Cardi B
Cardi BFoto: Reprodução/Instagram

Quando o biólogo e escritor britânico Richard Dawkins empregou o termo “meme” pela primeira vez, na década de 1970, não imaginava que o fenômeno cultural se expandiria a ponto de virar uma linguagem universal. Em seu livro "The Selfish Gene", o autor dá nome ao conceito para explicar os processos de replicação e evolução cultural enquanto defendia sua tese do determinismo genético. Quase cinquenta anos depois, os memes saíram do campo da biologia e, hoje, são compreendidos como elementos da cultura popular na internet. Um dos debates recentes sobre a linguagem nasceu a partir do questionamento: em época de uma grande pandemia, os memes ajudam ou atrapalham na disseminação de informação?

O debate foi suscitado a partir de um viral da rapper norte-americana Cardi B, em que ela afirma estar estocando comida em decorrência do medo causado pelo novo coronavírus. “Eu não sei do que se trata esse coronavírus. Eu não entendo como essa merda de Wuhan, China, de repente está fazendo uma turnê pelo mundo", diz na gravação. No vídeo, ela até questiona brincadeiras e memes enviados nas redes sociais. "Eu estou com medo, estou ficando em pânico. Vocês ficam mandando figurinhas, achando que é brincadeira, como eu estava pensando, mas essa merda é real", afirmou na publicação.

 

Aslan Cabral, pesquisador em linguagem viral

Aslan Cabral, pesquisador em linguagem viral - Crédito: Divulgação

 

A repercussão do vídeo tomou grandes proporções. Há pessoas que consideraram a atitude da artista como positiva e outras que apontaram um exagero em suas desespero perante a pandemia. “Se quisermos discutir produção e disseminação de conteúdo, seja meme ou o que for, atualmente é importante tornar nossas argumentações campos mais complexos e híbridos como se na tentativa de mimetizar o fluxo da internet. Por isso, eu acho que com certeza ajuda e com certeza também atrapalha!”, argumenta Aslan Cabral, que é artista digital, social media e pesquisador livre em linguagem viral.

Para ele, é compreensível que os virais sejam recebidos de formas diferentes por quem está consumindo a informação. “Para algumas, deve ter causado a sensação de estar acessando um vídeo apenas engraçado, entretenimento, conteúdo feito de uma cantora pop. Para outras, ver essa mesma cantora pop dizendo 'bitch i’m scared' as fez ficar atentas pensando 'se a Cardi B milionária, blindada, norte americana está com medo, é porque a coisa é séria'. E também houve outros que, ao compartilhar em grupos, com amigos, 'vocês viram esse vídeo da Cardi B?', deram início a discussões das quais não fazemos ideia de quão positivas ou negativas foram”, explica o pesquisador.

 

Meme sobre o coronavírus

Meme sobre o coronavírus - Crédito: Divulgação

No oposto da perspectiva desesperadora do viral norte-americano, algumas páginas de meme estão adotando conteúdos didáticos como uma forma de lidar com a pandemia. Uma dessas é a Melted Vídeos, perfil do Instagram criado e alimentado por Felipe Misale, vem postando vídeos e fotos sobre o coronavírus com legendas aliadas ao humor. “Eu quero meus coroas vivos. #fiqueemcasa”, “Que triste ironia, meu cabelo está lindo em plena pandemia”, “Procurando Dengo” - inspirado no filme da Pixar, são alguns dos posts publicados na página em relação à quarentena e à necessidade das pessoas ficarem em casa durante este período.

Felipe Misale, criador da Melted Vídeos

Felipe Misale, criador da Melted Vídeos - Crédito: Divulgação

Para Misale, o mais importante do meme é passar uma informação com uma linguagem que se aproxima dos seguidores. “Essa estética do meme, diferente de um padrão de design informativo comum, pode ir além de uma simples informação pouco atrativa. É quase como aquele professor que leva o violão em sala, cria uma música sobre algum fato histórico ou teoria matemática para ajudar os alunos a assimilar o conceito da matéria. O mais importante é trazer o conceito para um campo que crie a relação de semelhança entre o emissor e o receptor”, explica o editor.

 

Cronologia dos memes

Cronologia dos memes - Crédito: Arte/Folha de Pernambuco

 

 

Meme e propriedade intelectual

Quando um dos remixes com o vídeo da Cardi B viralizou, chegando a ocupar uma das posições na parada musical norte-americana, a própria fez uma brincadeira em relação aos direitos autorais da música. Por outro lado, fãs e criadores de conteúdo levantaram se os memes também não são propriedade intelectual. “É uma propriedade intelectual diferente do conceito tradicional, pois revela uma estrutura colaborativa muito maior que a autoria individual. Ao criar memes de internet, na maioria das vezes, usamos imagens encontradas na internet e que não foram produzidas por nós. São novas mídias, novas economias, estéticas…por isso é necessário equipar essas discussões sobre propriedade intelectual com novas abordagens", questiona Aslan Cabral.

 

Memes sobre o coronavírus viralizaram

Memes sobre o coronavírus viralizaram - Crédito: Saquinho de lixo/Divulgação

 

Felipe Misale enfatiza, também, que essa produção intelectual só faz sentido se for compartilhada. “O meme só existe se for compartilhado, partindo desse pressuposto, não faz sentido criar pra mim. Parte da cibercultura é mutação de uma ideia, assim como um vírus. Uma vez que ele está rolando por aí, qualquer um com um Photoshop ou um app de celular pode apagar, adicionar texto ou fazer qualquer intervenção que irá definir outro caráter ao meme. Isso acontece muito nos memes políticos, a direita se apropriando de memes da esquerda e a esquerda mutando memes da direita como forma de subversão”, completa.

Meme e brega-funk 

 

Além da disseminação nas redes como um elemento cultural próprio, o meme também foi adaptado por outros movimentos. Um deles foi o brega-funk, que tem um fluxo de disseminação e produção semelhante à linguagem digital. Na semana passada, a dupla Shevchenko e Elloco lançou a música “corona vírus”, em cima do remix com a rapper Cardi B, como um próprio meme em conscientização à pandemia. Em entrevista à reportagem da Folha de Pernambuco, Shevchenko explicou que a ideia surgiu a partir da viralização no Instagram.

Para o jornalista e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, GG Albuquerque, envolve alguns fatores na ligação entre o gênero e o meme. “O ritmo de produção é um deles. Há cerca de um ano Shevchenko & Elloco lançam pelo menos uma música nova por semana, primeiro uma prévia no Instagram e depois a música completa no YouTube.”, explica, completando que o lado cômico é algo presente na cultura popular. “ Como dizia Martín-Barbero, o riso popular é uma vitória sobre o medo, pois torna risível, ridículo o poder, a moral, o sagrado e tudo aquilo que causa medo”, enfatiza.

Sobre os direitos autorais, que já foram questionados pela rapper em tom de brincadeira, o pesquisador frisa que faz parte do circuito periférico. “Via de regra, no brega-funk e na música popular periférica como um todo, os produtores fazem remixes e samples sem qualquer tipo de autorização. O motivo é a dificuldade do contato com artistas maiores, nacionais ou internacionais. Isso não quer dizer que não exista oportunidade para o sampleado obter retorno financeiro.”, diz GG Albuquerque.

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