Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)
Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Maria Luíza, sete anos, a mais serelepe da turma de dança do Movimento Pró Criança, no Espaço Maria Helena Marinho, Bairro do Recife, não sabe o que vai ser quando crescer. Sem fôlego, depois dos passos de tesoura, ponta de pé e calcanhar, a pequena dançarina de frevo, ao ser questionada sobre o futuro, disse que será cozinheira ou talvez, artista.

Mas quer saber? Tomando por base a sua rotina, de uma criança que estuda, brinca e é explicitamente feliz manipulando sombrinhas de Carnaval ou maleavelmente abrindo escala para sair bem nas fotos, é certo que o caminho dessa artista olindense será promissor, inspirada pela arte que é a sua vida, desde já. "Eu sou feliz que só aqui", admite ela. E ninguém há de duvidar.

Com os mesmos ares de felicidade, sorridente e cheio de desenvoltura, Pedro Henrique Castro, 14 anos, frequenta a mesma aula da pequena Luíza. Morador da Comunidade do Pilar, localizado no mesmo bairro da unidade - fundada no início dos anos de 1990, pelo então arcebispo de Olinda e de Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, e que mantém espaços, também, nos Coelhos e em Piedade - ele confessa que até quando está de férias quer dançar. O que ele vai ser no futuro?

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"Vou ser professor, bailarino, não sei ainda, mas vou continuar fazendo o que faço aqui. Nem sei dizer o quanto a arte é importante para mim, só sei que quando estou triste, acontece alguma coisa em minha família, em minha casa, eu boto uma música e começo a dançar, e daí esqueço todos os problemas. Muda tudo em minha vida." Se também haveremos de duvidar? Jamais! Porque é da essência da dança, da música, do teatro, do circo, das artes plásticas, da literatura e de toda e qualquer expressão cultural, (re)direcionar trajetórias, aguçar pertencimentos e escancarar sorrisos. O que cabe à arte e o que se arranca dela dos palcos, é só um resquício do que pode ser feito dela, socialmente.

"Hoje me vejo como educador, no papel de transformador de vidas. Também me coloco no papel de enfrentamento, porque as dificuldades atuais são muitas. Nas aulas tem quem se destaque e que seguirá carreira na dança. Os que não forem, tá tudo certo também, porque sei que vão permanecer no caminho do bem, como pessoas. Não é fácil ser educador social, mas é gratificante. Se me perguntarem se penso em meus problemas enquanto dou aula, digo que em nenhum momento. O retorno chega quando reencontramos esses pequenos como cidadãos lá na frente", descreve Ramalho Júnior, há 13 anos à frente dos passos do frevo, do maracatu, da ciranda e de tantos outros, na entidade que pretende formar Maria Luíza, Pedro Henrique e outras dezenas de futuros dançarinos (e cidadãos).

Música como "arma" de inclusão
Há pouco mais de uma década, musicistas de sete a 21 anos das Comunidades do Coque, no Recife, e de Camela, em Ipojuca, além da Zona Rural de Igarassu, pairam em palcos mundo afora, com concertos e apresentações tomadas pela sintonia de instrumentos e de vidas em comum, transformadas pela música. É este o sentimento entre os integrantes da Orquestra Criança Cidadã (OCC), "descobertos" pelo magistrado João Targino quando, em parceria com o maestro Cussy de Almeida (1936-2010) e o desembargador Nildo Nery dos Santos (1934-2018), idealizou o projeto em 2006. "Jamais imaginei que a Orquestra Criança Cidadã tomaria um rumo de tantas conquistas", confessou ele, que também é o coordenador geral da OCC, impulsionando socialmente, através da música, mais de 350 crianças e jovens nos três núcleos. "As maiores láureas do projeto se constituem nas transformações de vidas operadas a cada dia dos jovens músicos. Estes são os mais belos e significativos troféus que erguemos", complementa.

Que o diga Herlane Franciele, 24 anos, hoje estudante do Conservatório da Nicholls State University, no estado americano da Luisiana. Nascida no Coque e na OCC, uma vez que ela ingressou no projeto nos primeiros acordes da Orquestra em 2006, aos 11 anos, ela se cercou da arte para "transformar-se" e seguir como musicista passando, inclusive, pelo Bacharelado em Instrumento na Universidade Federal de Pernambuco. "Para mim a música foi muito transformadora, pois venho de uma periferia. O que as pessoas esperam de alguém que vem da periferia?", questionou Herlane. Como resposta, assim como ela, outras dezenas, centenas de nomes saem das comunidades alçadas por expressões culturais das mais diversas.

"Acho que ainda temos esperança. Sei que minha geração quer muito fazer música, só nos falta oportunidade. Falo da música, mas acredito que o pensamento é o mesmo em todas as áreas culturais. Sinto falta da arte ser mais explorada fora dos palcos, porque ela pode transformar vidas. Eu e outros colegas da OCC somos prova disso."

Pepê do Cavaco é também uma prova da aliança assertiva entre arte e vidas que se transformam. Um violão encontrado pelo primo, no lixo, somado ao aperreio em comprar cordas para o instrumento e usá-lo, resultou no caminho permeado por ele. De Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes, onde mora, Pepê deslanchou e seguiu, inicialmente, pelas veredas do samba, até se tornar professor de música e disseminar a arte como meio capaz de direcionar trajetórias. "Minhas vivências, conhecendo outras culturas, me deu a noção do quanto tenho sorte em ser pernambucano e viver cercado por tantos ritmos. Mas temos uma cultura pouco explorada, muita coisa ainda pode ser feita para dar a outras pessoas o que a arte me deu, como adquirir a noção de pertencimento do meu lugar na sociedade. Nossas periferias estão distantes do acesso às expressões locais, as pessoas não têm direito de escolha de teatros e museus, consomem o que é dado a elas."

Ao "respeitável público", o circo
O viés social da arte também está nos picadeiros da Escola Pernambucana de Circo (EPC). Há pouco mais de duas décadas o espaço, na Macaxeira, Zona Norte, é tomado por crianças e adolescentes de bairros do Recife e de cidades como Igarassu e Paulista. Boa parte deles saem das periferias e encontram no circo uma ferramenta para "trabalhos transversais e formação humana e cidadã", de acordo com Paula de Tassia, coordenadora pedagógica da escola. "Nosso trabalho é pautado em formar pessoas e artistas a partir da pedagogia do Circo Social. Usamos o circo como ferramenta facilitadora e todas as responsabilidades e competências que o fazer artístico exige. Temos um quadro de educadores e de outras pessoas que se fortalecem enquanto cidadãos atuantes, que reconhecem seus lugares na comunidade", ressalta.

Com educadores que outrora foram ex-alunos, boa parte dos futuros cidadãos e/ou artistas circenses da EPC chegam ao espaço ainda crianças. Pelo menos mais de cinco mil pessoas já passaram pelo espaço. Atualmente, são 82 educandos, que devem seguir, assim como tantos outros, para a Trupe Circus - grupo artístico da escola formado por ex-alunos, educadores e outros artistas.

"Muitos passaram pouco tempo, mas o suficiente para serem impactados pelo trabalho da entidade. Outros permaneceram na instituição e se tornaram artistas, educadores, formadores da própria EPC e de outros espaços de circo e outras linguagens artísticas", complementa Everton Lima, assessor de gestão do espaço, que explica também sobre a "pegada" do Circo Social como pedagogia de ensino. "Nada tem a ver com o que ainda é entendido por muitos como ‘circo para pobres’. O que fazemos é reconhecer na arte circense elementos fundamentais para o desenvolvimento humano, exercício da cidadania e garantia de direitos. O Circo Social sonha com um mundo integrado, solidário, generoso e coletivo, assim como é o circo, redondo, itinerante e diverso."

"Foi meu irmão, Kauã, quem me disse que isso aqui era muito bom. A gente vem pra cá, sai das ruas e da casa dos outros. Circo é uma coisa que deve ser respeitada, sabe? Porque tem gente que sobrevive dessa arte e eu quero ser artista de circo, já tenho um caminho certo", garante Kaike Adriano dos Santos, 11 anos, praticante de acrobacias. E aí, alguém duvida?

Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)
Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
Kaike é um dos alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)
Kaike é um dos alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)
Alunos da Escola Pernambucana de Circo (EPC)Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
Alunos de dança do Movimento Pró Criança, unidade Bairro do Recife
Alunos de dança do Movimento Pró Criança, unidade Bairro do RecifeFoto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
Pedro Henrique, da turma de dança do Movimento Pró Criança, unidade Bairro do Recife
Pedro Henrique, da turma de dança do Movimento Pró Criança, unidade Bairro do RecifeFoto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco
Orquestra Criança Cidadã (OCC)
Orquestra Criança Cidadã (OCC)Foto: Divulgação
Herlane é ex-integrante da OCC e hoje estuda música em um conservatório americano
Herlane é ex-integrante da OCC e hoje estuda música em um conservatório americanoFoto: Divulgação

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