Documentário de Paula Sacchetta é exibido hoje dentro da Mostra Expectativa/Retrospectiva da Fundaj
Documentário de Paula Sacchetta é exibido hoje dentro da Mostra Expectativa/Retrospectiva da FundajFoto: Divulgação

 

Não é exagero dizer que os avanços e as conquistas que as mulheres obtiveram nos últimos cem anos esbarram nos recorrentes casos de violência que, infelizmente, ainda fazem muitas vítimas no mundo inteiro. Pior. Apesar do discurso de empoderamento e de que o público feminino ocupa hoje papéis antes tidos como masculinizados, as mulheres ainda são postas como “coisa” e “propriedade”, o que numa visão puramente machista justificaria as agressões e humilhações diárias.

Essa problemática e suas raízes se tornaram mote do documentário “Precisamos falar do assédio” (2016), da diretora Paula Sacchetta, que vem para provocar discussão. A película terá sua estreia nesta quinta-feira (8) no Recife, durante a 19ª edição da Mostra Expectativa/Retrospectiva, no Cinema do Museu da Fundação Joaquim Nabuco. Na ocasião, outros três filmes que trazem a mulher como tema central também serão exibidos.

Filmado em uma van-estúdio que percorreu diferentes bairros das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, o projeto de Sacchetta, com produção da Mira Filmes, ouviu 140 mulheres, entre 15 a 84 anos, de diferentes realidades sociais. O filme é uma espécie de continuidade de um movimento emergente das mulheres que decidiram quebrar o silêncio nas redes sociais, no início do ano, após relatarem os abusos sofridos com o uso da hashtag #meuprimeiroassédio.

O cenário utilizado pela cineasta torna ainda mais próxima à relação entre quem filma e quem é filmado, entre os espectadores e as histórias - só o mais insensível dos seres humanos não é capaz de se sentir tocado ou até incomodado com os 80 minutos de descrições.

A escolha da diretora de colocar as mulheres, em close, sentadas numa cadeira, em frente a uma câmera que permanece parada, dentro de uma van isolada e escura, simulando um confessionário, humaniza ainda mais os duros desabafos feitos pelas 26 personagens selecionadas. Sacchetta teve também o cuidado de oferecer máscaras para as vítimas que ainda se escondem dos agressores e da culpabilização que carregam.

Coincidência ou não, chama a atenção certas similaridades nos relatos, entre elas, a de que o público foi, em sua maioria, vitimado na infância ou adolescência por pessoas próximas e em situações cotidianas. Recorte, talvez proposital, feito pela cineasta com o objetivo de mostrar o quão comum o problema tem sido, desde a sua omissão até a falta de traquejo nos desdobramentos, soluções e respostas da sociedade, das famílias, da polícia e do poder público. Há aqui, espaço para críticas e um convite à reflexão.

O filme dispensa trilha sonora. O som ambiente, marcado principalmente pelo peso das palavras e choro de algumas vítimas, é realista o suficiente para prender a atenção do espectador. Baseado apenas nas falas das personagens, sem a intervenção de um entrevistador, o documentário possui cortes secos que alinhavam uma fala a outra. Estratégia que dá coerência aos relatos e linearidade ao filme.

Motivada a dar voz a outras mulheres, o documentário é ainda transmídia. Ele sobressai às telas e acontece ao mesmo tempo na internet, no site precisamosfalardoassedio.com.

Lá, é possível ver, na íntegra, os 140 depoimentos coletados. Além disso, há também um espaço voltado para que as mulheres, que queiram, gravem depoimentos sobre suas traumáticas experiências. Na página, a internauta pode ainda pedir que a van passe pela sua cidade. Proposta que, segundo a produção, deve ser replicada Brasil a fora. O debate está vivo. É preciso falar sobre o assédio.

 

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