João Gilberto, o 'pai da bossa nova'
João Gilberto, o 'pai da bossa nova'Foto: Divulgação

A Bossa Nova não foi (tão somente) um gênero musical surgido no Brasil no final da década de 1950. Tem particularidades demais nesse movimento que transcende quaisquer definições via ‘Wikipédia’ e outras buscas similares. “O que tem de gente que curte, por exemplo, Caetano e Gil, e nem sabe que o chão que pisa foi formado pela influência de João Gilberto sem nunca tê-lo escutado”, assevera, de pronto, Carlos Sandroni, doutor em Musicologia e professor no Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), quando questionado sobre legados do estilo fincado pelo compositor baiano.

Recentemente, no último 6 de julho, aos 88 anos, ele fez sua passagem, fato que levou músicos, críticos e entusiastas a rememorar sobre a cadência do ritmo conduzida por ele ao lado de outros pilares como Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e Roberto Menescal. "Houve um padrão seguido por toda a Música Popular Brasileira, a partir dele, e que permanece sob interferência do estilo padronizado por ele", complementa.

Foi pelo samba-canção da cantora Elizeth Cardoso (1920-1990), intérprete consagrada do gênero, que se chegou à Bossa Nova, mais precisamente pela faixa "Chega de Saudade", composição de Vinicius de Moraes (letra) e Tom Jobim (música), ritmada pela batida do violão de João Gilberto. O álbum era 'Canção de Amor Demais' (1958) e, entre as tantas versões e timbres que ousaram experimentar da canção, foi com o sussurrar da voz do compositor baiano que o movimento foi conduzido em um single que continha, além da música que deu nome ao disco 78 rotações, a canção 'Bim Bom', de sua autoria.

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 "Ele realmente revolucionou. Não só na peculiaridade do ritmo mas também nos famosos acordes dissonantes. E, sim, tínhamos o Noel Rosa e o Mário Reis que já faziam uma voz mais falada, mas foi com o João que isso se tornou padrão", ressalta Sandroni. O LP de mesmo título sairia tempos depois, em 1959, dessa vez com faixas compostas também por Tom, Ary Barroso e Dorival Caymmi.

Para Marcos Valle, cantor e compositor, expoente do gênero e em plena atividade, aos 75 anos, "a Bossa Nova deixou uma marca para sempre, com influências que continuam fortes e de diversas maneiras". Em entrevista à Folha de Pernambuco ele citou artistas contemporâneos que se valem do estilo, reforçando que a estética que completou seis décadas em 2018, permanece vigente. "A Adriana Calcanhotto afirmou que se não fosse a bossa, ela não existiria. O Caetano já disse da influência, assim como o Gilberto Gil e tantos artistas novos. Porque ela (a bossa) está aí infiltrada em um monte de movimentos de música brasileira que vieram depois".

Ao lado de Roberto Menescal, Marcos Valle esteve à frente da produção do álbum 'Tom da Takai' (Deck, 2018), trabalho da cantora e compositora Fernanda Takai com releituras de canções de Tom Jobim. "Esse projeto que fizemos nos deu um imenso prazer. Um disco com coisas não tão conhecidas do Tom e de acordo com a estética da Fernanda, sem esquecer da essência original. Essas propostas são muito interessantes e todas as leituras, até as mais ousadas, são válidas. Todas serão bem-vindas", comemora ele que está em turnê pela Europa, revisitando a fase 'boogie' do seu álbum mais recente "Sempre" (2018).

"O repertório da Bossa Nova me interessa
Em crônica sobre "Tom da Takai", o jornalista e escritor Ruy Castro - autor de obras como 'Chega de Saudade - A história e as histórias da Bossa Nova' e 'A onda que se ergueu do mar - Novíssimos mergulhos na Bossa Nova', ambos pela Companhia das Letras - ponderou sobre o disco da Fernanda Takai que, segundo ele, "garantiu a eternidade do repertório, com leveza e juventude, e faz dele (Tom Jobim) nosso contemporâneo".

Em entrevista a esta editoria, a cantora e compositora amapaense afirmou ter feito o álbum pensando na Nara Leão (1942-1989), nome de peso da Bossa Nova ao lado de outros tantos que disseminaram o gênero e que, de acordo com ela, nunca deixou de ser atual. "Estou em Tokyo para uma série de shows no 'Blue Note', ao lado da Lisa Ono (artista nipo-brasileira de Bossa Nova), para o projeto Bossa Amorosa e com ingressos esgotados.

O repertório do gênero me interessa, ainda há um frescor nele que atravessa gerações. Muitos artistas que deram a partida no movimento estão na ativa e outros renovam seu público através de novas interpretações", destacou Takai que destaca o movimento entre os de maior expressão mundial.

Menescal e a Bossa
Roberto Menescal, 81 anos, disse que "nunca trabalhou tanto como como agora", em alusão ao legado do gênero em que foi vanguardista junto a outros nomes das gerações despertadas no final da década de 1950. Alguns deles já citados nestas linhas, incluindo o saudoso João Gilberto, uma das vozes de "O Barquinho", clássico 'bossanovista' composto pelo artista capixaba ao lado de um dos seus parceiros mais frequentes, Ronaldo Bôscoli. "O Brasil é o que menos abraça a música que fazemos, porque mundo afora permanecemos em maratonas de shows", ressaltou ele, durante o tempo em que discorreu sobre a Bossa Nova em entrevista à Folha de Pernambuco:

Roberto Menescal integra a geração da Bossa Nova dos anos de 1960

Topa, Takai? 

"Sempre convidava artistas com quem trabalhei ou com quem tive algum projeto antigo, para participar dos shows em celebração aos meus 80 anos de vida. A (Fernanda) Takai foi uma delas e na mesma ocasião chamei também o Marcos Valle. Estávamos tocando, no meio do palco - era 'Estrada do Sol', do Tom Jobim, com arranjos diferentes do original - quando me veio à cabeça a concepção de um projeto. Parei a música no meio e falei: Takai, desculpe, ao público também, mas tive uma ideia que eu não quero perder. Quero propor fazer músicas do Tom, com revisitações e arranjos feitos especialmente para você Fernanda. Aí perguntei, topa Takai? Ela falou, 'tô dentro'. Marcos, topa? 'Tô dentro'. Depois do show trocamos mensagens com a Deck (gravadora) que na mesma hora respondeu que gostaria de fazer e foi assim que nasceu o projeto (Tom da Takai, Deck, 2018)".

A Bossa que permanece

"Te garanto o seguinte, Marcos Valle e eu nunca trabalhamos tanto como estamos trabalhando nessa fase de nossa vida. O que temos feito pelo Brasil e mundo afora... Já fizemos shows em grande parte dos países. Agora mesmo o Marcos está pelo mundo (Europa). Por aqui é onde menos se abraça a música que fazemos. Mas agora, com a passagem do João Gilberto, muitos fatos foram levantados sobre a Bossa Nova, e no mundo inteiro. Acho que está tudo muito vivo".

Era só aumentar o volume

"A Bossa Nova veio como modernização da fase em que se tinha samba-canção e bolero dominando. Imagine nós aos 18, 20 anos cantando ‘Ninguém me ama, ninguém me quer’ ou ‘Garçon apaga essa luz que eu quero ficar sozinho’. Era tudo muito para baixo, uma geração rígida, que trabalhava de terno e gravata. Viemos quebrar um pouco isso e costumo dizer que tiramos a gravata da música e passamos a nos vestir diferente da geração anterior, com mais leveza, natureza e esperança, que era o que falávamos na Bossa Nova. Veja se não concorda: ‘Coisa mais Bonita é você assim... (Coisa Mais Linda, Carlos Lyra, 1965) ou ressaltando paisagens em ‘Dias de luz, festa de sol, e um barquinho a deslizar no macio azul do mar’, sabe?

Ao invés do samba-canção ‘Se eu morresse amanhã de manhã, não faria falta a ninguém, eu seria um enterro qualquer, sem saudade e sem pena de alguém’ (Nora Ney, 1955). Deus me livre! Além disso a Bossa Nova trouxe uma maneira de cantar usando nova tecnologia, porque não precisávamos mais gritar como faziam antes. Quando a gente descobriu que era só aumentar o botão do volume, tudo mudou (risos)".



 

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