Brasileiro - a obra também saiu em formato de documentário - e Todo Dia a Mesma Noite: a história não contada da Boate Kiss

Escravidão (Laurentino Gomes), o seu atual livro de cabeceira;

Vozes de Chernobyl (Svetlana Alexievich);

A Vida que Ninguém Vê (Eliane Brum).

Marcelino Freire, escritor pernambucano, para quem, a leitura tem o poder de "estender o olhar e compreender o mundo em que vivemos"

Um Defeito de Cor (Ana maria Gonçalves);

Condenados à Vida (Raimundo Carrero), que do mesmo autor, também pernambucano, sugere Tangolomango, Somos Pedras que se Consomem e Maçã Agreste, todos publicados pela CEPE Editora;

A Resistência dos Vagalumes, assinado põe mais de 60 autoras e autores brasileiros, incluindo o próprio Marcelino, em torno da temática LGBTQ;

Marrom e Amarelo (Paulo Scott), foi a sua mais recente leitura e Uma Casa se Amarra pelo Teto (Viviane Nogueira), livro de poesias que está entre os que estão em sua mãos agorinha, como ele mesmo certificou.

 

Sidney Rocha, escritor e cronista cearense indica leituras que não necessariamente estão apostos em livros, a exemplo de A Singularidade Está Próxima: quando os humanos transcendem a biologia, de Ray Kurzweil. É o que ele tem lido nestes dias de isolamento, mencionando à obra a qualidade de "texto impressionante e riquíssimo para esses tempos"

"O livro oferece um menu variado de como andaremos bem e mal no mundo da informação, e apresenta realidades já palpáveis sobre a escalada das doenças, da nonotecnologia, da prolongação da vida.  Isso me faz pensar que, ao final, com toda tecnologia, só temos um ao outro, uma à outra, e um tacape", conclui. 


"A leitura de certa forma continua botando as pessoas em diálogo mesmo sem ninguém presente"

"No tempo em que as pessoas estão praticando ou ao menos deveriam estar, em isolamento, para tentar conter os danos de contágio, a leitura é um mecanismo fundamental. Quem lê sabe, a leitura de certa forma continua botando as pessoas em diálogo mesmo sem ninguém presente", opina Diogo Guedes, editor da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), que segue, mesmo em tempos de pandemia, quarentenas e isolamentos sociais, produzindo literaturas.

Opulência, de Luís S. Krausz, A Menina que Engoliu o Céu Estrelado, de Gael Rodrigues, A Arte do Fracasso, de Jack Halberstam e os Poemas Reunidos de Jorge Lopes, são algumas das publicações da editora neste mês de março, e tal qual os demais títulos citados nestas linhas, também são referências de leitura para os dias que se seguem, em casa. 

"Temos lançado e produzido, contemplando uma grande variedade para o nosso catálogo. Ficção que vem dos prêmios literários, obras de poesia como os poemas reunidos de Jorge Lopes - que traz um registro importante da poesia urbana em Pernambuco, assim como  romance Opulência, interessante para o momento, já que ele fala da elite paulistana dos anos de 1970 e das ideias de sofisticação e excesso, em plena ditadura. A diversidade é grande, porque a ideia é publicar com qualidade e pensando em vários púbicos", complementa Diogo.


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