Marconi Bispo, em cena de 'Luzir é Negro'
Marconi Bispo, em cena de 'Luzir é Negro'Foto: Marina Cavalcante/Divulgação

Sejam as que (en)cantam musicalmente ou as que (re)contam histórias. Femininas, masculinas, de pessoas de todas as raças, vozes são instrumentos que personificam clamores e representam multidões. E, nos palcos então, a serviço da arte, é entre as expressões a mais barulhenta, porque expõe vivências, ataca preconceitos e espanta males quando bradadas em chuveiros.

“Eu sou negro, gay, candomblecista, periférico. Sou minoria. Minha voz nos espetáculos sempre tentará alcançar esses lugares”, contou o ator e produtor Marconi Bispo, também formado pelo Conservatório Pernambucano de Música (CPM) e que, neste Dia Mundial da Voz, celebrado nesta terça-feira (16), ressalta a importância de vociferar em encenações como “Luzir é Negro”, do Teatro de Fronteira, ocasião em que ele interpreta a si mesmo e leva à plateia cicatrizes de sua convivência com o racismo.

Levado pelo que ele chama de sua “primeira paixão de infância”, o canto foi o pontapé inicial que levou Bispo a enveredar pelos caminhos da arte. Desde sempre havia ali uma voz potente que, no entanto, precisava ser lapidada entre aulas particulares e no Conservatório Pernambucano de Música.

“Minha voz sempre foi uma preocupação. Ao mesmo tempo em que ela se assinalava no mundo como uma voz pujante, ela precisava ser ajustada e educada. Mas entendi depois que muito do que se considerava como uma ‘necessidade de educação’ era para atender a uma formação que aprisiona em padrões e juízos de valor”, complementa o ator que atualmente atua e canta no espetáculo, de acordo com ele, “com timbre produzido pelo próprio corpo”. “Minha voz, meu canto, sou eu. Ela é meu registro no mundo e consequentemente, nos palcos”, ressalta.

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Assim como Marconi Bispo, que acredita na voz como primeiro recurso de autoconhecimento de artistas negros, a mezzo-soprano Anastacia Rodrigues também enxerga no instrumento uma expressão de linguagem que pode oprimir ou apaziguar ouvintes. Cantora com formação acadêmica em Letras e Música pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e curso técnico no CPM, desde os 17 anos ela canta e foi a partir de uma experiência em coral que sua atenção para a voz mudou e em 2017, surgiu a ideia de outro coral: afro.

“Tudo começou quando a diretora do Museu Afro-Brasil abriu as portas para iniciarmos um trabalho de valorização das vozes da diáspora africana, com aulas de canto e expressão vocal. Os homens eram poucos e faltavam aos ensaios, assim as próprias integrantes democraticamente decidiram que o melhor seria fazer um coral exclusivamente feminino, o que me alegra muito porque trabalhar o canto feminino traz de volta vozes de todas as mulheres que vieram antes de nós”, ressaltou.

Além de artista vocal, Anastacia é educadora e - sobre esse aspecto - ela registra a ausência de políticas públicas voltadas para a pedagogia vocal nas escolas. “O principal seria a volta do ensino de canto e de canto coral nas escolas. O ensino de música. E passa também pelas escolhas que o poder público faz nas grades de programação de teatros e shows”, contesta.

A mezzo-soprano lembra que desde os anos de 1990 é realizado o “Encontro de Corais de Pernambuco”, mas - por falta de apoio e divulgação - é um evento esvaziado. “O incentivo do cantar coletivo é fundamental para uma sociedade mais humanizada”, ressalta ela.

Encantaria, trio vocal feminino

Encantaria, trio vocal feminino - Crédito: Divulgação



Representatividade que empodera

O foco do grupo “Encantaria” é a música popular nordestina, mas sua formação exclusivamente feminina dá o “tom” de que as vozes de Andreza Karla, Gal Menezes e Marcela Souza desejam dar expressão ao timbre feminino. “Acreditamos que a representatividade empodera”, afirmaram as meninas.

Com acordes que variam entre tônica e graves, o trio se diz consciente de que “o mundo ainda é machista e na música não é diferente”. Dessa forma elas tentam, seja na escolha do repertório ou de nomes femininos na música, afirmar a voz da mulher na música. “Carecemos de um interesse público que valorize ideias como a do Encantaria. Precisamos de apoio maior e de uma valorização baseada no fato de que a cultura do local está sendo continuada. E nós sentimos o reflexo disso na luta para conquistar um espaço e ter um trabalho consciente”, complementa o trio.

E para elas, embora considerem a voz humana como o instrumento mais difícil de se trabalhar, é também o mais perfeito e elevado meio de “fabricar sons musicais”, porque através dele há possibilidade de traduzir e transmitir ideias. “Creio que o maior elogio feito a um instrumento musical é dizer que ele canta”, concluem.

Mas a melhor voz pode não servir (para a música) se não houver um ouvido musical e dicção perfeitas, além de ritmo, órgãos fonéticos, expressões faciais, corporais e leitura musical. Uma composição que deve ser pensada por quem deseja "profissionalizar" os timbres e manifestar, nos palcos (e na vida), o poderio de fazer se ouvir e esbravejar a arte.

Dia Mundial da Voz: celebrações e cuidados

Foi aqui no Brasil que tudo começou. Em 1999, a celebração da voz ganhou data oficial, no dia 16 de abril. A partir de 2003 o instrumento humano que é a voz passou a ser comemorado também em países da Europa e Ásia, além dos Estados Unidos.

Nesta terça-feira (16), das 7h às 14h, na Estação Central de Metrô, no Centro do Recife, e na Praça do Derby, fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas estarão juntos no Plantão da Voz, oferecendo avaliação vocal, orientações e encaminhamentos para realização de videolaringoscopia.

A ação também será realizada em toldo montado embaixo do Viaduto de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes. O tema da campanha do Conselho Regional de Fonoaudiologia (Crefono - 4ª região) deste ano, que tem como padrinho o ator Lázaro Ramos, é "Seja Amigo da sua Voz".

E para quem acha que cabe só aos profissionais os cuidados com a saúde vocal, é bom ficar de olho "na garganta", mesmo para os "cantores da chuveiro", os tagarelas ou até os que falam pouco. Precauções e zelos são recomendados por fonoaudiólogos para todos, sem distinção e sintomas de tosse frequente, alterações no timbre e rouquidão constantes, também devem ser observados com cuidado.

Dicas para a saúde da voz

- Ingerir bastante água, de preferência em temperatura ambiente, para manter as pregas vocais hidratadas, e praticar exercícios físicos

- Não realizar abuso vocal, como gritar, falar alto (ou em tom agudo), falar em ambiente barulhento (pois estará competindo com os ruídos)
- Falar pausadamente

- Não abusar de bebidas gasosas, para evitar efeitos como o refluxo, e não fumar (além do risco de câncer, a fumaça causa desconforto na garganta, levando ao pigarro e tosse constantes). Evitar bebidas alcoólicas

- Dormir bem. Como as pregas vocais são músculos, dormir descansa a voz, por descansar também a musculatura

- Não deitar logo após as refeições para evitar refluxo laringofaríngeo

- No caso de artistas, é importante fazer aquecimento e desaquecimento da voz, durante o exercício da profissão. E manter um período de repouso vocal durante o intervalo entre as atividades/ shows/ apresentações

Fontes: Fonoaudiólogas: Karine Pontes - Contato: (81) 99952-7098/ Glauciene Maciel (HapVida Boa Viagem)


Espaços com Aulas de Canto

Conservatório Pernambucano de Música (CPM)

Canto Popular e Erudito, nas modalidades iniciante e avançado, a partir dos 17 anos
Inscrições: em janeiro e em junho
Curso técnico é gratuito e, para iniciantes, é efetuado o pagamento mensal de uma taxa
Onde: av. João de Barros, 594, Santo Amaro
Informações: (81) 3183-3400

Centro de Educação Musical de Olinda (Cemo)
Canto e Canto Coral, iniciante a partir dos 6 anos e técnico
Inscrições: em janeiro e em julho
R$ 40 (mensalidade)
Onde: av. Pan Nordestina, s/n, Salgadinho, Olinda
Informações: (81) 3241-5065

Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Graduação e extensão
Inscrições por vestibular
Gratuito

Marconi Bispo, em cena de 'Luzir é Negro'
Marconi Bispo, em cena de 'Luzir é Negro'Foto: Marina Cavalcante/Divulgação
Anastacia valoriza vozes da diáspora africana em aulas no  Museu Afro-Brasil, no Bairro do Recife
Anastacia valoriza vozes da diáspora africana em aulas no Museu Afro-Brasil, no Bairro do RecifeFoto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

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